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domingo, 6 de maio de 2012
Somente para palhaços
quarta-feira, 25 de abril de 2012
O corpo e a alma do circo
Outro dia ouvi um comentário interessante de uma espectadora do filme O palhaço, de Selton Melo: que o raro diálogo do filme dava margem para que aquele que assiste ao filme exercite sua nostalgia circense. De fato, o vazio que se abre entre a lona e o chão do picadeiro é o espaço em que se exercita não só a nostalgia, mas o inconsciente, de onde brotam as imagens simbólicas que envolvem o exercício extremo do corpo, esse elemento do qual é feito o espetáculo circense. O corpo é levado ao seu extremo elástico, expressivo. O ginasta suporta pesos impensáveis ao físico "normal", a flexibilidade do trapezista é a segurança de que não cairá das alturas, a elegância dos movimentos da aramista emprestam a leveza da dançarina. Nessas imagens se projetam os nossos sonhos, a nossa sobrehumanidade. Num artigo escrito na década de 1970, o homem de teatro Miroel Silveira defende que o circo é o "espaço arquetipal emergente", ou seja, nele vemos não o corpo se projetando em risco constante, mas os mitos de Hércules, Ícaro, Jasão, deuses e semideuses, heróis e musas... E os artistas são humanos como nós, emprestam seus corpos para que realizemos a fantasia de sermos algo que extrapola nossa vida comum e cotidiana. E o corpo do palhaço? Jocoso, disforme, grotesco, mas nele mora a graça que irá explodir em nossas gargalhadas... Um espaço de sonho? Não, muito mais. Um espaço em que nos vestimos com os arquétipos para renovar nossa alma. Nesse sentido o circo é a expressão perfeita da síntese de Apolo e Dionísio, como procurou encontrar um velho filósofo do século 19, Nietzsche. Talvez este seja o fascínio instantâneo de quem entra num espetáculo circense. Me lembro quando levei minha filha a primeira vez ao circo e do quanto ela mirava o alto da lona... Sim, lá no alto está o nosso inconsciente, pronto a ser povoado pelos mitos. E nosso próprio corpo, cá embaixo, acolhe as imagens que se materializam diante dos nossos olhos, como o coelho que sai da cartola: nossa capacidade de subjetivar a vida nunca se fez tão clara!
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Classificados de 1929: Piolin e Cornélio Pires lado a lado
O ano de 1929 foi decisivo para o país por conta da quebra da Bolsa de Nova York, que seria a pá de cal no poderio da oligarquia rural cafeeira. Foi também um ano decisivo para a cultura popular. Especialmente em São Paulo, foi quando o palhaço Abelardo Pinto Piolin atingiu o auge de sua carreira no picadeiro do Circo Alcebíades, montado no Largo do Paissandu desde 1925, consagrando as farsas que o celebrizaram por toda a vida. Entre elas estavam sua original Do Brasil ao Far-West, em que se introduzia num saloon de faroeste de cinema para apresentar suas estrepolias mímicas, e a consagrada O morto que não morreu, clássico do circo-teatro, encenada à exaustão por quase todos os circos que atuaram no Brasil no século 20. Também naquele 1929 nasceria o gênero da música caipira, muito por insistência do tietense Cornélio Pires, que levou a ideia à gravadora Columbia, foi rechaçado, insistiu, foi-lhe pedida uma fortuna para pagar a impressão dos discos, e ele bancou do próprio bolso. Juntou os bolachões e foi para o interior vender. Para sua própria surpresa, a tiragem inicial foi pouca. Logo voltou à Columbia e o susto dessa vez foi dos ingleses que não acreditavam que música rural venderia no Brasil. Pois não é que um anúncio na seção de Classificados do jornal O Estado de S. Paulo em 16 de março de 1929 aparecem, lado a lado, os dois personagens deste post e objetos de pesquisa deste pesquisador?! Cornélio anunciando para brevemente a sua série de discos da "Turma Caipira", e Piolin estrelando ao lado de Alcebíades a farsa O morto que não morreu... Para comprovar, segue a imagem do microfilme, de pesquisa realizada pela aluna de História da FFLCH e pesquisadora do NPCC, Audrea Santana.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
O Circo Vox e a linhagem circense
Na tarde de autógrafos em que lancei meu livro Mixórdia no picadeiro, no Centro de Memória do Circo, no final do ano passado, estavam lá outros autores assinando seus projetos e pesquisas, entre eles o casal Gallo Cerello e Elena Cerântula, do Circo Vox. Em 2010 eles empreenderam o projeto Nostalgia, que envolveu um espetáculo e um livro, este com o subtítulo: "À História que viveram, à que vivemos e à que virá. Que o Circo persista!" A publicação reúne depoimentos de seis circenses: Elza Marlene Alves Dias (trapezista, aramista e domadora); Dora Sofia Rutiz (telepatia); Benedito Sbano (o palhaço Picoly, já conhecido dos leitores do blog); Ricieri Pastori, o Julius (acrobata e ginasta); Teresita Mendez Aurich (equilibrista e aramista); e Elza Wolf (corda marinha e trapezista). Enfim, um circo completo, do passado, todos remanescentes do período áureo do circo brasileiro, entre as décadas de 1940 e 1960. O trabalho da dupla de autores, mais do que o registro da memória, foi trazer para o presente o tempo do passado, cristalizado nas almas dos artistas e vertido em forma de depoimentos. Complemento do espetáculo dirigido pela dupla, ele tem autonomia por tocar a alma circense de um modo direto e, ao mesmo tempo, delicado. A versão digital do livro pode ser acessada aqui. O mais interessante é que o Vox tem uma relação com esses circenses como a do aprendiz com o mestre budista: buscam a "linhagem". Por sorte, a encontraram. A seguir, uma pequena prova disso."O circo é uma natureza, tá no sangue. Se a gente está parado, morre. É igual uma flor que vai murchando." (Elza Marlene)
