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terça-feira, 3 de julho de 2012

A peleja do violeiro Chico Bento com o rabequeiro Zé Lelé

A Peleja do Violeiro Chico Bento com o Rabequeiro Ze Lele

Demorô! Mas aconteceu... e na varanda do cumpadre Seu Juca Barnabé! O confronto desperta a curiosidade da vizinhança... E Chico Bento risca, logo de saída:

"Pois eu tenho uma viola
Batizada de Luzia.
Ela é feita de pinheiro
Que eu comprei na serraria."

Ao que Zé Lelé responde:


"Ai, eu tenho uma rabeca
Que se chama Serafina.
Ele é feita de pau nobre,
Quase nunca desafina."

O confronto do século - deste, não do passado - acontece nas páginas do livro "A peleja do violeiro Chico Bento com o rabequeiro Zé Lelé", em que os personagens de Maurício de Sousa cantam versos de cordel de Fábio Sombra, membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, numa genial iniciativa que tem, entre outras motivações, levar às novíssimas gerações o som e a histórias desses instrumentos que se tropicalizaram ainda no período colonial. Sim, ouvir também, pois o livro é acompanhado por um CD em que a história é contada por nada menos que Almir Sater. A publicação é da editora Melhoramentos. Só uma amostrinha da brincadeira, nesse Book Trailer (Que chique! Notem a mistura de elementos gráficos do quadrinho com os da literatura de cordel...):


Ah!, a dica veio do violeiro Cláudio Lacerda! Abraço, Claudião!


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Série Momento do Compositor: João Pacífico, com Raul Torres

Ficheiro:João Pacífico.jpg08.jpgPuxa vida, já é quinta e ainda não consegui postar o compositor apresentado no domingo passado no programa de Danilo Darós na rádio Planalto! E justo ele, o compositor dos compositores do gênero caipira, João Pacífico! Quando tomei a decisão de escrever a história da música caipira, em 1998, e contar como ela foi se transformar na chamada música "sertaneja" a partir da incorporação de influências musicais de gêneros estrangeiros (guarânia, rancheira, country, etc.), decidi começar por João Pacífico, o compositor de Cabocla Tereza, que tanto ouvi durante a minha infância, especialmente com a declamação dos versos iniciais pelo meu pai. Soube que havia um depoimento no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo e para lá fui. Passei uma agradável tarde ouvindo as histórias do compositor nascido em Cordeirópolis - "se chamava Cordeiro, pois lá havia um homem que fazia cordas; depois mudaram o nome para Cordeirópolis", conta - a temporada em que trabalhou nos vagões da Sorocabana como "ajudante de lava-pratos", onde, aliás, conheceu o porta modernista Guilherme de Almeida, que o recomendou a Paraguassu. Ao chegar à rádio Cruzeiro do Sul não encontrou o seresteiro, mas topou com Raul Torres, a quem ofereceu uma embolada de sua autoria. Começou aí uma parceria que se estendeu por longos anos, ponteada de sucessos, entre eles as toadas históricas Chico Mulato e Cabocla Tereza, além de Pingo d´Água, que lhe rendeu o Disco de Ouro, e Mourão da Porteira, todas elas reproduzidas no programa de Danilo Darós. Mourão da Porteira era a preferida de Guilherme de Almeida, que ressaltava a apurada poética de Pacífico ao usar uma metáfora tão simples e tão profunda... Ao final da tarde, envolto pela dicção do compositor, aliás, um esplêndido recitador de seus próprios versos, saí do MIS decidido a aprofundar a pesquisa e, especialmente, em ir até Guararema ouvir o próprio João Pacífico, que lá vivia. Qual não foi minha surpresa quando, dois ou três dias depois, recebo o e-mail do crítico teatral Valmir Santos me contando que Pacífico não mais estava entre nós... Mesmo assim, sua voz percute em todas as páginas do livro Moda Inviolada - Uma história da música caipira. Para reencontrar essa voz, a seguir o próprio, com Adauto Santos. cantando o Chico Mulato. E depois Tonico e Tinoco interpretando o compositor. Na próxima semana tem mais João Pacífico, dessa vez cantando suas modas e toadas no período posterior à dupla Raul Torres e Florêncio (este último, vale ressaltar, foi quem fez a maior parte dos arranjos das composições de Pacífico gravadas pela dupla).



