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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A lógica do refrão: o sucesso é como um colibri

Não é que me surpreendi com uma chamada do UOL, de um, digamos, articulista, cujo texto tinha o singelo título: "O que o 'Ai, se eu te pego' ensina à música sertaneja". O autor do texto, André Piunti, tem 27 anos e avisa, de início, que, aos que não estão acostumados com textos longos, ele facilitará com a marcação de alguns "tópicos". Bom, para resumir os quatro pontos levantados pelo jornalista: 1. Música sertaneja é comercial e precisa fazer sucesso; 2. O refrão de Michel Teló (me recuso a chamar de música) se tornou uma obsessão, pois todo artista busca o "bordão novo", que pegue; 3. É problemático a música sertaneja escapar ao público popular, embora as classes mais abastadas rendam mais; 4. Teló é o melhor exemplo de que o formato CD está no fim, pois para quê gravar vinte músicas se só se vai trabalhar três ou quatro faixas comercialmente?
Bom, parto do princípio de que a música dita "sertaneja" tem origem na música caipira, aquela produzida a partir de 1929, e que alcançou seu ápice na década de 1940. A partir daí, ela passa a agregar influências de gêneros importados, primeiro da guarânia e do corrido mexicano, depois do bolero, do rock da Jovem Guarda, até se tornar "sertaneja", ou seja, do agrado da grande classe média, que se expande e passa a responder pelo lucrativo mercado fonográfico. É quando explode a dupla Chitãozinho e Xororó. A fórmula, que perdura desde os anos 1980, foi se desgastando, e hoje o que se produz em nome do selo "sertanejo", nem "sertanejo" é mais. Mas vamos entender a lógica do articulista: 1. Música sertaneja é comercial e ponto. Tão lógico quanto crer que Caetano Veloso é comercial, Zeca Baleiro também, Luiz Gonzaga idem. O que não implica em crer que para ser comercial é preciso seguir alguma fórmula de sucesso, se é que elas existem. Muito menos crer que a simplificação musical seja a salvação. 2. Reduzir essa pretensa fórmula de sucesso a um "bordão novo" é comprar cegamente a "lógica" da indústria fonográfica, que é a de produzir industrialmente a música fácil, sem sentido, sem identidade, que se vale da repetição palatável, ou do chiclete musical, para ser mascado mecanicamente. Foi com essa "lógica" que a indústria fonográfica destruiu a música brasileira. Certa vez vi um representante dessa indústria dizendo que a pirataria estava destruindo a música brasileira. Eles foram mais efetivos. 3. Nesse ponto está, de fato, um dos maiores paradoxos da indústria fonográfica. O povão não compra CD, pelo menos o da gravadora, compra o pirata, baixa música, copia. Quem paga CD é a classe média alta. Mas para ser popular, é preciso produzir para um público que não vai pagar. Aliás, o "sertanejo universitário" já percebeu isso, tanto que só grava CD ao vivo, deixando de lado qualidade e estúdio, pois optou por dar ao público o mínimo para tentar emplacar seu "refrão novo". 4. O fim do CD. A argumentação do articulista parte de um fato inusitado: os antigos bolachões tinhas só duas músicas! Aí veio o LP, o CD e... para que gravar vinte músicas? Bom, creio que sua pouca idade o fez conviver pouco com o LP - ou quase nada - o que o impede de compreender qual a proposta comercial desse formato, bem diferente ao do CD, que embute a lógica da música de trabalho. No caso do LP havia a preocupação de se um conceito para o disco, trabalhar esse conceito e produzir algo redondo (não só fisicamente), ou seja, com uma proposta interna de discurso. Nesse sentido, valia desde os famosos discos do tipo "Tonico e Tinoco cantam José Fortuna", até um libelo como "Clube da Esquina", de Milton Nascimento, que trabalha a ideia de amigos músicos que se reúnem para celebrar a amizade e seu tempo. Enfim, concluo que a "contribuição" de Teló - aliás, ele é o que? "Sertanejo" não é; nem forrozeiro... - é a de  aprofundar a banalização da música brasileira, indo além do que a indústria fonográfica já fez. Vou me abster de concluir esse post por demais longo - e sem tópicos! credo! - para dar a palavra ao imprescindível Tião do Carro, em sua lucidez caipira:

"Então o poeta hoje em dia existe, quem faz uma letra mesmo aí com valor de rima, rima dobrada, rima trançada, ele passa despercebido. Hoje em dia a turma quer pular e marcar o refrãozinho. E só. E meio versinho e tá acabado. O sucesso também é assim: passageiro que nem um colibri..."