"A gente sempre aplaude aquele que fala bobagem. Eu acredito que a alegria do circo é a melhor que tem. É um lugar muito lindo..." (Dora Sofia Rutiz)
"A gente tem sempre que aprender. Até hoje eu me coloco na frente do espelho e começo a fazer mímica, caretas, pra ver como é que o palhaço faz uma careta na hora da malandragem, ou da ingenuidade ou bobo." (Benedito Sbano)
"Nossa, a coisa que mais tenho saudade é a vida no circo. (...) É uma vida muito boa, precisa amar, precisa amar tudo o que se faz, tudo na vida precisa amar e gostar, mesmo que você ganhe pouco..." (Ricieri Pastori)
"Eu tenho muito orgulho, sou muito orgulhosa de ter sido de circo e de continuar fazendo minha arte hoje em dia, eu fico muito feliz quando alguém realmente leva a minha arte, a arte que eu ensino, sabe?" (Teresita Aurich)
"Mas sinto muita saudade mesmo, lembro que cinco horas da tarde corríamos pra se arrumar, se vestir, às seis horas já tocava a música, às sete horas já estava todo mundo pronto, era um momento muito lindo, o companheirismo que tinha entre os artistas, as brincadeiras, porque passava da cortina pra frente a gente era artista e mostrava sua arte, mas atrás das cortinas éramos tão companheiros, eram tantas brincadeiras..." (Elza Wolf)
terça-feira, 10 de abril de 2012
"Trapézio": o mais perigoso triângulo amoroso
Burt Lancaster começou sua carreira artística no picadeiro do Ringling Bros., o maior circo norte-americano, tema de outro filme, O maior espetáculo da terra (1952). Ele é Mike Ribble um dos seis trapezistas do mundo a dar o salto triplo, façanha que acabou levando-o a uma queda que o tirou da cena circense e o colocou nos bastidores. Sabedor disso, o jovem Tino Orsini (Tony Curtis) quer aprender o número com o mestre, prometendo dividir o espetáculo com ele. Tudo bem, se a ambiciosa Lola (Gina Lollobrigida) não se colocasse entre ambos. Esse triângulo amoroso chega às raias do perigo quando Ribble ameaça não segurá-la no trapézio se ela continuar iludindo o jovem Orsini para que a dupla se torne um trio e vá atuar no Ringling. Agora, imagine... se um triângulo amoroso já é arriscado em terra... no trapézio, então... O filme é de 1956 e dirigido por Carol Reed, que depois do sucesso da fita caiu no ostracismo. A primeira cena dá o tom do filme: a queda de Ribble e seu reaparecimento manco. Isso amplia a tensão do espectador nas cenas de trapézio, agravadas pela trama e pela relação tumultuosa do trio. Na trilha sonora, a valsa que embalou gerações de trapezistas: o Danúbio Azul, do vienense Strauss, com seu ritmo circular e que suspende ainda mais os corpos dos artistas no ar. Para conferir o efeito, um trecho do filme. Disponível em video na série Hollywood Classics, com belíssimo encarte com fotos dos atores principais.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
A trajetória de Barry Charles Silva
Há uma semana, no Centro de Memória do Circo, Roger Avanzi, o palhaço Picolino, patrono do espaço, se dirigiu ao circense Barry Charles Silva, homenageado da tarde, e fuzilou: "Você era a pedra no meu sapato!" Concorrentes, selaram a homenagem com um abraço, no mais genuíno estilo circense. Celebrado pela filha, a historiadora e pesquisadora circense Ermínia Silva, que produz um documentário sobre o pai, Barry é a terceira geração da família sérvia que aportou no Brasil em 1875 (o pai) e em 1909 (a mãe). Começou cedo a vida no picadeiro, como sempre ocorre com um circense - Ermínia conta detalhadamente esse processo na sua pesquisa de mestrado, publicada com o título de Respeitável público - O circo em cena (Funarte, 2009). Fez números de variedades como saltos, laço e chicote, parada. Também atuou em papéis infantis em peças de circo-teatro. O circo da família, que teve diversos nomes, era o Circo Zoológico Brasil, na sua adolescência. Logo, aos vinte anos, se tornaria empresário do circo, juntamente com o irmão Edmundo e a mãe Yvone. Assim percorreu sua trajetória de vida, até 1982, quando o circo foi desmontado pela última vez. Nesse percurso, atendeu pelos nomes de Norte-Africano, Pan Americano, e Circo Charles Barry.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Circo Piolin: Monumental estreia em 1933
Depois de uma temporada de dez meses no Teatro Boa Vista em 1931, ao lado de Tom Bill e sendo muito criticado pelos cronistas da época por ter trocado o picadeiro pelo palco, Piolin sai em turnê, retornando a São Paulo somente em 1933, quando estreia em lona própria e com seu próprio nome. Este anúncio do jornal O Estado de S. Paulo, de 30 de março de 1933, em microfilme - garimpado pela Audrea Santana, pesquisadora iniciante mas persistente, como se requer a uma veterana - revela a estrutura do espetáculo: variedades mais peça ao final. O parceiro de Piolin é Faísca, seu irmão Anchises Pinto (pai do ator das chanchadas cinematográficas Ankito). Ah, e uma informação imprescindível: a lona é impermeável, o que significa que haverá função mesmo que chova.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Os circos da minha infância