quinta-feira, 10 de maio de 2012

As festas do mês de maio


Cartaz de 2012 

Repleto de festas religiosas, o mês de maio é especial para o caipira. Para quem, aliás, festa é sinônimo de sociabilidade - algo tão caro ao caipira, metido nos fundões, trabalhando de sol a sol - de música e de dança. A concentração das festas acontece após o período de recolhimento da Quaresma, em que os santos são cobertos e o foco do fiel é refletir sobre a Paixão de Cristo. Bom, os festejos começam com a Festa de Santa Cruz, que em Carapicuiba, por exemplo, acontece nos primeiros dias do mês. Lá, mantida pela família Camargo, a tradição envolve a dança ante as cruzes postadas na frente de cada casinha da Aldeia jesuíta, acompanhada de cantoria conduzida por violeiros e percussionistas que tocam reco-recos de cabaças e puítas (a avó da atual cuíca). Em algumas regiões se comemora também a Festa de São Benedito, santo negro patrono das Congadas, muitas vezes coincidindo com o 13 de maio. E o mês abriga ainda o domingo de Pentecostes, ocasião em que, segundo o evangelho, o Espírito Santo teria se manifestado sobre os apóstolos como uma língua de fogo. Simbolicamente essa manifestação se transformou na tradicional pomba branca. Em Mogi das Cruzes, no sábado que antecede o Pentecostes, há a famosa "Entrada dos palmitos", assim chamada porque o cortejo passa por um caminho ornado com as folhas do palmiteiro. A origem da Festa do Divino vem da promessa que a rainha Isabel, de Portugal, fez no século 14 de levar sua Corôa e sua Corte para saudar a igreja construída em honra ao Espírito Santo. Assim, ela teria atravessado Lisboa em cortejo. O mesmo cortejo acontece em Mogi: na frente segue a Corôa acompanhada pelas bandeiras vermelhas, depois vêm os carros de boi com suas rodas rangendo, os grupos de Congada e de Moçambique, Marujada e Folia, e, por fim, os Cavaleiros do Divino. No cartaz desse ano, aliás, descubro, com emoção, a imagem pintada de Dona Rita, das mais tradicionais rezadeiras da Festa, falecida há pouco tempo. A seguir, a Congada de Santa Ifigênia, também da cidade, presença constante nas festas de maio.



quarta-feira, 11 de abril de 2012

Arnaldo Freitas e sua Amanara

Rapaz, tenho orgulho desse menino! Não é que ele tá compondo cada coisa bonita... Faz tempo que não falo com ele, ambos envolvidos com a correria dos dias. Mas paro pra ouvi-lo e fico emocionado! Arnaldo, que dividiu comigo, com o Osvaldinho e a Marisa Viana, além do genial Pena Branca um programa da Ione Borges nos idos de 2006, foi para o regional acompanhar nada menos que a madrinha Inezita Barroso, gravou, tocou e continua embelezando a arte das dez cordas. Ele é filho de Marília-SP, está na capital desde 2003, passou pela orquestra do Rui Torneze, gravou o CD Divisa das águas e promete um segundo trabalho para este ano ainda. Enquanto não vem, vamos ouvir Amanara!

quinta-feira, 22 de março de 2012

A escola privilegiada de Rodrigo Mattos

Quando bati na casa simples na zona Leste de São Paulo, quase ABC, em Sapopemba, o jovem rapaz desceu a escada da frente vestido a caráter: botas pretas, calças jeans, camisa estilosa. Parecia sertanejo, até ele sentar no sofá da casa da sua tia, onde me recebeu, pegar a viola e riscar os primeiros acordes. Era Tião Carreiro puro, até no timbre da voz. Respondia às minhas perguntas, mas queria mesmo era tocar e cantar. Tinha acabado de lançar Juventude da Viola e acabou me convidando para comer, no domingo, a leitoa que aguardava, quietinha, no grande freezer da casa. E lá fui eu, acompanhado das gêmeas Célia e Celma. O encontro foi interessante, uma verdadeira festa para mim, que estava concluindo uma pesquisa sobre a música caipira, mas que só seria publicada dali a seis anos. Estavam lá também Téo Azevedo e Cacique e Pajé, sendo que na época, quem atendia pela alcunha de Pajé era o Índio Cachoeira, que depois deixou a dupla. Ah, e o menino talentoso, no centro das atenções: com 18 anos, o violeiro Rodrigo Mattos. Mantinha uma mistura de respeito aos mais velhos e uma curiosidade de aprender, aprender, aprender. Usando sempre o ouvido. Foi assim que conseguiu tirar na viola as modas de Tião Carreiro que ouvia nos discos. Hoje o garoto já chegou aos 30 e consolidou uma carreira. Rodou a Europa com sua viola, montou diversas duplas. Divide agora os palcos com Praiano. Continua caipira, graças a Deus. E pensar que, na adolescência, pediram que ele gravasse rap... Depois dizem que é a pirataria que está ameaçando a música brasileira!

