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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Dércio Marques, ca (n) tador de cultura popular


Duas características destacam Dércio Marques do panorama musical brasileiro: seu apetite de pesquisador e a disposição em incluir no universo popular a musicalidade latina. A primeira delas fez com que fosse responsável por um grande levantamento da cultura musical popular. A segunda foi herança do pai uruguaio. Gravou seu primeiro disco em 1977 pelo mitológico selo Marcus Pereira e teve ainda o mérito de lançar nada menos do que o menestrel baiano Elomar, do qual gravou no disco de estreia Terra, vento, caminho, a canção As curvas do rio. A primeira vez que o ouvi tocar e cantar foi interpretando outra de Elomar, Peão na amarração, no final dos 1970, e foi talvez a primeira vez que entendi as possibilidades musicais da música popular de fato, não a chamada MPB. Isso porque conseguia trazer a tradição da música caipira, do interior. Mineiro, foi louvado por toda uma nova geração de violeiros das geraes, entre eles Pereira da Viola. Nos videos, a homenagem a quem se foi na última terça. O primeiro, uma participação no Sr. Brasil, de Rolando Boldrin, cantando Beira-mar, folclore do Vale do Jequitinhonha. O segundo, uma apresentação de gala, uma leitura erudita de Disco voador, de Palmeira e Biá. Em ambos, a voz inconfundível que fará muita falta.



quinta-feira, 21 de junho de 2012

Série Momento do Compositor: João Pacífico, com Raul Torres

Ficheiro:João Pacífico.jpg08.jpgPuxa vida, já é quinta e ainda não consegui postar o compositor apresentado no domingo passado no programa de Danilo Darós na rádio Planalto! E justo ele, o compositor dos compositores do gênero caipira, João Pacífico! Quando tomei a decisão de escrever a história da música caipira, em 1998, e contar como ela foi se transformar na chamada música "sertaneja" a partir da incorporação de influências musicais de gêneros estrangeiros (guarânia, rancheira, country, etc.), decidi começar por João Pacífico, o compositor de Cabocla Tereza, que tanto ouvi durante a minha infância, especialmente com a declamação dos versos iniciais pelo meu pai. Soube que havia um depoimento no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo e para lá fui. Passei uma agradável tarde ouvindo as histórias do compositor nascido em Cordeirópolis - "se chamava Cordeiro, pois lá havia um homem que fazia cordas; depois mudaram o nome para Cordeirópolis", conta - a temporada em que trabalhou nos vagões da Sorocabana como "ajudante de lava-pratos", onde, aliás, conheceu o porta modernista Guilherme de Almeida, que o recomendou a Paraguassu. Ao chegar à rádio Cruzeiro do Sul não encontrou o seresteiro, mas topou com Raul Torres, a quem ofereceu uma embolada de sua autoria. Começou aí uma parceria que se estendeu por longos anos, ponteada de sucessos, entre eles as toadas históricas Chico Mulato e Cabocla Tereza, além de Pingo d´Água, que lhe rendeu o Disco de Ouro, e Mourão da Porteira, todas elas reproduzidas no programa de Danilo Darós. Mourão da Porteira era a preferida de Guilherme de Almeida, que ressaltava a apurada poética de Pacífico ao usar uma metáfora tão simples e tão profunda... Ao final da tarde, envolto pela dicção do compositor, aliás, um esplêndido recitador de seus próprios versos, saí do MIS decidido a aprofundar a pesquisa e, especialmente, em ir até Guararema ouvir o próprio João Pacífico, que lá vivia. Qual não foi minha surpresa quando, dois ou três dias depois, recebo o e-mail do crítico teatral Valmir Santos me contando que Pacífico não mais estava entre nós... Mesmo assim, sua voz percute em todas as páginas do livro Moda Inviolada - Uma história da música caipira. Para reencontrar essa voz, a seguir o próprio, com Adauto Santos. cantando o Chico Mulato. E depois Tonico e Tinoco interpretando o compositor. Na próxima semana tem mais João Pacífico, dessa vez cantando suas modas e toadas no período posterior à dupla Raul Torres e Florêncio (este último, vale ressaltar, foi quem fez a maior parte dos arranjos das composições de Pacífico gravadas pela dupla).



quinta-feira, 29 de março de 2012

Millôr, o pensador

millor3 MillôrOs golpes vão se sucedendo... Agora foi o Millôr... Bom, se o riso em Chico Anysio se apoiava no trabalho do ator - embora ele tivesse sido também bom escritor e compositor - no caso de Millôr o humor, embora elemento essencial de toda a sua obra, é apenas a consequência de um elaborado e complexo exercício do pensar. Porque Millôr foi filósofo, que o diga a infinidade de frases - e ele não era somente um bom frasista - que inundam a Internet desde ontem... Digo que ele não foi somente bom frasista porque em comparação com seus antecessores frasistas, entre eles o Barão de Itararé e Stanislaw Ponte Preta, suas frases revelam um pensamento pautado na originalidade e, mais essencialmente, na profunda verdade que a maior parte delas tocam. Não é à toa que reuniu boa parte delas numa obra fundamental, digna de figurar nas mais estritas antologias da literatura brasileira: A bíblia do caos, também conhecida como Millôr Definitivo. Como se não bastasse, o guru do Méier ainda desenhava, foi um dos primeiros a ousar fazer humor com o computador e, a título de floreio da informação, foi também o inventor do "frescobol". Se o humor de Chico Anysio e seus contemporâneos abrem a larga lacuna que apontei no post anterior, a falta de Millôr deixa a criatividade artística brasileira amputada. Ou, como apontou a presidenta, perde-se uma referência. Millôr esteve presente em diversos fatos seminais que marcaram a resistência intelectual à ditadura militar. Esteve no Cruzeiro na época do golpe, fundou a revista Pif Paf no ano de 1964 com a ajuda de amigos,voltou à cena com o Pasquim. Foi o arauto de uma geração amordaçada, sempre armado com uma inteligência ímpar. Não foi humorista, muito menos palhaço. Foi um pensador. Felizmente usou do humor para exercitar o pensamento antes que este se perdesse nos nivelamentos sedentários que hoje dominam a inteligência nacional...