Recomeçando as atividades do blog neste 2012 e ainda sob o clima de férias, embora já esteja trabalhando, evoco minhas memórias infantis para relembrar os circos cujas lonas cobriram minha imaginação na não tão distante Mogi das Cruzes. Vivi a maior parte dessa infância nos anos 1970, quando os grandes circos viviam seu auge e traziam para o Brasil o tipo de espetáculo conhecido como americano, com grandes picadeiros, quando não dois num só circo, animais amestrados, números produzidos e luzes, muitas luzes. Lembro o ronco das motocicletas do Globo da Morte percutindo dentro do meu peito na escuridão forjada do espetáculo, com as lanternas rodopiando pelo picadeiro num movimento tão rápido quanto o pensamento; ou as dançarinas de maiô dourado que rompiam a escuridão com lanternas acesas nas duas mãos, projetando círculos dançantes no teto de lona, sob o arranjo futurista de Valdo de Los Rios do poema sinfônico consagrado - pelo cinema - Assim falou Zaratustra, de Richard Strauss. As lonas de Orlando Orfei, Thiany e Garcia eram as mais constantes na cidade que, descubro hoje, por meio da pesquisa acadêmica, ter sido evitada pelos circos mais antigos por ser uma praça de pouco movimento. Lembro-me também do fato de ter sido na cidade que Orlando Orfei foi atacado pela primeira vez na sua vida por um de seus leões, ele um hábil domador que sempre posou ao lado das feras com certa intimidade (foto). Só não trago na lembrança os palhaços dos circos que frequentei. Estes vieram, sim, dos programas de televisão, a começar por Arrelia e prosseguindo com Torresmo e Pururuca, com alguma deixa para Carequinha. Trago, enfim, a lembrança de ter vivido a experiência de um temporal sob a lona de um circo. O vento arrastava o pano de roda, levantando-a à altura da arquibancada, com o vento zunindo pelas cordas e a água varrendo os vãos dos assentos, molhando nossas pernas. No picadeiro, como se nada acontecesse, o espetáculo prosseguia, o que nos dava uma certa aflição. Mas, como diz Lauro, protagonista do conto Cavalinhos, de Monteiro Lobato, ao sair da função circense: “a beleza das coisas não reside nelas senão na gente”.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Os públicos que apoiaram o resgate da memória circense
Ao findar o segundo ano do projeto "Entre risos e lágrimas - O teatro no circo (das pantomimas aos dramas)", parceria entre o Centro de Memória do Circo, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e o Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Censura - Arquivo Miroel Silveira, da ECA/USP, é possível detectar que o esforço em resgatar a memória da dramaturgia circense rendeu frutos que estão sendo saboreados pelos diversos públicos ligados às artes e aos saberes circenses. Vamos a eles:
1. O próprio circense. Desde que o Centro de Memória do Circo assumiu a função de ser o novo ponto de encontro da classe circense, resgatando o antigo Café dos Artistas, que funcionou por décadas no Largo do Paissandu, a movimentação em torno dos encontros que envolveram o resgate das esquetes circenses e a leitura das peças de Piolin deu uma nova perspectiva aos próprios circenses. As atividades renderam novo ânimo e a sensação de que o circo resiste. Nesse sentido, parte das pessoas que lotavam os encontros com os palhaços eram de pessoas que conheciam muito as artes e os saberes do circo. Estavam lá para reforçar sua identidade e sentir o circo pulsando.
2. A nova geração de circenses. Os eventos pensados dentro da parceria para resgatar a dramaturgia circense contou com uma parcela muito entusiasmada de público: os novos grupos que usam da arte circense para criar seus projetos e espetáculos. Entre eles estão: Esparatrapo, Clã, Clownbaret, Cia. Reprises (que nasceu da participação dos Doutores da Alegria no projeto em 2010), e os alunos da SP Escola de Teatro.
3. O público em geral. O que não quer dizer uma legião de anônimos, pois boa parte desse público buscou um grau de envolvimento nos eventos que vai além da simples curiosidade. Alinho nessa fatia de público figuras como a de Edy Star, cantor e ator que fez parte da carreira ao lado de Raul Seixas e outra parte no Circo Fekete, pelo interior da Bahia. Ou a assistente social Janete de Oliveira DJassi, que participou da abertura do projeto após acompanhar o cortejo puxado pela Cia. Reprises na Galeria Olido e me procurou para contar a importância que o circo teve na vida de sua mãe, empregada domésticas nos anos 1950 na região de Higienópolis.
4. Os pesquisadores. Embora não seja um público, pois são poucos ainda os que se dedicam a pesquisar o circo, entre eles Mário Bolognesi, Ermínia Silva, Alice Viveiros de Castro, Verônica Tamaoki (que coordena o Centro de Memória do Circo) e este que escreve. Dedicaram sua experiência em intensidades que estavam ao seu alcance, e enriqueceram o universo do resgate da memória circense nas diversas fases do projeto.
5. Os palhaços. Estes destacados do primeiro grupo e propositalmente deixados para o final por um simples motivo: eles foram a alma do projeto. Romiseta (Agostinho Blask), Reco Reco (Francisco Paulivan Ferreira dos Santos), Bacalhau (José Odair Cazarin), Condorito e Corchito (Fernando Pontigo Silva e Sônia Beltrán Diaz), Pururuca (Brasil João Carlos Queirolo), Pepin e Florcita (Raul Hernando Robayo e Maria Duran), Picoly (Benedito Sbano), Xuxu (Franco Alves Monteiro), Biriba (Geraldo Passos) e Picolino (Roger Avanzi), além dos atores Raul Barreto, Domingos Montagner e Hugo Possolo, dedicados à palhaçaria. Ao olhar para esse contingente de pessoas é que temos a dimensão da importância da iniciativa. Assim, só é possível concluir com uma frase do sr. Sbano, o palhaço Picoly: "O circo não morreu. E nem resfriado ele está!"