sexta-feira, 9 de março de 2012

O timbre que emociona: Pereira da Viola


Semana corrida, mas que se encerra com um alento: o timbre emocionante de Pereira da Viola. Pois não é que esse moço, cuja originalidade musical aliada ao domínio do instrumento, está construindo uma obra que pouco se encontra similar na música brasileira? Lembro de ter ouvido ele contar, em diversas ocasiões, que começou tocando viola na praça da cidade em que morava em Minas, Serra dos Aimorés, e que o público não se deixava levar pela sonoridade das dez cordas. Mas quando aparecia um clone de Michael Jackson, a praça lotava. Inconformado, Pereira comentava com os amigos: "Parece que os estrangeiros somos nós!" Isso não impossibilitou que ele construísse uma carreira já longa, com registros violeiros bem distintos, que inclui desde a mais tradicional moda de viola até calangos, baladas, aboios, maxixes... Essa Fuxico - a canção que me emocionou nessa sexta - está no CD Viola Ética e é de autoria de Dinho Oliveira e Gutemberg Vieira. Letra primorosa, ganha demais com a harmonia da viola e a voz desse que é um dos principais violeiros atuais desse país de forrós de plástico e ritmos universitários! Então, vamos ao PhD!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Viola campaniça, avó da nossa violinha

Pedro Mestre andou fazendo shows com o nosso Chico Lobo entre 2006/2008, num duo que além de promover o encontro de dois sotaques da viola, celebrou o passado e o presente desse instrumento tão entranhado na nossa cultura (afinal, as dez cordas foram estiradas por aqui desde o período colonial). O encontro de violas rendeu um CD com este mesmo nome. Pedro Mestre é um dos últimos defensores e tocadores da ancestral viola campaniça, típica da região portuguesa do Baixo Alentejo, com as mesmas dez cordas da viola caipira. É bem mais acinturada - chega a lembrar uma daquelas vedetes do teatro de revista brasileiro (este também trazido de Portugal e aqui aculturado) - fez história animando bailes rurais. É tocada com o polegar, sempre guarnecido com uma unha postiça feita com um pedaço de cana. Por tempos permaneceu guardada no tesouro das antigas famílias alentejanas, até ser redescoberta recentemente. A viola viveu época de ouro na Aldeia Nova ainda nos anos 1960, povoado consumido em 1971 pelas águas de uma represa. Um desses tocadores foi Chico Bailão, que acabou transmitindo a arte da campaniça para Pedro Mestre, jovem violeiro de Castro Verde. No III Encontro de Culturas, acontecido em 2006 na cidade de Serpa, em Portugal, Mestre e Lobo se encontraram, o que gerou um convite para o violeiro português conhecer a velha Minas Gerais. A visita foi retribuída no ano seguinte, quando ambos fizeram temporada pelas cidades portuguesas e decidiram gravar o CD. Para conhecer a sonoridade casada das violas, a avó campaniça e a neta caipira, o trecho de um show apresentado no Sesc de Bauru em 2007.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Braz da Viola prepara nova geração de violeiros


Com uma contribuição pra lá de relevante para a música caipira, Braz da Viola, de São José dos Campos - morando em São Francisco Xavier, no alto da Serra da Mantiqueira - é luthier, professor de viola, criou métodos para dominar as dez cordas da dita cuja, organizou a Osquestra de Viola da cidade, gravou alguns bons discos e, agora, está conduzindo um projeto fantástico: a Orquestrinha São Xico, formada por nove meninas e dois meninos com idade entre 9 e 14 anos. Com um repertório bem eclético, que vai desde Renato Teixeira até Mamonas Assassinas, passando por Villa-Lobos, Milton Nascimento, Pitty e Genival Lacerda, a orquestrinha surpreende por estar formando uma novíssima geração de violeiros. O grupo participou do Festival da Mantiqueira, deu seu recado no Viola, minha viola, de Inezita Barroso (foto), e se apresentou em diversos espaços na cidade em que foi criada, alternativos e oficiais. A ideia inicial do projeto foi de Sidnei Rosa, que coordena o Ponto de Cultura da Biblioteca Solidária, que teve o mérito de conseguir o apoio de Braz da Viola. A partir de um edital da Funarte adquiriram as violas para a orquestrinha, os ensaios começaram e a grande estreia aconteceu no dia 25 de março na própria Biblioteca Solidária, no centro de São Francisco Xavier. Para conhecer mais o pessoal e a agenda da Orquestrinha São Xico, o grupo mantém um blog.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Almir Sater: música de massa não precisa ser "sertaneja"