quarta-feira, 28 de março de 2012

Chico Anysio e o tempo dos comediantes

Com Chico Anysio se vai um tempo de comediantes, de graça baseada em bom texto e em boa interpretação. Aliás, não se vai só Chico Anysio, mas toda uma geração de comediantes que ele teve a sorte de encabeçar, especialmente nos anos em que conduziu um dos formatos mais antigos e que pode sintetizar a atuação desse tipo de humor: a escolinha, no seu caso, a do Professor Raimundo. O quadro, de uma maneira geral, começou no rádio, foi para o circo e deste para sua versão eletrônica, a televisão. Na escolinha de Chico, os que fizeram esse tempo de risadas: Costinha, Walter D´Ávila, Marcos Plonka, Ronnie Cócegas, Brandão Filho, Mário Tupinambá, Rogério Cardoso, Zezé Macêdo, Olney Cazarré, Lúcio Mauro, Zilda Cardoso, Grande Otelo, entre outros. Sem Chico, abre-se uma vasta e extensa lacuna no humor brasileiro, hoje sendo ocupado - mas não preenchido - por comediantes que interpretam a si mesmo e fazem da agressão seu principal recurso de "humor". Enquanto a onda importada de comédia "estandape" não passa, vale lembrar que também de cara limpa e de pé, que é o modus operandi dos atuais humoristas, é possível fazer humor inteligente e sem apelação. Que o diga o próprio Chico Anysio que, como todos os grandes humoristas, sabe rir de si mesmo. Ou da sua própria morte...

sexta-feira, 16 de março de 2012

O demônio na fábrica

Outro dia prometi falar sobre uma das mais brilhantes  investigações sociológicas que conheci - a outra é sobre as narrativas da vida de Cristo, por Oswaldo Xidieh - que é o caso do aparecimento do demônio na Cerâmica São Caetano na década de 1950, por José de Souza Martins. O acontecimento foi relembrado pelo autor na década de 1990, quando então foi atrás dos operários remanescentes que pudessem contar outros detalhes sobre o caso. A ele: várias operárias, num certo dia, desmaiaram sem motivo aparente e, ao recuperarem a consciência contaram ter visto o demônio a espreitá-las num dos cantos da fábrica. Para que os fatos fossem estancados, a direção da cerâmica chamou o padre da paróquia local que rezou uma missa e benzeu as instalações da fábrica, espantando o dito cujo. O sociólogo vai, então, tentar compreender as circunstâncias que cercaram o caso. Descobre que ele se deu num período de troca de tecnologia de produção, de substituição dos velhos mestres artesão por engenheiros que impuseram um novo ritmo de produção a partir da instalação de dois novos fornos de queima dos ladrilhos em cerâmica. As mudanças se deram na linha de produção, e as mulheres trabalhavam no final da linha, separadas do processo, selecionando os ladrilhos defeituosos para o descarte. Ouvindo o zum-zum-zum incerto do que ocorria "lá dentro", passaram a viver momentos de insegurança ao perceberem que a produção estava cada vez mais defeituosa - resultado da fase experimental dos novos fornos - o que as colocou em profundo estado de estranhamento. Como a maior parte delas tinha uma origem rural e religiosa, a insegurança fez emergir do imaginário a figura do demônio. A conclusão aqui parece simplista, mas o sociólogo se valeu da sua condição de contínuo, que circula por todas as seções, para compreender e juntar os "cacos" da história e chegar à interpretação. O mais interessante é entender como ele toca as contradições da sociedade industrial, o que vale ler o texto na íntegra, disponível no site da revista Tempo Social, e também em livro (editora 34, São Paulo, 2008). Um mergulho sociológico impressionante, que considera tanto a cultura popular quanto a religiosidade e a cisão que vive o sujeito na sociedade moderna.