sábado, 17 de dezembro de 2011
Os 50 anos da tragédia de Niterói
Certa vez, ao final de uma aula sobre a minha pesquisa sobre o circo, um aluno me aborda na saída da sala e me pergunta sobre uma história que ouvia do pai: a tragédia ocorrida num circo em Niterói na década de 1960. Hoje, dia 17, completam-se cinquenta anos do incêncio que vitimou mais de 500 pessoas, a maior parte crianças, no Gran Circo Norte-Americano, da família Stevanovich. A tragédia ecoa na alma da cultura brasileira ainda hoje, além de continuar sendo talvez a maior tragédia mundial dentro de um circo. Recentemente o jornalista Mauro Ventura narra os acontecimentos daquele 17 de dezembro, ouvindo sobreviventes e revelando personagens que permaneceram anônimos nessa metade de século no livro O espetáculo mais triste da terra (Companhia das Letras). De fato, uma narrativa ponteada de histórias muito tristes, em estilo de crônica - o autor é jornalista d'O Globo), que dilata a tragédia ainda mais. Mas, para pontear a tristeza, trago um encontro que foi muito fortuito e que ocorreu na última segunda, quando lancei o livro Mixórdia no picadeiro - Circo-teatro em São Paulo (1930-1970), no Centro de Memória do Circo. Numa certa altura se aproxima de mim uma simpática velhinha que vem me falar sobre sua experiência com o tema do livro, dona Elza Marlene, personagem do livro Nostalgia, do casal Elena Cerântola e Gallo Cerello, fundadores do Circo Vox, que também autografavam naquele dia. Me contou, depois, que atuava no Gran Circo Norte-Americano mas, que naquela trágica tarde, estava no hospital, devido a uma torção no braço - era trapezista com os irmãos, um deles foi o último a pular do trapézio para a rede de proteção, depois de Nena Stevanovich ter gritado "fogo!" e desatado o corre-corre debaixo da lona em chamas. Por conta de um acidente no dia anterior, dona Elza escapou, embora conte que aquele irmão teve os braços queimados pelas chamas que caíam do teto sobre as quatro mil pessoas que lotavam a sessão. Dona Elza, com os olhos serenos, fala baixinho e sorri. Sabe que traz uma boa parte da história do circo, incluindo as mais trágicas. O que vale é poder e aprender a ouvir suas histórias.
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| Dona Elza e o filho. Atrás de mim, meu pai. |
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Três ou quatro coisas sobre O Palhaço, de Selton Melo
Relatórios concluídos e entregues, finalmente fiz o que boa parte das pessoas que me conhecem e sabem da minha pesquisa sobre o circo vinham me cobrando há tempos: vi o filme de Selton Melo. O filme tem, aliás, feito uma longa carreira de bilheteria, coisa rara no Brasil, especialmente em se tratando de um filme que trata de um palhaço em crise existencial. Mas o filme, de fato, é bem espirituoso, faz as devidas homenagens - Benjamin (de Oliveira) e Valdemar (Seyssel), com os sobrenomes Savalla Gomes, homenageiam, numa tacada só, o palhaço negro do início do século, Arrelia e Carequinha - e reúne elenco de humoristas inspirados. O interessante é que eles fazem aparições especiais, muitas delas inesquecíveis, como a de Moacir Franco como o delegado apaixonado pelo gato de estimação, e a de Jorge Loredo, o Zé Bonitinho, aos 86 anos, e que é peça-chave na solução do principal nó da trama: a depressão de Pangaré, o palhaço vivido pelo diretor do filme, Selton Melo. Outro destaque é o sempre bom Jackson Antunes, que dá o principal tema narrativo da história e ainda toca viola, ele que já foi ator de circo-teatro. Por fim, e com respeito solene, o desempenho de Paulo José, ícone do cinema nacional e eterno Macunaíma (junto com Grande Otelo).
Segundo, esse trançar de fios narrativos compõem uma reforçada e colorida lona circense, revelando, como poucos road movies (os filmes de viagem) a contribuição daqueles que estão fixados na alma daqueles que passam. Além disso, inverte a dúvida, que geralmente é daquele que está fixo e acaba tentado a seguir com o circo. No filme é o palhaço, que segue uma viagem sem fim, que acha que deve se fixar.
E terceiro, o otimismo de que o espetáculo irá continuar na geração seguinte, num final que restitui à família circense o orgulho da profissão, pois nas circunstâncias que se apresentam, não resta nada senão seguir em frente. Ainda, uma outra reflexãozinha: será que o público que tem aplaudido a fita tem assim reagido por ver na salinha escura um desfile de pessoas que dão sua contribuição para aquilo que realmente vale a pena na vida, aprender com o outro? Se não for por isso, então só pode ser muito otimismo meu...
Aliás, falando nisso, a metáfora do ventilador (ou seria do catavento?) me remete ao Profeta Gentileza. É o chamado da alma. Mas isso é assunto para outro post.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Mixórdia no picadeiro! Agora em livro!
Demorou mas está prestes a estrear! Acaba de ser erguida a lona da publicação Mixórdia no picadeiro - Circo-teatro em São Paulo (1930-1970)! E a estreia está prevista para a próxima segunda-feira, dia 12, a partir das 17h, no Centro de Memória do Circo, que fica na Galeria Olido, no Largo do Paissandu, centro de São Paulo e berço do circo paulistano!
O livro reproduz parte da minha tese de doutoramento pela ECA/USP sobre a contribuição dada pelo circo-teatro à cena paulista e à cultura nacional. Editada pela Terceira Margem com apoio da Fapesp, o livro alinhava a grande presença de circos na cidade de São Paulo (e no Interior também) no período pesquisado e a sua participação no processo de construção de identidades a partir da mestiçagem cultural. Até então a maior parte dos pesquisadores só consideram importantes para a formação cultural paulista e nacional outras manifestações, como o teatro de revista, o cinema, o carnaval, etc. O circo não só foi importante na formação de público consumidor de espetáculos - essencial para a ascensão da cultura de massa - como foi fonte para a criação de discursos tanto dessa cultura de massa quanto da cultura erudita. Para exemplificar isso a pesquisa analisou a influência do palhaço Piolin (Abelardo Pinto) junto aos intelectuais modernistas, assim como do palhaço Arrelia (Waldemar Seyssel) na elaboração do gênero televisivo. Por fim, um capítulo sobre a atuação da chamada música caipira nos picadeiros e palcos dos circos brasileiros, especialmente Tonico e Tinoco e Zé Fortuna e Pitangueira. No decorrer da semana postarei mais informações sobre o lançamento!
NÃO PERCA! - NÃO PERCA! - NÃO PERCA!