A viola alcançaria a classe média se Almir Sater não tivesse protagonizado algumas novelas da Manchete (Pantanal e A história de Ana Raio e Zé Trovão) e da Globo (O rei do gado)? Talvez não. Ou melhor, talvez isso tivesse até ajudado ao público separar o joio do trigo, ou seja, revelar que há uma música caipira e uma música "sertaneja". Afinal, o violeiro matogrossese surge numa época em que as duplas Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonando e Zezé Di Camargo e Luciano consolidavam o gênero mais comercial e amplamente palatável a todas as classes consumidoras de música. Pois Almir Sater traz a viola instrumental, e junto com ela uma sonoridade menos regional, mais "filosófica", pois agrega também elementos da chamada Música Popular Brasileira, ou seja, aquela que surge a partir dos anos 1960 e que encontra, no caso particular da viola, o reforço de Renato Teixeira, não por acaso grande parceiro de Sater, especialmente em seus principais sucessos: Um violeiro toca e Tocando em frente.
Estudante que abandonou o curso após ouvir Tião Carreiro sendo executado por dois violeiros numa feira nordestina no Largo do Machado, no Rio de Janeiro, onde estudava Direito, Sater tem uma trajetória que envolve trilhas, comitivas e algumas veredas tortuosas. Uma delas, por exemplo, foi um disco com músicas cantadas em inglês, Rasta bonito, em que tenta alinhar viola e banjo. Mas sua principal investida na pesquisa musical se deu em 1984, com a criação da Comitiva Esperança, que vagueou mais de mil quilômetros pelo interior do Mato Grosso atrás de novas sonoridades, estas sintetizadas nos discos seguintes de Sater e no documentário com o mesmo nome da aventura, lançado em 1985. Quem o levou para as novelas foi Sérgio Reis. Daí para frente se tornou música de massa, arrantando o público para suas apresentações violeiras e revelando uma versão alternativa ao crescente "sertanejo". Sorte da música caipira, que se desdobrou em novas sonoridades e mostrou que nem sempre aquilo que a indústria fonográfica gesta pode ser verdadeiramente de massa.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Elomar e as três coisas desse mundo vão


Monteno o mondengo. Esse termo me intrigou tanto que batizei com ele uma pretensa revista de arte e cultura que publiquei com amigos na época em que fazia faculdade, lá nos ermos de Mogi das Cruzes também nos ermos do tempo. Copiei-o de uma cantiga de Elomar, dito Figueira de Melo, mais especificamente do álbum duplo Na quadrada das águas perdidas. No glossário que vinha no encarte - ah, os tempos dos encartes dos LPs! - explicava-se que o termo vinha dantanho, de Portugal, onde há o rio Mondego. "Montar o mondengo" tinha relação com sigamos em frente, com valentia!, pois as cheias do rios assim obrigavam os aldeões. Quando estive em Coimbra para conhecer a universidade me surpreendi com a presença do dito cujo, ali, cortando a cidade: o Mondego. Bom, Elomar sempre surpreende pelas expressões que coleciona e emprega nas suas letras. Dono de um dos estilos mais originais da música brasileira, faz algo entre o cantador violeiro e o menestrel medieval. Baiano, desviou o eixo da influência ibérica na cultura brasileira que vinha de Recife (diretamente de Ariano Suassuna e o movimento Armorial), e despontou em disco e show a partir dos 1970. Mas sempre fugiu dos holofotes, se resguardando em sua fazenda, cantando para os bodes que cria, mantendo a tradição dos avós. Toca violão, mas refaz afinações, e reforça a definição do violeiro como a personificação da "cigarra da fábula":

Apois pro cantadô i violero
Só hái treis coisa nesse mundo vão
Amô, furria, viola, nunca dinhêro
Viola, furria, amô, dinhêro não

Enfim, algo que destoa desse mundo cada vez mais vão e cada vez mais dependente daquilo que o "violero" se desprende. Um bom mote, enfim, para começar a semana...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

A iniciação do violeiro Paulo Freire

O encontro entre viola e violeiro envolve o grande mistério que justifica a maior parte dos encontros entre o ser e seu propósito nesta vida. No caso do caipira, esse encontro chega a ser quase obrigatório, pois vem da família e das festas. Outras vezes, quando um cidadão caminha pelas ruas da cidade, ele pode encontrá-la na próxima esquina. Com Paulo Freire foi um pouco diferente. Sendo cidadão, quis procurá-la no sertão. Seu encontro com a viola seguiu um completo rito de iniciação. E como manda o roteiro dos iniciados, envolveu uma longa viagem. Hoje violeiro consagrado e grande contador de causos, Paulo Freire carrega em sua sina as marcas dessa inicação. Quando o entrevistei para o meu livro Moda Inviolada, lá pelos 2000, ele me contou a seguinte história, digna de registro para as gerações futuras de violeiros:

"Entre minhas leituras, que eu acho que me conduziram à viola, as principais foram: o romance A Pedra do Reino, do Ariano Suassuna; Os Sertões, de Euclides da Cunha; Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa; Os parceiros do Rio Bonito, de Antonio Candido. Eu acho que esses livros me levaram àquela coisa de procurar no campo, procurar no homem brasileiro a música, procurar um caminho que estivesse dentro de mim mesmo. Agora, o principal deles foi o Grande Sertão, que eu fiquei deslumbrado com aquela história, com aquele livro, com aquela linguagem. Eu e mais dois amigos na época quisemos descobrir qual era o som do grande sertão. Então a gente queria fazer uma viagem pelo Brasil pra conhecer a música brasileira. Pegamos o mapa que tinha na orelha do Grande Sertão, na edição antiga, desenhado pelo Poty, sobre como era o Urucuia e aquela região. A gente procurou vários mapas na época e não achamos nenhum que tivesse a região. O mapa mais completo, por incrível que pareça, era esse do Poty. Então pegamos esse mapa, fomos até o Recife, onde a gente conversou com o [Ariano] Suassuna, conversou com o Antonio Madureira que estava desenvolvendo o trabalho com o Quinteto Armorial, e que era acostumado a fazer pesquisa de campo. Tínhamos algumas indicações com eles. Aí, de lá, fomos até Juazeiro, pegamos um vapor no rio São Francisco, descemos na cidade de São Francisco, fomos até a Serra das Araras por indicação da Maureen Bisilliat, que é uma fotógrafa que fez um trabalho muito bonito com Guimarães Rosa, e ela fez uma viagem com ele por ali também. E um lugar que ela esteve foi nessa festa na serra, e é uma festa que reúne todos os sertanejos da região, todo mundo vai ali pra casar, pra batizado, pra se divertir, pra namorar, pra festas, pra fazer compras. Então, a gente foi lá e conheceu uma pessoa muito incrível chamada “seu” Juquinha Bombê,  na época devia ter uns 70 anos... (...) E cheguei lá, o seu Juquinha  falou: “Olha, vocês querem Folia de Reis, vocês querem música de viola, tem que ir pra um lugar chamado Porto de Manga, que era um povoado à beira do Rio Urucuia. Eu disse era porque hoje em dia virou cidade, que se chama Urucuia. E chegamos lá em Porto de Manga, indicados pelo seu Juquinha, fomos conhecendo as pessoas da região... exatamente a data, a gente ficou na serra das Araras até dia 13 de junho, que é o dia de Santo Antonio, que é o padroeiro da serra. Então a gente saiu da serra, deve ter chegado em Porto de Manga lá pelo dia 15, por aí, e aí ficamos direto. Fomos conhecendo as Folias de Reis e o que eu percebi lá quando em contato com as músicas que cercam a viola, é que, a viola ali vai muito além de um simples instrumento. Ela carrega o sertão dentro dela."

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Ivan Vilela e a viola suburbana


Quando lançou o CD Paisagens, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Ivan Vilela, exímio violeiro, mestre de diversos novos tocadores, pois criou a graduação em viola caipira na USP Ribeirão Preto, regente da Orquestra de Viola de Campinas e pesquisador do universo caipira. Recentemente Ivan defendeu seu doutorado no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, orientado pela Profa. Dra. Ecléa Bosi, respeitada por seu trabalho voltado à memória oral. Ivan batizou sua pesquisa de "Cantando a própria história", que tem por objeto a música caipira e sua constituição dentro do universo urbano-massivo (na definição de Jesús Martín-Barbero, que ele não usa, mas que aqui assinalo como referência). Ou seja, como a música e, em especial, a viola se adaptam a uma realidade urbana, ou suburbana, uma vez que ela se fixa nas áreas periféricas da capital paulista. Como base de pesquisa, Ivan usa, evidentemente, a memória oral, mas de pessoas comuns, que mantêm contato com o universo da viola, o que garante parte do brilho da sua pesquisa. Outra parte é o seu rigor ao analisar as teorias já existentes de autores que também se dedicaram a pesquisar o caipira, entre eles Antonio Candido. Por fim, Ivan defende que a difusão da música caipira pelo rádio acabou promovendo um processo de reenraizamento dos migrantes que saíram do interior e foram para a cidade, de modo a ajudar a manterem seus valores e sua história. Em suma, teve um efeito de reafirmação da identidade desse contingente que foi se amalgamando à massa urbana paulistana. Em termos teóricos, uma pesquisa importante dentro desse tema pouco estudado. Para acessar o conteúdo da pesquisa é só ir direto ao banco de teses da USP. E, claro, ouçamos mais Ivan Vilela!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Chico Lobo dedilha a MPB

Quando comecei a pesquisar o universo da viola, ainda no século passado, usando a internet para alguns contatos, recebi o e-mail de um violeiro que eu pouco conhecia: Chico Lobo. Envolvido na barafunda de fontes e referências, creio que não dei a devida atenção a ele. O que não me impediu de acompanhar sua carreira, especialmente quando produziu em 2007 os belos show e CD com o português Pedro Mestre, num original dueto de violas - caipira e campaniça - gerando um sotaque violeiro fora do comum e da história do instrumento. Genial. Agora ele lança um CD em que faz do flerte que sempre manteve com a MPB um caso explícito. Como foi visto num post recente, esse namoro começou desde o período do Festivais, nos anos 1960, e foi se incrementando a partir dos 1980, com Elis Regina popularizando a Romaria de Renato Teixeira. Lançado pelo sêlo de Zeca Baleiro, Saravá - começa por aí... - o CD Caipira do mundo levou três anos para ser concluído. Conta com as participações do próprio Baleiro, Virgínia Rosa, a cantora portuguesa Susana Travassos, Verônica Sabino e a Banda de Pau e Corda. Como dizer que é bom é coisa de crítico, vou fazer diferente: vou mostrar que é bom. Segue Chico, interpretando Caipira, de sua autoria, ainda com os cabelos grandes, hoje abandonados, como revela a capa do novo disco...