terça-feira, 13 de março de 2012

Nerival Rodrigues: cores e simplicidade

Quando ainda morava em Mogi das Cruzes e viajava diariamente no chamado "trem dos estudantes" para São Paulo, conheci uma figura que me surpreendeu pela simplicidade e pela forma com que construiu uma carreira nas artes plásticas mesmo tendo trabalhado até os 16 anos na roça, em Garanhuns, Pernambuco. Neri domina o que estranhamente chamam de "art naïf", mas que pra mim é primitivismo mesmo. Aliás, nem isso. É arte popular na coloração, nos temas, na simplicidade e, especialmente na emoção que transmite. Como vive há mais de 40 anos em Mogi, boa parte dos seus temas envolvem as festas populares da cidade. A outra parte trata de fartura: colheitas, festas juninas, plantações. Tive nova surpresa ao visitar seu ateliê certa ocasião. Para trabalhar, Neri ouvia antigos discos em vinil. Música popular? Não, Bob Dylan! Aliás, sua grande paixão musical. Enfim, a mim ele emociona, pois toca minha identidade com as imagens mais mogianas que posso imaginar, e vão além das minhas divagações juvenis... Estão lá as igrejas de São Benedito, do Carmo, as congadas, os moçambiques, a Serra do Itapeti. Talvez na forma que minhas lembranças ainda guardam, pois a atualização dos mesmos cenários os mostram embaçados pelas torres que a burguesia local insiste em erguer, ato incompreensível numa cidade como Mogi. Bom, vamos a algumas dessas imagens.

 

 

 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O papel histórico da música caipira, por José de Souza Martins

Num livro em que analisa "A sociabilidade do homem simples" (Contexto, São Paulo, 2008), o sociólogo José de Souza Martins consegue sintetizar o papel da música caipira (que ele chama de sertaneja, entendendo que a música caipira é a do interior, enquanto que a gravada já é urbana) num parágrafo que prima pela síntese e amarra realidades históricas e temporalidades distintas:

"A música sertaneja, um gênero musical aparentemente de origem rural, mas de fato urbana, inspirada nas tradições musicais caipiras, que surgiu em São Paulo no final dos anos vinte, às vésperas da Revolução de 1930, uma revolução modernizante, foi desde o início uma ácida crítica dos elementos mais expressivos da modernidade na cidade e ao mesmo tempo um meio de compreendê-la. Um gênero de música que combinava as possibilidades discrepantes do antigo circo itinerante e as novas possibilidades modernas do disco e do rádio. Portanto, um gênero que emerge no momento de melhor e mais completa definição dos contornos da modernidade no Brasil, no contraste com o mundo rural e tradicional que estava ruindo."

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Piruliteiro, peludo e... Bacalhau!

A mãe não queria que o filho seguisse a mesma vocação do avô: o circo. Afinal, ele havia caído no mundo, atuando como mágico em diversos picadeiros. Mas o filho Odair não seria picado pela mesma mosca azul. Mas, como prescreve o livro da vida, é só proibir para estimular. Pois não é que o Odairzinho, moleque de nove anos, passou a rondar os circos que passavam pela Freguesia do Ó, em São Paulo? A curiosidade o levava para os terrenos, pois queria ver de perto o que era aquilo. Aos 14 bolou um plano: venderia pirulitos e maçãs do amor no circo. Assim poderia circular entre os artistas. Mas a mãe descobriu e o levou de volta para casa pela orelha. Aos 18 não havia mais do que correr: entrou de vez no circo, virou peludo, o faz-tudo que carrega os equipamentos, levanta e desmonta a lona, limpa o chão, espalha a serragem. Dormiu no picadeiro, debaixo de lona, ouvindo o vento zunindo e a chuva caindo. Nessa época não era mais o Odair, era o Magrão. Tanto que é assim que muitos empresários ainda o chamam. Um dia, como podia ser previsível, pois é assim que acontece com todo aquele que tem de cumprir a sina de palhaço, o artista que animaria a matinê não poderia cumprir o compromisso. "Manda o Magrão cobrir!" E lá vai o Magrão vestir a roupa do palhaço. "E como vamos te chamar?" "Põe Bacalhau", disse, lembrando de uma brincadeira que existia entre peludos, de gritar: "Joga o Bacalhau em mim!" Dali para os 32 anos seguintes, Bacalhau não fez outra coisa: foi palhaço! E dos bons! Pois fui com ele hoje para Santos, para dividir comigo um programa de entrevistas, o Urbanidades, da Unisantos. Falei do livro "Mixórdia no picadeiro" e ele contou essa história que reproduzi acima. O programa vai ao ar amanhã. Mas postarei aqui na próxima semana. Eu e Odair Cazarin, ou melhor, o piruliteiro que virou peludo que virou Bacalhau. Ah! Sua mãe, hoje com 84 anos, teve de se conformar. Aliás, duas vezes: além de Bacalhau, outro filho também seguiu a mesma trilha, o palhaço Mingau!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Siba: esse cara manja tudo

Ah, Siba, o rabequeiro? Não? Ah, não diga! Guitarrista agora? Hum? Mistura de rock com maracatu rural? De Nazaré da Mata, Pernambuco? Eita cara! Sim, ele voltou, com som pesado, vigoroso, e com mais referência ainda da cultura popular. Esse é Siba, que começou carreira como vocalista e rabequeiro do Mestre Ambrósio, já andou por aqui no blog na companhia do violeiro Roberto Corrêa, com quem dividiu um disco e agora ganha um documentário curta-metragem que pode ser acessado aí abaixo, pelo menos a versão compacta, a integral será lançada ainda este ano. O filme tem 12 minutos, e vale cada minuto de espera para que carregue (é, a internet ainda tem disso, mesmo com a famigerada banda larga!). O dito é dirigido por Caio Jobim e Pablo Francischelli: "Siba - Nos balés da tormenta".

