Quando me mudei de Mogi das Cruzes para São Paulo, saindo de uma casa térrea para um ínfimo apê nos Campos Elíseos, isso há mais de vinte anos, na primeira visita de meus pais perguntei a eles o que haviam achado da casa e minha mãe lamentou: "...mas não tem nem um quintalzinho..." Na época não me dei conta, mas hoje entendo o quanto um quintal faz a diferença na comparação entre a cultura urbana, da cidade grande, e a cultura suburbana, das bordas da metrópole. O sociólogo José de Souza Martins analisa esse fenômeno mais detalhadamente no livro A aparição do demônio na fábrica, que traz vários artigos, incluindo o que dá título à obra, genial por sinal, e do qual falarei em breve. O quintal é o resquício espacial da roça, da nossa tradição rural, e onde se cultiva (ou se cultivava) uma pequena horta, a salvar a intenção de novidade no preparo do almoço - ou da janta (quantas não foram as vezes que tive de ir, no escuro, de noite, na horta, apanhar um ramo de salsinha?). Nesse espaço também se ensaiam as artes infantis, se descansa debaixo de alguma árvore (um pé de alguma coisa, pitanga, pêssego, manga, amora, goiaba, falo dos que ocuparam os quintais da minha infância), onde acontecem as festas familiares. Sim, as festas também migraram da roça para os quintais. Terreiros de São João encolhem em minis arraiais, rezas em capela acontecem em altares improvisados, rituais de simpatias são executados rentes às portas das cozinhas, estas as passagens privilegiadas entre o presente e o passado, a casa e o quintal. Nele também vivem os animais agregados da casa, adotados também pela tradição rural: os cães e os passarinhos, em gaiolas, pousados no muro ou nos beirais. Meu pai chegou a criar um porco no quintal de casa, o que gerou profunda afeição entre nós, as crianças da casa, e o animal que, não sabíamos, seria a nossa ceia de Natal... Pior: ele e meu avô executaram o bicho também no quintal enquanto passávamos incompreenssíveis horas em visita na casa da avó... Também galinhas povoaram o fundo da propriedade e foram depenadas no tanque, assim como os pombos. Hoje não só esse templo íntimo se vai longe no tempo - até mesmo em propriedades ditas rurais, as chácaras povoadas por urbanos nos finais de semana, não têm mais esses quintais de antigamente - como vários hábitos de outrora desapareceram. Entre eles, somem: varrer o terreiro, quarar a roupa sobre o capim, conversar sob a árvore, ver a tarde cair cutucando as frutas maduras com o bambu, arranhar o joelho após um tombo numa ou outra brincadeira, e, enfim, acreditar que aquele espaço era todo o mundo de que se dispunha para se sonhar.
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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
domingo, 22 de maio de 2011
Oração para uma ótima semana
Conheci este final de semana por intermédio de amigos do Facebook, uma ferramenta que, debaixo dos comentários triviais - "estou indo para..."; "adoro comer..."; "ai que vontade de..." - sempre traz notícias e coisas novas para o deleite da vida. Felizmente muitos sabem usar a tal rede para o bem! Pois bem, passei o final de semana ouvindo e, apesar de não ter ligação com os temas do blog, abro esta semana com Oração, da Banda mais bonita da cidade, grupo curitibano que estourou na internet por fazer um tipo de música em que simplicidade e felicidade se revelam de maneira natural, sem artificialismos e sem pretensão intelectual. Saúdo os meninos, embora alguns "críticos musicais" (ainda existe isso no Brasil, Giron?) já tenham bordado delicamente um rotulozinho para eles. Deixe estar. Continuem simples e alegres.
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