domingo, 17 de julho de 2011

Desatando os nós da viola

Tem horas que parece que os fios se tornam evidentes e as conexões se deixam transparecer. Por exemplo, há duas semanas, ao descobrir que aconteceria um Seminário de Viola em Guarulhos com a presença de Roberto Vignini (que organizou o evento), Índio Cachoeira e Levi Ramiro, fiquei animado para rever os violeiros. Convidei meu amigo Danilo Okamoto e acabei descobrindo que ele está em missão de trabalho em Planalto (RS), sem data para voltar. Bom, o tempo passou e os compromissos de uma semana difícil esvaneceram minha intenção. Chega sábado e nova circunstância me leva justamente para Guarulhos. E como as coisas são: não me ocorreu dar um pulo no Teatro Padre Bento - que eu não conhecia nem sabia onde ficava. O compromisso na cidade me obrigou a cerca de duas horas de ócio e espera. Não me ocorreu que era o final de semana do tal seminário. Parado, numa rua sem saída de um bairro desconhecido, olhei para o final da tal rua e percebi a torre de uma igreja se sobressaindo dos telhados das casas. Decidi caminhar até lá, pois não parecia muito distante. De fato, pouco menos de 250 metros me separavam dela, isso por uma caminho inusitado: uma escadaria que dava acesso a uma outra rua. A igreja estava fechada. Era dedicada ao louvor de Nossa Senhora Desatadora de Nós. Ao lado da igreja, um prédio muito interessante. Caminhei com a intenção de ganhar tempo, passear, flanar. Alguns passos e observo um cartaz na frente do prédio. Olho para um totem na entrada: Teatro Padre Bento! E não é que lá dentro acontecia uma bela aula sobre as afinações da viola a cargo de Amauri Falabela seguida de uma bela apresentação do grupo Viola e Paz! Era lá, o Seminário de Viola! E tudo por causa da Nossa Senhora Desatadora de Nós! Tanto desatou que deixou os fios visíveis. Visíveis e vibrantes!

sábado, 25 de junho de 2011

Milton Araújo e a musicalidade do Mato Grosso

Em agosto de 2008 foi gravada uma conversa informal entre o violeiro Milton Araújo, sobrinho de Helena Meireles e herdeiro da musicalidade matogrossense, eu e o pesquisador Danilo Okamoto. Nesse encontro Milton falou um pouco da troca musical que há na região da fronteira do Mato Grosso com o Paraguai, seus ritmos e a afinação característica da viola tocada na região, a Rio Abaixo. Segue um trecho, pra homenager o violeiro, que faz aniversário amanhã!

"Um dos focos da afinação Rio Abaixo é o Mato Grosso e por ser fronteira com o Paraguai, até hoje esses estilos que vêm do Paraguai influenciam muito os matogrossenses, tanto que eles são bilíngues, falam guarani e falam castelhano. O cancioneiro do Paraguai é muito presente nos matogrosseses. A polca paraguaia, e um ritmo que é muito mais presente nos matogrosseses, que é o rasqueado, e que é um ritmo que os paraguaios também adotaram. Então é uma troca cultural grande. Aliás, naquela região de fronteira, muita coisa do Mato Grosso era do Paraguai, antes da Guerra do Paraguai. Então é como se fosse uma coisa só. Essa região do Paraguai é um dos focos da afinação Rio Abaixo. No Brasil tem poucos focos da afinação Rio Abaixo: no Vale do Jequitinhonha; num dos lados do rio Urucuia -  num lado eles tocam a afinação Cebolão e no outro tocam a afinação Rio Abaixo -; e o Mato Grosso do Sul, na região de Campo Grande, de onde a minha família, por muitas gerações, é difusora dessa afinação. Pelo menos quatro gerações são representantes e difusores da afinação Rio Abaixo. É nessa região que há o ritmo hoje generalizado como chamamé. Trata-se de uma generalização, assim como é o forró. Ele reúne a polca paraguaia, também chamada de polca galopa, o rasqueado, a chamarrita, a milonga. São vários ritmos que se agregam num único nome: chamamé. Mas o chamamé é também um ritmo em si. E ele caracteriza bem a musicalidade da Bacia do Prata."

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Podemos tocar o Hino Nacional na viola?