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Plínio Marcos era o palhaço Frajola

Sempre tive uma ligação intelectual com Plínio Marcos. Desde quando entreguei-lhe, na adolescência, um exemplar do meu livrinho Vila dos Esquecidos, na beira do palco do Teatro TAIB, no Bom Retiro, onde encenava Jesus Homem, com João Acaiab no elenco. Vi o espetáculo por duas vezes, assim como vi Barrela, depois de duas décadas sob censura, e encontrei o malandro santista nas três vezes, pois logo ao final da peça lá surgia o barbudo com seus livros a tiracolo para vender e "debater". A identificação já começava daí: vender livros pessoalmente, que era o que eu fazia com os pequenos volumes que meu pai mandou imprimir na gráfica de um amigo. Aliás, meu pai jura que ouviu Plínio mencionar a "borboleta na manga do palhaço" num programa de TV, em referência ao poema que havia no meu livro. Acontece que, na verdade, Plínio foi palhaço, Frajola, e, segundo Oswaldo Mendes, que escreveu Bendito Maldito, biografia de Plínio, foi do circo-teatro que o autor tirou sua experiência teatral, revertendo-a para o teatro engajado politicamente. Sei que, inspirado por Plínio, tentei fazer palestras e vender livros, e consegui fazer isso por umas duas ou três vezes. Depois, formado e trabalhando na revista IstoÉ, quando esta ainda era da Gazeta Mercantil, cuja redação ficava no comecinho da avenida Consolação, perto da Biblioteca Mário de Andrade, encontrei-o diversas vezes na porta e na piscina da Associação Cristã de Moços (ACM) da Nestor Pestana, onde, aliás, aprendi a nadar. Há cerca de um ano li o livro de Oswaldo Mendes e, então, pude me dar conta do quanto Plínio havia me influenciado intelectualmente. Também relembrei Vera Artaxo, com quem ele foi casado nos seus últimos anos. Tive a oportunidade de conhecer Vera quando ela trabalhava na Abril, editando uma revista de decoração, para a qual me contratou como redator. No dia do meu aniversário, recebo uma ligação de Vera e ela dispara: não vai haver mais contratação. O motivo: ela havia sido demitida. Numa atitude rara entre jornalistas, ela estava me ligando para evitar que eu passasse algum mal estar indo procurá-la na redação. Pois não é que assim que terminei de ler o livro, fui procurar por ela e descubro, minutos depois (ah, a internet, esse Grande Irmão...) que tambénm havia se ido havia dois meses... Ao palhaço Frajola e à sua última esposa, saúdo pela singularidade de ambos neste mundo que quer ser cada vez mais homogêneo. A seguir, depoimento de Plínio reproduzido do seu site:

Frajola e Lico“Eu queria namorar uma moça do circo, que conheci quando o cantor do nosso bairro foi cantar no circo. O pai dela só deixava ela namorar gente do circo. Então eu entrei para o circo. Achei que era mais engraçado do que o palhaço e que eu devia ser palhaço.” “Eu tinha o apelido de Frajola, não porque andasse bem vestido, mas porque tinha saído uma revista em quadrinhos, Mindinho, com um gato chamado Frajola, que sempre queria pegar um passarinho – e eu fui preso roubando um passarinho numa casa, na ocasião em que saiu a revista.” “Comecei a ficar mais fixo em circo depois que saí do quartel, com 19 anos. Mas, desde os 16, já estava trabalhando como palhaço.” “Trabalhei em todos os circos, no Circo dos Ciganos, no Circo do Pingolô e da Ricardina, no Circo Toledo, Circo Rubi, da Aurora Viana e do Carvalhinho. Agora, o primeiro pavilhão em que trabalhei foi o Pavilhão-Teatro Liberdade, que ficou armado cinco anos em Santos, dando espetáculos todas as noites.” “O circo era um pavilhão-teatro. Tinha a parte dos shows e tinha a parte do teatro. Na primeira parte, a gente fazia os shows: entrava o palhaço, essas coisas todas, os números de circo; e, na segunda, tinha sempre uma peça. Eu fazia vários pequenos papéis. Nunca cheguei a fazer um grande papel, mas sempre com falas, papelzinho de destaque.”

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A luxuosa presença de Edy Star

Presença constante e imprescindível nas leituras de peças de Piolin, que estão acontecendo às terças-feiras no Centro de Memória do Circo (a partir das 15h), Edy Star tem presenteado os demais participantes dessa experiência com as histórias vivenciadas no período em que atuou no Circo Fekete, quando este atuava na Bahia. Com interpretação e voz inconfundível, Edy traz para a geração presente de artistas parte daquilo que exerceu em sua própria vida artística: ator, cantor, compositor, performer, artista plástico... Pois Edy foi um dos quatro integrantes da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, ao lado de Raul Seixas, Sérgio Sampaio e Miriam Batucada, que gravaram o disco Sessão das 10 em 1971, francamente inspirado no St. Peppers dos Beatles e em Frank Zappa. Em 1974 lançou disco solo, Sweet Edy e, no ano seguinte, fez parte do elenco da peça Rock Horror Show, produção de Guilherme Araújo, ao lado de Lucélia Santos, Wolf Maia, Zé Rodrix, entre outros. Depois de 15 anos morando em Madri, Espanha, voltou a São Paulo em 2009, a convite da Secretaria de Cultura de São Paulo para participar da Virada Cultural, onde fez show em homenagem a Raulzito. Desde 2007 escreve suas memórias no blog Sweet Edy. Enfim, para aqueles que tentamn desvendar a comédia de picadeiro lendo as peças de Piolin, Edy Star e sua luxuosa presença tornam a pesquisa um tanto mais intensa e divertida do que já é!