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
A mulher suspensa no ar
Pois houve um tempo em que o Pavilhão José Bezerra arrasava em qualquer cidadezinha do interior da Bahia. Havia um número "matador". Por ser a companhia propriedade de um mágico, o número principal do espetáculo era o de levitação. Quem participava era sua filha. Cabelos longos soltos, túnica branca, ela entrava no picadeiro e se submetia a uma sessão de hipnose, aplicada pelo pai. A plateia, ao vê-la obedecendo-o a todo e qualquer comando, suspendia a respiração. Totalmente dominada, o mágico ordenava que ela se deitasse na mesa para o tão esperado número. Ela se deitava diligentemente, os cabelos cuidadosamente colocados de lado para, assim que o corpo levantasse, caíssem em direção ao chão, do qual ela se distanciava. Deitada, o mágico pedia extremo silêncio, tomando o cuidado de informar que, se houvesse algum tumulto, a menina corria o risco de morrer. Nesse instante todos os espectadores se imobilizavam. Teria início o número. Mal o mágico se prepara para gesticular lentamente induzindo à levitação, ouve-se um berro vindo de dentro dos bastidores. Irrompe no picadeiro uma senhora em desespero - a mãe da menina e esposa do levitador - implorando para que o número seja suspenso. Por longos minutos o mágico tenta consolá-la e fazê-la sair de cena. Atrás, da menina, toda a companhia está em pé, vestida de negro, aguardando o número. Pois um desses urubus se desloca e carrega a mãe para fora do picadeiro. Pronto, agora acontecerá: a mulher será suspensa no ar. Por mais longos minutos ela sobe, flutua, o mágico passa o grande anel mostrando não haver nada que a suspenda, e ela desce lentamente até pousar mais uma vez na mesa. O silêncio ainda impera, pois a menina ainda não recuperou a consciência. O mágico pede, então, à plateia que reze um Pai Nosso. Todos obedecem. Terminada a reza, os olhos da menina se abrem lentamente. Seu pescoço se vira e ela solta um indefeso: "Onde estou?" E o circo vem abaixo! O estrondo de palmas desfaz a tensão do número. Pois não é que a mãe volta, com um abaixo-assinado nas mãos, implorando assinaturas dos espectadores para que o número nunca mais seja apresentado? Mas, na semana seguinte, o mágico dá uma providencial passada na rádio da cidade, só para dizer claramente à população que, apesar das súplicas da esposa e do abaixo assinado, ele não poderá deixar o povo da cidade sem ver o número da mulher suspensa no ar!
A história foi contada pelo impagável Edy Star, que participou de grande parte das sessões de leituras das comédias de picadeiro de Abelardo Pinto Piolin, que aconteceram no Centro de Memória do Circo em outubro e este início de novembro. Aliás, foi um ótimo brinde no final da sessão de encerramento! Aproveito para agradecer a todos os participantes dessas leituras, que deixaram suas marcas interpretando os personagens e contribuíram para a análise de tão rica dramaturgia!
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
O Cirque du Soleil e o circo brasileiro
Importo da Revista Stravaganza, site do Edgar Olímpio de Souza, um artigo do ator, palhaço e diretor dos Parlapatões, Hugo Possolo, sobre o espetáculo Varekai, do Cirque du Soleil, em cartaz na cidade. É a terceira vez que a trupe internacional canadense aporta no Brasil, sempre em temporadas disputadas embora os ingressos sejam exorbitantes.A visão de Possolo é bem crítica:
"No entanto, o imediatismo com que são tratadas as atrações internacionais, cujos ingressos são bastante caros, somado ao provincianismo da imprensa, evidenciam o clima de festa preparada para ver a roupa nova do rei. O problema não reside no fato de ser um empreendimento de grande vulto, mas na opção que sua estética superficial anda disseminando. Quando se acredita que a renovação está no apelo do negócio e não em seu sentido poético para o público, ela sucumbe aos ditames daqueles que buscam o monopólio da imaginação."
A principal questão do artigo, que pode ser conferido na íntegra aqui, é o fato de que o Cirque é abastecido por diversos talentos brasileiros: "O Brasil se torna um exportador e o público brasileiro não chega a conhecer seus grandes artistas de circo." Ou seja, no espetáculo globalizado há o tempero do circo brasileiro, assim como do que há de melhor no mundo. A questão é que o espectador, encantado com a possibilidade de assistir a um espetáculo internacional, acaba subjulgando aquilo que é nosso de formação, elemento, inclusive, essencial na formação cultural brasileira.Sintetizando o processo de apropriação, que antes era nacional e agora é global, Possolo finaliza: "Continuaremos a aplaudir o conteúdo embalado pela indústria sem ver o quanto o nosso artesanato foi importante nesta receita de sucesso."
terça-feira, 6 de setembro de 2011
O palhaço Piripipi ensina a ver o circo místico
"Sou um palhaço. Um ser imaginário que vive num universo onírico: o circo. No entanto, os sonhos são reais enquanto símbolos. O espetáculo se desenvolve num palco circular, numa mandala, numa representação do mundo, do universo. A mesma porta que serve de entrada, também serve de saída. Isso quer dizer que a meta é a origem. Interprete como quiser. Você sai do nada e volta para o nada.
(Descrição feita por Alejandro Jodorowsky no seu livro autobiográfico "A dança da realidade", Devir Livraria, 2009.)
(...) O lançador de facas nos ensina que suas lâminas metálicas, símbolos do verbo, são capazes de circundar a mulher de branco amarrada, símbolo da alma, sem feri-la. As palavras precisam ser domesticadas para se eliminar delas a agressividade e colocá-las a serviço do espírito: a finalidade da linguagem é mostrar o valor da alma, valor que é uma entrega absoluta. O engolidor de espadas nos mostra como fazer para acatar cabalmente a vontade divina sem qualquer resistência. A menor resistência provoca ferimentos mortais. A obediência e a entrega são a base da fé. O homem que cospe fogo simboliza a poesia, a linguagem 

iluminada que vem para incendiar o mundo. Os contorcionistas nos ensinam como nos libertar de nossas formas mentais esclerosadas: não se deve aspirar a nada permanente. Nós temos que construir corajosamente na impermanência, em contínua transformação. Os trapezistas nos convidam a nos elevar acima de nossas necessidades, desejos e emoções para conhecer o êxtase de ideias puras. Eles evoluem em direção ao essencial, ou seja, à mente sublime. Os ilusionistas nos dizem que a vida é uma maravilha: não somos nós que fazemos os milagres, mas podemos aprender a vê-los. Os equilibristas mostram quão perigosa é a distração: chegar ao equilíbrio significa estar inteiramente no Presente. E, por fim, os malabaristas nos ensinam a respeitar os objetos, a conhecê-los profundamente, colocando nossa atenção neles e não em nós mesmos. É a harmonia na coexistência. Aquilo que nos parece sem vida, com nosso afeto e dedicação, pode nos obedecer e enriquecer."