Em 2006, quando lancei o livro Moda Inviolada pela editora Quiron no Museu da Imagem e do Som, local onde, cinco anos antes, eu havia começado a pesquisa, a editora convidou dois jovens e promissores violeiros - que estavam afiados e afinados - para sonorizar o lançamento. Conheci-os uma semana antes, quando gravamos uma participação no programa Metrópolis, da TV Cultura, no restaurante Consulado Mineiro, em Pinheiros, São Paulo. Um deles é o filho do "maestro" Rui Torneze, da Orquestra Paulistana de Viola Caipira, Lucas Torneze. Seu companheiro era um rapaz que tinha acabado de chegar do interior e parecia ser um baita violeiro: Arnaldo Freitas, que encontrei, depois, no programa de Inezita Barroso, Viola, Minha Viola, onde até hoje compõe o regional que acompanha os convidados da madrinha de todos os jovens violeiros. No dia da gravação no restaurante, combinamos de pegá-los no metrô e quando estávamos chegando - eu e o Ricardo, editor do livro - identificamos a dupla de longe: Arnaldo vestia um sobretudo pantaneiro, pois era inverno. No dia do lançamento, havia um certo frisson na dupla em tocar algo que haviam preparado para, assim dizer, o ponto alto do encontro. Mas qual era o ponto alto do encontro? Era o lançamento de um livro... Nem discurso quis saber de fazer, somente agradeci os amigos que lotaram a antiga cafeteria do MIS (depois foi reformada e virou o saguão do museu). Quando terminei, Arnaldo se aproximou e cochichou: "Agora podemos tocar o Hino Nacional?" Achei estranho e concordei. Lá foram eles. E arrebentaram. Hoje vejo os dois avançando em suas carreiras - Arnaldo, por exemplo, faz show no próximo sábado no CEU Vila Atlantica (rua Coronel Venâncio Dias, 840, Jaraguá), e Lucas continua na orquestra - o que é muito gratificante. Quanto ao Hino Nacional, descubro que é um verdadeiro fetiche de violeiro, pois vários dão sua versão nas dez cordas... A foto da dupla, no dia do lançamento do livro, é do Valdemi Silva.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O banho de Jackson Antunes

Sentado à mesa da cozinha envolta num amarelado sol de final de tarde que varava o vitrô, um emocionado Tião do Carro ia desfiando história atrás de história diante do copo de café que acabara de passar. Ele havia tirado o primeiro copinho para o São Gonçalo que quase se escondia sobre a geladeira, ao fundo. O violeiro, batizado João Benedito Urbano, e que fez dupla com Mulatinho, Odilon, ZéMatão, Pagodinho e Santarém, contou histórias da sua carreira, histórias de Xavantinho, que naquela altura já havia nos deixado, e, por fim desfiou elogios ao ator Jackson Antunes. Ambos gravaram Jeitão de Caipira em 1998, e Tião se encantava com a simplicidade do ator global. Dizia ser um caboclo tão simples, mas tão simples que certa vez, havia decidido tomar banho em sua casa e, depois de quase meia hora, não saía mais do banheiro. Tião e a esposa começaram a ficar preocupados. Decidiram interromper o momento íntimo do ator para perguntar se estava tudo bem. Ouviram a voz firme e tranquila, lá de dentro: "Tudo bem, tudo bem". Não entenderam nada. Foi aí que se deram conta de que não tinham dado a toalha para Jackson. "Rapaz, a toalha ficou aqui. Como é que você está fazendo pra se enxugar?" A resposta veio, mais uma vez tranquila: "Nada... Tô aqui esperando secar... Tá até gostoso..."

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Cláudio Lacerda: violeiro dos bão

Ter escrito o livro Moda Inviolada, tarefa que me consumiu três anos - pela intensidade da pesquisa e por ter sido a minha primeira - e sua consequente publicação me trouxeram boas surpresas. Conheci pessoas especialíssimas, entre elas Danilo Okamoto, Lucas Torneze, Oswaldinho Viana, Marisa, Arnaldo Freitas. E Cláudio Lacerda, que leu o livro e me procurou. Fui ao show de lançamento do seu segundo CD, Alma Caipira, no Sesc Pompéia, e lá nos conhecemos pessoalmente. Trocamos muitas figurinhas depois disso. Sonhamos algumas vezes fazer algo juntos. Mas o que me motivou escrever esse post é sua simplicidade - qualidade indispensável para um bom violeiro - e o fato de ser um baita violeiro com voz de seresteiro. Como se não bastasse, é pesquisador da viola. Começou na Orquestra Paulistana de Viola Caipira, do Rui Torneze, - que, aliás, lança o CD Violas sem fronteiras no próximo dia 28 de maio, na Casa de Portugal, em São Paulo - em cujo DVD surge cantando Você vai gostar (Elídio dos Santos) e Triste berrante (Adauto Santos). Em 2003 fez seu primeiro disco solo, Alma lavada, que traz na contracapa a recomendação de ninguém menos que Paulo Simões, o grande parceiro de Almir Sater: "...abram a roda, sobra espaço para um novo companheiro". A tradição da música caipira é a base do segundo CD, Alma caipira, resultado de acurada pesquisa, com ritmos diversos e nomes importantes. No ano passado lançou Cantador, seu disco mais autoral.
Zootecnista, formou-se em Botucatu, e lá atendeu ao chamado da viola. Andou gravando recentemente alguns arranjos de clássicos caipiras com um quarteto de cordas, com resultado excepcional, que merece ser lançado comecialmente. Enfim, Cláudio é dos bão! Quer conferir? Aqui, avalizado por Rolando Boldrin.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Viva São Gonçalinho!