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Tião do Carro: a sabedoria da simplicidade

"Hoje qualquer, eu vou falar assim, violeiro de buteco... o fulano ali canta também... Cantar é uma coisa divina que Deus dá, tudo bem, todo mundo tem que ter alegria pelas irradiações dos deuses da alegria, dos caboclo cantador, né isso? Mas o cantar mesmo é diferente do que muita gente pensa por aí que tá cantando. Iguala muitas coisas se desigualando outras. Concorda?"

O falar manso, meio mineiro e meio paulista, mas sempre caipira, leva o ouvinte a divagações um tanto descompassadas com o ritmo da cidade que corre lá fora. Tião do Carro tinha esse dom de filosofar a partir de sua fala simples e cativante. Entrevistei-o lá pelos 2000, enquanto fazia a pesquisa para o livro Moda Inviolada, em sua casa, na zona Norte, em São Paulo. Usa de uma docilidade atávica até mesmo na hora de analisar e criticar o movimento musical atual:

"Então o poeta hoje em dia existe, quem faz uma letra mesmo aí com valor de rima, rima dobrada, rima trançada, ela passa despercebida. Hoje em dia a turma quer pular e marcar o refrãozinho, e só, e meio versinho e tá acabado. O sucesso também é assim, passageiro que nem um colibri, acho que ainda...eu ainda continuo, vendo minhas modas, eu canto qualquer estilo de canção que me agradar, mas eu acho que quando a obra é bem feita ela tem que ser admirada, não é isso?"

João Benedito Urbano, o Tião do Carro, nos deixou há dois anos. Sua simplicidade permanece, pois é a do caipira que, se deixou de ser um tipo histórico, continua como tipo filosófico.

"Uma coisa é o arroz e o feijão bem temperado, você não quer nem que frita ovo, que frita carne. Não, deixa aqui que está bom demais! Vou comer esse trem do jeito que tá aqui. Assim que é o gosto do caipira. Quem às vezes não gosta e finge que não gosta... mas gosta sim!" 

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Fellini e seus palhaços

Mencionei outro dia aqui o filme I Clown (Os palhaços), de Federico Fellini, o mestre do cinema italiano. Meio documentário, meio ficção - como tudo o que Fellini fez, entendendo-se por documentário uma "coleção de referências autobiográficas" - o filme tem o mérito de resgatar os velhos palhaços italianos e europeus, contando um pouco de sua história para se encerrar com uma grande entrada circense, que ocupa os vinte últimos minutos da película, da qual participam, talvez, mais de três dezenas de palhaços. A fita foi realizada sob encomenda da televisão italiana em 1971 e nela encontramos ainda, além do diretor em plena ação, a musa ícone de Fellini, Anita Ekberg, que fez La Dolce Vita, junto com Marcelo Mastroianni, ser o filme que é na história do cinema. Assim como o final antológico, o início da fita é marcante por revelar, de cara, que o universo circense não se restringe ao picadeiro nem à lona do circo. Um garoto acorda no meio da madrugada com o barulho que vem do largo de sua vila rural. Sobe numa cadeira, abre a janela e se depara com a lona do circo sendo levantada, como se emergisse da terra e se inflasse na imaginação do garoto. Naquela mesma noite ele irá ver os palhaços e sairá chorando de medo - algo comum às crianças que tomam esse contato imediato com os arquétipos de seu inconsciente. Naquela noite, quando se prepara para dormir, faz uma preciosa reflexão: “Aquela noite acabou mal. Os palhaços não me fizeram rir e, sim, me assustaram. Aqueles rostos de gesso, expressões indecifráveis, aquelas máscaras retorcidas, os gritos, risadas, as piadas atrozes, me lembravam outras figuras estranhas e inquietantes que vagavam por cada aldeia do campo...” A partir daí Fellini enumera uma série de cenas em que personagens populares agem claramente como palhaços, encarnam, dispensando a pintura facial, o arquétipo do humor grotesco, daquele que vê o mundo pelo avesso, a partir de uma lógica toda própria. Enfim, uma das percepções mais acuradas do espírito circense. Fellini retoma o circo na sua Entrevista (1987), seu testamento cinematográfico, em que passeia pela Cinecittà decadente e é apanhado por uma inesperada chuva. Fellini e sua equipe fogem e se refugiam num circo abandonado, onde, logo depois, são surpreendidos pela bandinha de palhaços, de modo que a fita se encerra com um "retorno ao mundo" (o círculo do picadeiro é uma grande metáfora do mundo). Ele próprio, Fellini, é um clown disfarçado, oculto atrás de sua cara limpa, rindo para a plateia e arrancando dela um riso de alma, a ponto de lavá-la e prepará-la para retornar às luz da rotina.
Segue um trecho de quatro minutos do Funeral do palhaço, a tal cena final, em que um luxuoso clown dispara um discurso nonsense sobre o palhaço morto, enquanto desfilam todos os tipos do humor circense imagináveis, caras brancas, excêntricos, campônios, mestres de pista, etc.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A pedidos: Zabé da Loca