(Descrição feita por Alejandro Jodorowsky no seu livro autobiográfico "A dança da realidade", Devir Livraria, 2009.)
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Circo: entretenimento popular
Cultura popular, entretenimento popular, povo. São ideias arriscadas, pois pedem definições estanques quando na verdade são conceitos difusos. A massa popular urbana, sempre imaginada como um monolito geométrico, na verdade se assemelha mais a uma espuma onde bolhas de diferentes formatos são criadas e estouradas a todo momento. Durante muito tempo imaginou-se que esse "povo" não tivesse sequer voz, tampouco iniciativa ou que poderia ser moldado como uma criança faz com uma massa plástica. Bom, em minha pesquisa sobre o circo parto do questionamento do porquê uma manifestação cultural tão importante e tão evidente no cotidiano da cidade de São Paulo passou tantos anos sem história. Sabe-se hoje como se construiu o teatro paulista, o cinema paulista, a música popular paulista, a televisão paulista. Mas, e o circo? Exceto os palhaços que fizeram parte dos primeiros programas de TV, pouco se sabe sobre o que se passava sob as lonas dos circos. E eram muitos. Além dos dois "fixos", ou seja, que passaram mais tempo armados no mesmo endereço na metrópole, como o Circo Piolin (na Barra Funda) e o Circo Seyssel (na Liberdade), outros 88 circos passaram pela cidade entre 1930 e 1968. Quem frequentava esses espaços de entretenimento? O povo. Que povo? Bom, aí fica mais complicado definir. Ouvi da filha de uma empregada doméstica na última segunda-feira, que sua mãe, que trabalhava numa casa de família no bairro de Higienópolis tinha o Circo Piolin como sua referência de entretenimento. E de sociabilidade. Contou-me que nas décadas de 1940 e 1950 havia grupos bem definidos que se encontravam nos finais de semana na Praça Buenos Aires: empregadas, motoristas e lavadeiras. Essas últimas moravam nas proximidades da Barra Funda, onde constituíram um bolsão de população negra, e lavavam as roupas das famílias ricas nas beiras do Tietê. Como a maior parte das empregadas tinha família no interior do Estado, o grupo se reunia em busca de sociabilidade e encontrava poucas formas de se divertir. Na maior parte das vezes esse divertimento era entre as cadeiras do Circo Piolin, onde "todo mundo era igual", pois só havia um preço de entrada e um só espaço comum. Lá, essa parte do "povo" passava suas horas de folga. E lá se entretinha com as estrepolias do grande palhaço. (Na foto, o Circo Piolin na rua que hoje leva o nome do palhaço, no Largo do Paissandu, na década de 1930.)Notícias do Projeto "Entre risos e lágrimas": O lançamento na segunda foi concorrido e contou com as presenças ilustres de nove mestres palhaços (Picolino, Xuxu, Pururuca, Pepin, Reco reco, Romiseta, Condorito e Corchito, Bacalhau), do Secretário Municipal de Cultura, Carlos Augusto Khalil, e do criador e coordenador dos Doutores da Alegria, Wellington Nogueira. Dia 31 de agosto acontecerá a primeira apresentação dos mestres, a cargo de Romiseta!
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Rivetti e o lugar mais perigoso do mundo
"Percebi que esta pequena arena é o lugar mais perigoso do mundo. Mas também é o lugar onde tudo é possível. Onde os olhos se abrem. E os meus se abriram."
A frase é do italiano Vittorio (Sergio Castelitto), do filme 36 Vous du Pic Saint-Loup, personagem que entra na vida de um pequeno circo que perambula pelo sul da França - mais precisamente próximo ao Monte Saint-Loup, em Languedoc - e acaba interferindo de forma direta nas vidas de Kate (Jane Birkin), filha do proprietário do circo, que se vê na iminência de assumir sua direção com a morte do pai; e a do palhaço da trupe. Deste, implica com uma entrada clássica, tenta aprimorá-la mesmo sob os protestos do palhaço - "Você sabe quantas vezes já fiz isso?"; "Não estou interessado" - até que, sem um clown que complete a dupla, o palhaço coloca o italiano no seu maior desafio: contracenar no picadeiro. Após correr o maior dos riscos, ele chega à conclusão que está na epígrafe. O diretor Jacques Rivette, um dos principais da chamada Nouvelle Vague francesa, movimento que renovou o cinema europeu na década de 1960 e, no caso de Rivette, continua a renovar (ele está com 83 anos!), mostra, com delicadeza, humor e ironia, que o picadeiro é o microcosmo das relações humanas e, nele, simbolicamente, é possível correr todos os riscos e... aprender a abrir os olhos! Vale pela sensibilidade, simplicidade e profundidade, três ingredientes que nem sempre o cinema consegue reunir numa só história...