A cidade de Amarante, em Portugal, tem como ponto principal a ponte que atravessa o rio Tâmega e que leva à Igreja de São Gonçalo. A ponte teria sido construída justamente por Gundisalvus, dito Gonçalo, após ter peregrinado a Roma e Jerusalém. Santo português buscado pelos fiéis para casos de infertilidade, no Brasil ele guarda a aura de ser o protetor dos violeiros, tanto que em sua representação aqui, ele aparece sempre com a viola no peito e vestes camponesas. Já no altar de Amarante, aparece com as vestes dominicanas, ordem à qual entrou após a vida de peregrinações. Viveu no longínquo século de 1100 - nasceu em 1187 e morreu em 1259 - e uma série de lendas e mitos cercam o santinho que também oferece a graça do matrimônio, tal e qual seu conterrâneo e contemporâneo Santo Antônio (inacreditavelmente chamado de Pádua, cidade italiana onde viveu e morreu, embora tivesse nascido em Lisboa). Entre elas está o hábito de tocar para as prostitutas para que elas dançassem a noite toda e, exaustas, deixassem de exercer seu "ofício". Para não cair em tentação, o santo colocava pregos em seus sapatos que feriam seus pés enquanto ele executava uma dança peculiar, no Brasil chamada justamente de dança de São Gonçalo. Por isso também, a melhor forma de louvá-lo não é rezando, mas dançando. E o violeiro que dedilha as cordas para as funções, oferece um toque em que os dançadores habilidosos trocam os pés para justamente "dançar sobre as cordas", ou seja, ritmar as passadas conforme o toque da viola.
Todo violeiro que se preze louva a São Gonçalo, e quando toca para ele o faz com a cabeça baixa, o queixo grudado na lateral daviola, em sinal de respeito. Com as festas do mês de maio chegando, São Gonçalo é lembrado e dançado, mesmo num período em que se imagina que tudo está sendo substituído por construtos virtuais. Então, Viva São Gonçalinho!

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O Beethoven do Sertão

1997 e o Sesc Pompéia recebia o projeto de Myrian Taubkin, Violeiros do Brasil. Ainda gestando a ideia do livro Moda Inviolada, que sairia quase uma década depois, fui conhecer de perto Pereira da Viola - que na época usava cabelo rastafari - Adelmo Arcoverde, Renato Andrade, Passoca, entre outros, além de uma figura que, ao chegar na área do teatro, foi recebido com palmas e alegria: Zé Coco do Riachão. Violeiro e rabequeiro autodidata, cresceu participando das Folias de Reis do Norte de Minas Gerais. Foi descoberto aos 65 anos, dono de uma musicalidade absurda e, além de tudo, um artesão, pois tocava os instrumentos que ele mesmo fazia. Logo, seus instrumentos viraram troféus nas mãos dos colecionadores e instrumentistas. Na época eu estava com o hoje crítico teatral e à época repórter da TV Unicsul, Valmir Santos. Tínhamos trabalhado juntos na extinta revista Manchete, na sucursal de São Paulo e, após a desventura dos Bloch, chegamos a articular algumas ideias com relação ao livro. Foi o Valmir quem me convidou para ver o show. Acompanhei as entrevistas e, no instante em que o velhinho Zé Coco chegou, alguém nos disse que ele era chamado pela crítica de "Beethoven do Sertão". Claro que esse "título" advinha de seu virtuosismo autodidata, similar ao do mestre erudito alemão. No entanto, quando Valmir o entrevistava, o violeiro respondendo com sua voz baixinha, sotaque de matuto mineiro, numa certa altura, resolveu arriscar e perguntar: "O que o senhor acha de ser chamado de Beethoven do Sertão?" Depois de fazer por alguns segundos uma expressão de confuso, ele respondeu,confirmando, de forma inesperada, a fama atribuída pela crítica:
- Hein?

P.S. - Zé Coco do Riachão gravou somente três discos: Brasil Puro (1980), Zé Coco do Riachão (1981) e Vôo das garças (1987), todos raridades, além de participar da coletânea Violeiros do Brasil (1998).