Esse blog tá parecendo músico de barzinho: a cada música chega um torpedo pedindo outra! Bom, a pedidos, falo de Zabé da Loca, tocadora de pífano da Paraíba (embora tenha nascido em Pernambuco), que viveu com seu pife dentro de uma loca (caverna) na Serra do Tungão por 25 anos. Sua história parece saga nordestina de cordel: perdeu oito dos quinze irmãos na seca, de fome e doença, aprendeu a tocar aos sete anos e hoje, aos 87, com um metro e meio de altura, mora numa casa em Monteiro (PB) e faz o público se admirar com os CDs Zabé da Loca (2003) e Bom Todo (2008). O grupo paraibano de Campina Grande, Cabruêra, popularizou a figura na música Zabé sabe: "No meio da mata/na idade da pedra/o som que sai daquela louca/é samba da minha terra..." A novidade aqui é o documentário O mundo encantado de Zabé da Loca, dirigido por Pedro Paulo Carneiro, que percorre os festivais internacionais e aparece aqui no blog, em trailer. O filme é também um pretexto para passar em revista a cultura popular paraibana que, assim como Zabé, resiste no sertão.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Dover Tangará e a arte de receber aplausos

Debate acalorado no Centro de Memória do Circo e de repente alguém se refere à arte do trapézio. Só que na plateia está nada menos que Dover Tangará, da trupe que leva seu sobrenome, que imperou nos ares circenses por décadas até o ponto em que ele, com nome e prenome aéreos, foi considerado o melhor do mundo. Ao se levantar e defender a sua arte a reação dos presentes não poderia ser outra: o aplauso foi unânime. O trapezista, sem se fazer de rogado, levantou os braços, estendeu-os à frente e curvou-se ao público: postura de quem sabe receber aplausos. Afinal, foi o que fez na maior parte da sua vida. Dover foi personagem do livro O filósofo voador, de Eduardo Rascov, meio ficção, meio biografia, que conta sua trajetória das alturas para as profundezas, arrastado por problemas psicológicos que o levaram para a vida nas ruas. Mas Dover mantém o brio daquele que desafia o perigo refazendo todas as noites o número que não reconhece erro, pois envolve a morte. Revi Dover hoje, após alguns meses de distância, em que vivia uma amarga recaída depressiva. Estava sorridente, disse estar feliz por ter me encontrado - quando eu é que deveria ter dito isso a ele. E me cobrou: quer encenar O mártir do Calvário numa megaprodução em pleno Memorial da América Latina, só com artistas circenses. Já disse aqui no blog que se trata do sonho de todo circense, afinal, é a peça mais complexa - com inúmeros personagens e texto rimado, o que exige destreza, desempenho cênico e boa memória de quem a encena. Dover se revela pronto para ela. Mais do que nunca. E sabe que fiquei bem feliz em vê-lo assim de novo?

terça-feira, 5 de abril de 2011

A presença de Picolino

A primeira vez que conversei com ele foi em sua casa, há três anos, após agendar uma entrevista para falar de circo-teatro. Já aí o mito falava mais alto ao meu anseio de pesquisador. Aliás, pesquisar é ter a chance de contatar a experiência mais profunda a partir de pessoas que viveram o suficiente para te extasiar. É muito diferente da entrevista jornalística, em que se tem que cumprir uma pauta, e voltar para a redação com algo que satisfaça a necessidade de publicar alguma novidade. Entrevistar num processo de pesquisa é conhecer, aprofundar, se admirar, aprender. Foi assim com Picolino naquela feita e em tantas outras, depois. Ele guarda a essência do circo na alma. Aliás, ele é todo alma, e lá está o circo, sempre. Conta e reconta histórias, sem se cansar, como se encenasse mais uma vez aquela velha entrada, dando o seu melhor para arrancar o riso da plateia. Aos 87 anos, luta contra a velhice como quem assopra os gravetos para ver o fogo levantar novamente. Mesmo quando Roger Avanzi (Rogê, em francês), somos tentados a chamá-lo Picolino. É filho de Nerino Avanzi, que criou e conduziu o Circo Nerino, em atividade por quase 50 anos. Quando a lona baixou, em 1964, continuou levando o palhaço criado por seu pai no Circo Garcia. Depois, em 1978, foi ensinar na Academia Piolin de Artes Circenses. No final de 2010, participou da apresentação final do projeto "Entre risos e lágrimas: o circo no teatro (da pantomima aos dramas)", promovido pelo Centro de Memória do Circo e pelo Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Censura - Arquivo Miroel Silveira, da ECA/USP, do qual participo como pesquisador de pós-doutorado. Ao lado de Fusca-Fusca, apresentou duas de suas mais tradicionais entradas. Agora, semana passada, soube, esteve nos estúdios da Rede Globo para participar da gravação do último capítulo da novela Araguaia, quando será homenageado. Notadamente, é difícil imaginar o quanto alguns segundos do horário nobre poderiam dar a dimensão de Picolino... Não daria tempo dele contar seus deliciosos casos de circo, nem declamar o poema que fez sobre o palhaço, muito menos relembrar trechos enormes de peças circenses, textos dificílimos, rimados, que não escapam de sua memória, nem com a proximidade das nove décadas! Ele estará lá, todos mencionarão seu nome, mas Picolino mesmo, não verão. Esse é o grande desafio da memória circense... ela está na oralidade, está na imagem, está no fazer cênico. Pode-se gravar, filmar, registrar. Mas a essência é a presença. Sorte daqueles que ainda poderão partilhar da presença de Picolino. Trata-se de um tesouro que se carrega para o resto da vida. E que não tem preço algum.(A foto do post é do Luís Alfredo.)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Renato Andrade e o curioso