A frase é do italiano Vittorio (Sergio Castelitto), do filme 36 Vous du Pic Saint-Loup, personagem que entra na vida de um pequeno circo que perambula pelo sul da França - mais precisamente próximo ao Monte Saint-Loup, em Languedoc - e acaba interferindo de forma direta nas vidas de Kate (Jane Birkin), filha do proprietário do circo, que se vê na iminência de assumir sua direção com a morte do pai; e a do palhaço da trupe. Deste, implica com uma entrada clássica, tenta aprimorá-la mesmo sob os protestos do palhaço - "Você sabe quantas vezes já fiz isso?"; "Não estou interessado" - até que, sem um clown que complete a dupla, o palhaço coloca o italiano no seu maior desafio: contracenar no picadeiro. Após correr o maior dos riscos, ele chega à conclusão que está na epígrafe. O diretor Jacques Rivette, um dos principais da chamada Nouvelle Vague francesa, movimento que renovou o cinema europeu na década de 1960 e, no caso de Rivette, continua a renovar (ele está com 83 anos!), mostra, com delicadeza, humor e ironia, que o picadeiro é o microcosmo das relações humanas e, nele, simbolicamente, é possível correr todos os riscos e... aprender a abrir os olhos! Vale pela sensibilidade, simplicidade e profundidade, três ingredientes que nem sempre o cinema consegue reunir numa só história...
quarta-feira, 13 de julho de 2011
O humor contemporâneo e grotesco de Piolin
O tema da minha pesquisa de pós-doutorado, as peças encenadas no Circo Piolin entre 1933 e 1961, período em que a lona esteve montada e preenchida pelo público, ávido pelas palhaçadas de Abelardo Pinto em seu período pós-Paissandu (quando este é considerado por muitos como o seu auge, quando atuou ao lado do clown Alcebíades Pereira e quando foi consagrado pelos intelectuais modernidtas, na década de 1920), foi esboçado num projeto apresentado à Fapesp em 2009, que o aprovou. A partir daí desenvolvo a pesquisa ao mesmo tempo que conduzo (junto com a Verônica Tamaoki) o projeto Entre risos e lágrimas - O teatro no circo (da pantomima aos dramas), uma parceria entre o Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Censura (NPCC) - Arquivo Miroel Silveira da ECA/USP com o Centro de Memória do Circo, da Secretaria Municipal de Cultura. Na verdade uma coisa faz parte de outra. Ou seja, a medida que avanço em minha pesquisa, o universo da palhaçaria se desvela a partir do projeto (saiba mais na aba circo-teatro). Bom, o projeto de pesquisa foi transformado em artigo que, recentemente foi publicado pela revista acadêmica Repertório Teatro & Dança, editada pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia. Aliás, o número 13 da publicação é dedicado integralmente às artes circenses. Além do meu artigo, chamado As farsas de Piolin: entre o grotesco e a contemporaneidade, a edição publica artigos de Daniela Pimenta, Ermínia Silva e Mário Bolognesi, pesquisadores dedicados ao universo circense que já publicaram em livro, além dos artigos de Marcos Francisco Nery Ferreira, Fabio Dal Gallo, Reginal do Carvalho, Paulo Merisio, Ana Lucia Marques Camargo Ferraz, além de um ensaio sobre a peça de circo-teatro Chico e o diabo, do palhaço negro Benjamim de Oliveira, de Eliene Benício Amâncio Costa. Acesse a edição eletrônica da revista Repertório, e, aqui leia um pequeno trecho do meu artigo:
“A contemporaneidade é uma das marcas da comédia de picadeiro. Seu humor é sempre contemporâneo, faz referência a fatos e temas atuais, usa jargões e gírias do momento. Apesar de fora do establishment, o excêntrico é atual, sabe que as suas referências serão conhecidas. Exemplo disso é a última peça encenada no Circo Piolin que aparece no Arquivo Miroel Silveira, de maio de 1958, assinada por Humberto Pelegrini: Piolin no planeta Marte. Em 1958, o tema das viagens espaciais estava em voga, especialmente por servir ao cinema americano para ilustrar a Guerra Fria. Filmes como O dia em que aterra parou (1951), O enigma de outro mundo (1951), A guerra dos mundos (1953), O mundo em perigo (1954), A invasão dos discos voadores (1956) e Planeta proibido (1956) deram sua contribuição ao imaginário popular da época.
Um ano antes da peça ser encenada, por exemplo, aUnião Soviética lançava a cadela Laika ao espaço depois do sucesso do satélite Sputnik. Na comédia, logo no início, uma dupla de cientistas busca um voluntário para enviar a Marte em troca de 500 mil cruzeiros, depois de ter enviado um macaco, uma cesta de gatos e duas dúzias de frangos. Fugindo da sogra, Piolin (ou Zé), bêbado, aceita seguir na viagem interplanetária. Ao chegar a Marte, é confundido com o rei do planeta pelo “lunático” (habitante da Lua) que vai desposar a fi lha do marciano; se aproveita da situação e acaba roubando-a no final. Mas é surpreendido pela sogra, que chega num outro foguete somente para desmascará-lo. A condição inicial do protagonista excêntrico é a estranheza, pois de início ele se coloca à mercê da cena, mas sempre cético em relação à situação. É por isso audacioso, pois não receia quebrar as regras, enfrentando o mundo a que julga não pertencer com ironia, humor e excentricidade. Sua resposta a qualquer situação estabelecida é sempre baseada no grotesco, comprometido que está em arrancar o riso da platéia. No caso da peça em que visita Marte, descrê da tecnologia e, assim, mantém um traço de Romantismo para resgatar uma ingenuidade atávica contra o “avassalador avanço técnico”. (...) É essa oscilação entre o contemporâneo (efêmero e atual, de onde extrai o humor) e o grotesco (condição do tipo excêntrico, que vive no limite entre o bom senso e o absurdo) que parece caracterizar Piolin em suas atuações. Algo que vai além de sua performance física e dos textos dramatúrgicos disponíveis para conhecimento e análise de sua obra encenada. Mas que pode ser analisado de forma científica a partir das Ciências da Comunicação.”