A ideia e a vontade de pesquisar o universo da viola me veio depois de assistir a um show do violeiro Passoca, lá por meados da década de 1990, quando ele lançava o CD Breve história da música caipira. Consequência natural, a motivação para fazer uma certa "amarração" entre o que já havia sido escrito sobre o tema veio logo. Depois, já em 2000, um curso de especialização na ECA/USP me deu uma metodologia para organizar tudo e, de quebra, me viciou em pesquisa sobre as manifestações da cultura popular. Bom, depois do show de Passoca, frequentei outros vários, entre eles o de Ivan Vilela, grande violeiro e professor da USP, e, em especial do grande Renato Andrade. Essa figura ímpar, que morreu em 2005 em Belo Horizonte. Mineiro de Abaeté, dominou as dez cordas da viola de uma forma tão plena que eram primorosas as suas apresentações, sempre recheadas com causos contados com sua voz matreira, como se requer a um bom mineiro. Dizia ter ameaçado fazer o pacto com o demônio para tocar bem e tirado vantagem, enganando-o! Sua interpretação virtuosística incluía até tirar som da viola tocando em suas costas, no fundo de madeira...
Após o show, dividido com Paulo Freire, estava na entrada do Sesc Ipiranga conversando com este último violeiro quando chegou Renato, devagar, e foi ouvindo a conversa. Eu dizia ao Paulo que estava disposto a escrever a história da música caipira e que sabia que isso me consumiria um bom tempo - alguns anos depois fui até sua casa, em Campinas, para entrevistá-lo para a pesquisa. Quando viu uma brecha, Renato se aproximou e disse, com sua voz mineira: "Olha, tudo começou com os Três Batutas do Sertão. Era uma maravilha ouvi-los no rádio. Torres, Florêncio e Rielli. Começa por aí." Hoje o conselho soa bem básico a um curioso que, na época, ainda começava a tentar entender a música caipira (hoje continuo tentanto!). Mas o conselho precisava ser dado por ele, Renato Andrade!
No video, o violeiro interpreta o Relógio da fazenda, solo em que demonstra o seu virtuosismo. Renato deixou poucos registros gravados, entre eles o primeiro, A fantástica viola de Renato Andrade (1977), além de participar do CD Violeiros do Brasil, projeto que reuniu diversos tocadores em shows, disco e DVD, capitaneados pela Mirian Taubkin.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Inezita e o carnaval no Parreirinha

Final de tarde e o restaurante está vazio. É o velho Parreirinha, na av. General Jardim, ao lado da Aliança Francesa, com sua inesquecível vitrine com rãs e polvos dependurados num pequeno varal. Sento numa mesa e aguardo, no silêncio do salão. De repente ela chega e caminha, sorrindo, pelo corredor de mesas. Me encaminha a uma mesa próxima ao caixa, onde, no veludo vermelho do espaldar da cadeira há, em dourado, sua assinatura sobre uma viola. Sentamos. Saco o gravador para fazer as perguntas devidas - fazia parte da pesquisa que redundou no livro Moda Inviolada - Uma história da música caipira, o qual, seis anos depois, eu iria promover no programa Viola Minha Viola e reencontrá-la. Respondendo sempre com emoção na voz, sem parecer forjar uma só palavra, repetia o mesmo roteiro que deveria ter seguido em centenas de outras entrevistas. Cumprido o cortejo,  o gravador já desligado, pediu algo para beber.
Foi aí que Inezita comentou sobre o carnaval paulista, comparando o desfile das escolas de samba a uma marcha militar. A aceleração do ritmo do samba acompanhou o afobamento em desfilar dentro do prazo, de modo que os passistas cumprem o trajeto com um olho no relógio e outro no jurado. Fez questão de lembrar que o samba paulista era mais genuíno do que o carioca, afinal, veio diretamente da África, sem precisar fazer escala na Bahia (o samba carioca, contam os historiadores, nasceu na casa da baiana Tia Ciata, que reunia vários batuqueiros na Praça Onze, região central do Rio de Janeiro, para noites de pagodes onde era tocado o samba que haviam trazido da Bahia). Lembrou de Cornélio Pires, autor do livro Sambas e cateretês, publicado em 1932, em que compila as letras das duas manifestações musicais paulistas. O samba rural, estudado por Mário de Andrade, é uma manifestação do interior paulista, especialmente de Pirapora do Bom Jesus. Inezita lamentava que, assim como a música caipira havia se rendido às regras de mercado, o samba paulista também demonstrava reflexos muito distantes do que teria sido em sua gênese urbana. O que parecia inusitado, a sua familiaridade com o samba, na verdade era algo inato. Apesar de ícone da música caipira, Inezita nasceu na capital, numa Quarta-feira de Cinzas, e no instante em que o Cordão da Barra Funda passava pela janela de sua casa...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Pena Branca e a caixinha