Um ano antes da peça ser encenada, por exemplo, aUnião Soviética lançava a cadela Laika ao espaço depois do sucesso do satélite Sputnik. Na comédia, logo no início, uma dupla de cientistas busca um voluntário para enviar a Marte em troca de 500 mil cruzeiros, depois de ter enviado um macaco, uma cesta de gatos e duas dúzias de frangos. Fugindo da sogra, Piolin (ou Zé), bêbado, aceita seguir na viagem interplanetária. Ao chegar a Marte, é confundido com o rei do planeta pelo “lunático” (habitante da Lua) que vai desposar a fi lha do marciano; se aproveita da situação e acaba roubando-a no final. Mas é surpreendido pela sogra, que chega num outro foguete somente para desmascará-lo. A condição inicial do protagonista excêntrico é a estranheza, pois de início ele se coloca à mercê da cena, mas sempre cético em relação à situação. É por isso audacioso, pois não receia quebrar as regras, enfrentando o mundo a que julga não pertencer com ironia, humor e excentricidade. Sua resposta a qualquer situação estabelecida é sempre baseada no grotesco, comprometido que está em arrancar o riso da platéia. No caso da peça em que visita Marte, descrê da tecnologia e, assim, mantém um traço de Romantismo para resgatar uma ingenuidade atávica contra o “avassalador avanço técnico”. (...) É essa oscilação entre o contemporâneo (efêmero e atual, de onde extrai o humor) e o grotesco (condição do tipo excêntrico, que vive no limite entre o bom senso e o absurdo) que parece caracterizar Piolin em suas atuações. Algo que vai além de sua performance física e dos textos dramatúrgicos disponíveis para conhecimento e análise de sua obra encenada. Mas que pode ser analisado de forma científica a partir das Ciências da Comunicação.”
segunda-feira, 20 de junho de 2011
A família Pereira e o circo no Brasil
O Circo Zoológico Universal foi um dos mais luxuosos e completos a percorrer o Brasil durante o século 19. Construído pelo português Albano Pereira, que chega ao país em 1871 com o Circo Irmãos Carlo, estreia em Porto Alegre, em 1876, um imenso pavilhão (foto), que trazia, além do picadeiro para os números equestres - tradição do circo europeu - um grande palco, onde eram encenadas as pantomimas. Com isso Pereira angariou a simpatia até da Corte, onde se apresentou ao Imperador, o que o consagrou plenamente. Até uma fatídica tarde de 1903, quando, com o circo instalado em RioNovo (MG), saudando o povo que entrava para mais uma função, uma bala perdida o atingiu. Com sua morte, a esposa Juanita Pereira, premiada internacionalmente por seu número no trapézio e conhecida por ter a menor cintura do mundo, reúne seus filhos e continua tocando o circo. Um deles, Alcebíades, se torna um clown branco, palhaço com vestes luxuosas, músico hábil e que irá estrear circo com seu nome em 1917, em Campinas. A lona chega a São Paulo, ou melhor, ao Largo do Paissandu, em 1925, onde cumpre conco
rrida temporada que se estrende até o final da década, com Alcebíades contracenando com nada menos que Piolin, consagrado como o melhor palhaço brasileiro - pela imprensa, pelos intelectiuais e pelo público -, embora tivesse sido Alcebíades o vencedor, em 1925, do consurso de cômicos Tarde da Criança, promovido no Teatro Municipal de São Paulo. Em 1929 Piolin parte para uma temporada no Rio de Janeiro e o Circo Alcebíades é desmontado, seguindo em direção ao interior. Lá, o grande clown passa a se apresentar com seu filho, Albano Pereira Neto, que atua com o nome de Fuzarca. O retorno a São Paulo e o encontro de Fuzarca com o filho de Chicharrão, da família dos Queirolo, constitui a famosa dupla que iria estrear antes de qualquer outro palhaço, seja Carequinha ou Arrelia, na televisão brasileira. Torresmo e Fuzarca (foto) animavam o Circo Bombril, na TV Tupi, de modo que o neto do seu Albano cumpria seu papel de conduzir a terceira geração circense da família no Brasil, atravessando os principais períodos da história do circo brasileiro: a partir do espetáculo equestre, agregando o palco para as encenações, a passagem pelo Largo do Paissandu e a chegada à TV. Enfim, a família Pereira foi protagonista da história do circo, embora poucos estudiosos dela se lembre quando analisam a história do circo não a partir das famílias que a compuseram, mas dos personagens que a marcaram. No caso dos Pereira, é impossível deixar de mencioná-los em qualquer dos dois casos.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
O circo mínimo de Maranhão
A sequência do post sobre Calder só poderia ser sobre o circo maquete de Mestre Maranhão, exposto na área de exposição do Centro de Memória do Circo, na Galeria Olido. Ao contrário de Calder, este circo não é um brinquedo, nem pretendo imitar o encanto circense. Trata-se de um verdadeiro circo, desenvolvido e montado da mesma forma que o de lona em escala real: amarrações, nós, ajustes, arrumação. Se algum dia o circo perecer de fato às demais manifestações culturais, especialmente as de massa - diga-se, de passagem, que o circo absorveu todas elas e se recria há mais de duzentos anos - é só ir até o Largo do Paissandu e copiar em escala maior o circo de Maranhão.
José Araújo de Oliveira, o Mestre Maranhão, se tornou artesão por influência do pai ourives. Após a morte deste, seguiu com o circo, onde foi saltador, aramista e ensaiador, aprendendo a arte da confecção dos equipamentos circenses. Atuou no Circo do Arrelia, na TV Record. Hoje com 80 anos, ensina os saberes circenses em diversas escolas. Pode não ter fãs do quilate daqueles que se sentavam no pequeno auditório do ateliê de Calder, mas angaria o respeito de diversos circenses e estudiosos brasileiros.
José Araújo de Oliveira, o Mestre Maranhão, se tornou artesão por influência do pai ourives. Após a morte deste, seguiu com o circo, onde foi saltador, aramista e ensaiador, aprendendo a arte da confecção dos equipamentos circenses. Atuou no Circo do Arrelia, na TV Record. Hoje com 80 anos, ensina os saberes circenses em diversas escolas. Pode não ter fãs do quilate daqueles que se sentavam no pequeno auditório do ateliê de Calder, mas angaria o respeito de diversos circenses e estudiosos brasileiros.
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