Pena Branca me mostrava uma moda nova que havia composto. Ele e seu irmão Xavantinho, fazia questão de assinalar, pois acreditava que, mesmo em outro plano era ajudado pelo companheiro. Era linda, como de costume, sobre um peão que se dividia entre duas mulheres: a que ia lhe desejar sorte na hora de montar o boi brabo e aquela cuja fotografia estava dentro do seu chapéu: Nossa Senhora Aparecida. Perguntava se estava dentro do estilo dele. E eu, feliz por ter o privilégio de entrevistá-lo, só concordava... Mas era mesmo maravilhosa a moda.
Depois das poses para o fotógrafo, me faz um convite inusitado.
- Vem aqui ver uma coisa...
Atravesso a casa vazia, o corredor na penumbra, até alcançar o quarto. A cama arrumada, o aparelho de som e uma considerável pilha de CDs. Me explica que fora jurado do Prêmio Sharp e aqueles eram CDs dos participantes que recebia para dar a sua avaliação. Aliás, era como num jogo da memória: havia dois CDs de cada. O dele e o do Xavantinho.
- Escolhe um procê.
Tímido, vasculhei as pilhas e acabei apanhando um do Tavinho Moura com solos de viola, que virou o mico daquele jogo de pares. Nada mais condizente com a oferta.
Então ele pega uma banqueta, sobe, abre o maleiro do guarda-roupa de cerejeira e tira de lá uma caixinha de papelão, quase quadrada.
- Ói, queria te mostrar isso.
Abre a tampa, tira algo enrolado num papel pardo. Minha curiosidade já havia dispensado os CDs e aguardava a operação do desenrolar do pacote para ver o que se tratava. De repente, saca o pequeno gramofone dourado e aponta na minha direção.
- É o Grammy! Já tinha visto um? - pergunta, com um sorriso entre o orgulho e a satisfação ante a minha confirmação de que, de fato, jamais havia visto um Grammy na vida.
Um troféu que Xavantinho não viu, embora o disco Semente caipira, gestado com o irmão, tivesse sido gravado somente por Pena Branca em 2001, dois anos depois da morte do irmão. Levou o Grammy Latino de Melhor Música Sertaneja (essa indústria fonográfica e suas nomenclaturas...).
Satisfação maior, enfim, tive eu. Não por ter o Grammy em minhas mãos, mas por ter conhecido uma das figuras mais simples e fascinantes deste mundo...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Benedito Sbano, Picoly e o motorista

 


Apesar de pesquisar sobre circo há pelo menos cinco anos, somente em 2010 conheci o sr. Sbano. Ele me conheceu como seu motorista naquele dia de reunião no Centro de Memória do Circo. Tinha a tarefa de buscá-lo, embora não o conhecesse, a não ser pela voz firme ao telefone. No caminho, o assunto não poderia ser outro: circo-teatro. A família Sbano é muito tradicional, especialmente porque é de origem cigana. Aliás, organiza duas vezes ao ano uma bela festa cigana no Horto Florestal, zona Norte de São Paulo. Foi dona do Circo Theatro Sbano, que atuou por anos na Vila Prudente (zona Leste), comandado pelo Capitão, sr. Zurka Sbano.
Eu falava das peças que estavam no Arquivo Miroel Silveira (ECA/USP), cerca de 1.080, e ele me desafiava a dizer o nome de alguma que ele não conhecesse. Depois daquele dia de chofer tive a oportunidade de conversar bastante com o sr. Sbano, um prodígio de memória tanto de fatos quanto de textos inteiros de circo-teatro. E tive a oportunidade de conhecer Picoly, palhaço excêntrico que nasceu em 1957 e que, no corpo de 83 anos do sr. Sbano, está a tripudiar sobre seus parceiros de picadeiro ainda hoje. Como motorista temporão, posso dizer: sua atuação é de fazer perder o rumo. De tanto rir!
Sua performance como palhaço é precisa, no sentido de precisão requerido pelo tempo do circo: exatidão no diálogo, graça no improviso e desfecho da piada na hora certa.
Nos encontros realizados no Centro de Memória do Circo contou que numa ocasião foi questionado por uma repórter sobre quem precisava mais de quem, se o Picoly do Benedito ou o Benedito do Picoly. Não teve dúvida, ficou com a segunda opção. Nunca o vi representar, mas dizem que é um ator fenomenal que nunca foi convidado para atuar na televisão ou no teatro - a não ser, claro, no circo-teatro. Aliás, chegou a fazer TV sim, como consultor da novela Explode Coração, cujo núcleo principal era formado por ciganos. No final de 2010 levou o Prêmio Governador do Estado e participou do projeto "Entre risos e lágrimas - O teatro no circo (da pantomima aos dramas)", promovido pelo Centro de Memória do Circo e pelo Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Censura - Arquivo Miroel Silveira, da ECA/USP.