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Censura e tolerância

O Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Censura (NPCC) é uma iniciativa da ECA/USP apoiada pela Fapesp, e que tem o objetivo de promover pesquisas acadêmicas sobre as diversas formas de censura, essa prática que é tão antiga quanto o advento do Brasil como nação (ou antes disso). O núcleo surgiu de outro projeto de pesquisa, que tratou dos processos de censura do Arquivo Miroel Silveira, que abriga o acervo do antigo Departamento de Diversões Públicas, que se ocupou de cercear a produção artística a partir de critérios morais, políticos, religiosos e outros. Atualmente o NPCC quer compreender melhor as formas mais refinadas de censura - refinadas por se darem de forma tênue, não pesada, como ocorre nos regimes de exceção - como a financeira e a que todos assistem atualmente, que é o de uma mídia que decide "deixar de cobrir" determinado fato por julgar ser este fato distante dos seus interesses. O caso emblemático é o do livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., que se aproxima da casa dos 100 mil exemplares vendidos, embora a mídia tradicional trate o fenômeno como, no máximo, fruto do marketing viral da internet. Privataria Tucana toca num tema guardado pela mídia como um Santo Graal: as privatizações conduzidas pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. Nenhum órgão de imprensa se ocupou de ir atrás das denúncias feitas pelo livro. Nem que fosse para desmenti-las. Quando muito, publicaram notas desqualificando o autor, um jornalista detentor de dois prêmios Esso e quatro Vladimir Herzog. O que interessa aqui não é a defesa do autor, nem do teor das denúncias, pois essas deverão ser tratadas pelo Congresso e pelo Ministério Público, não por este pesquisador. O que venho tentando é divulgar opiniões que fazem uma reflexão sobre esse fenômeno de censura. Antes, porém de prosseguir, quero deixar claro que não creio num mundo maniqueísta, particularmente na política. Não há um embate entre times, azuis contra vermelhos, Garantido contra Caprichoso, "nós" contra "eles". O que tem se evidenciado nas discussões via internet é um viés mais social do que político: de uma classe contra outra ou vive-versa. Mas toda discussão suscita tolerância com a opinião do outro, ou seja, envolve o exercício da alteridade.
Compartilhei na rede social Facebook alguns artigos que discutiam o fenômeno do livro - que, aliás, a despeito do nome, não trata só do PSDB, trata também do PT e de seus erros políticos - e, numa das postagens, recebi, de imediato, um petardo de intolerância. O autor, talvez julgando-me um "petralha", como o jargão estereotipado gosta de rotular, ou "de algo pior", como o mesmo escreveu, veio distribuindo bordoadas: duvidou da minha boa informação (ou formação?), questionou uma certa ingenuidade, lastimou a minha "defesa" de pessoas que querem censurar a imprensa (???). Isso quando somente compartilhei o artigo de Ricardo Kotscho, postado via blog Brasilianas, de Luís Nassif. Enfim, dois blogueiros que destoam do silêncio orquestrado da grande mídia. E a distinção é só essa. No entanto, o fato, simples e isolado, deu ao meu dileto crítico o direito de me acusar. Respondi que respeitava a opinião alheia, mas não agredia quem discordasse de mim. Sua contra-resposta foi mais virulenta ainda. Perguntou-me, ao final, se, "como Luís Nassif", eu também recebia dinheiro do governo. De fato recebo. Todos que leem e acompanham meu blog sabem que sou pesquisador, pós-doutorando bolsista pela Fapesp. Mas não mantenho minhas atividades na internet para defender esse ou aquele partido político. Nem para construir argumentos baseados na beligerância que move o embate entre partidários. Aliás, dileto crítico, partidos políticos não se constroem somente pelas vias políticas da democracia, se constroem também pela argumentação e defesa apaixonada de visões políticas.
O meu papel é suscitar a discussão. Mas uma discussão construtiva, civilizada. Pois só assim conseguiremos entender melhor esses tempos de transição por que passa o nosso jornalismo. (A imagem que ilustra o post, para dar um pouco de humor à discussão e para não escapar à essência do blog, que é a cultura popular, traz o personagem nordestino símbolo da intolerãncia, Seu Lunga. Vamos deixar de praticar o "lunguismo" nas redes sociais!)

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O duplo desafio do cômico


Na semana passada o jornal Valor publicou um artigo do professor e filósofo Renato Janine Ribeiro em que discutia o humor, esse tema tão polemizado a patir de algumas frases preconceituosas de um dito humorista brasileiro. Na verdade Janine pegava carona nesse tema para falar de censura. Segue trecho em que imbrica os dois temas:

"Eu concordo, contra a censura. Contudo, não é um triste sinal dos tempos que hoje, quando se elogia a liberdade de expressão, seja para tolerar o discurso vulgar, preconceituoso, que rebaixa o nível do convívio social - e não mais para criticar o que existe de errado, apresentar utopias, fazer a razão sonhar?"

E conclui: "Mas o que me entristece é ver que hoje se valoriza cada vez mais o vulgar, o reles. Anos atrás, esperávamos que a liberdade gerasse o bom e o ótimo. Agora, parece que o reles é a essência da liberdade, seu produto mais constante, talvez mais importante. Só posso dizer que lastimo esse estado de coisas."

A partir dessa reflexão - da qual corrobora o historiador George Minois, autor de História do Riso e do Escárnio -, pelo menos no sentido da perda de referências para o humor e as motivações justificáveis para o riso, chegamos a outro nível de reflexão. Muitos estudiosos estão concluindo que o que justifica o riso é a sociabilidade. Ou seja, se ri porque se ri junto. Bom, se considerarmos essas duas questões: o riso se justifica na sociabilidade mas o humor está perdendo suas referências, inclusive contrapondo estratos sociais em nome do preconceito, então há um desafio a ser vencido por aquele que se alista entre os humoristas atuais: além de encontrar as referências do fazer rir, é preciso promover a volta da sociabilidade. Ou seja, os tempos atuais requer um profissional comprometido socialmente. Será que encontraremos isso no formato que mais se expande nos meios de entretenimento brasileiros, o stand up? Acompanhemos.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Sobre a graça e sobre o stand up

Revendo as entradas de Bacalhau, Romiseta, Condorito e Corchito e de Reco Reco, encenadas no Projeto Entre risos e lágrimas, percebo o quanto é notável a capacidade de todos eles lidarem com maestria com os imprevistos em situações que, na leitura que fazem, acabam virando execelentes oportunidades de fazer mais humor do que o esperado. É o típico humor de circo. Funcionaria em outro meio? Talvez. Penso, por exemplo, em Casseta & Planeta. Na década de 1980, gostava - e ria bastante - com as paródias escritas do Planeta Diário num tempo em que o humor político perdia terreno para a novidade, e que parecia se dedicar a desnudar não só o rei mas todas as instituições. Não foi esse humor que migrou para a televisão. Naquela época havia também um grupo de jornalistas de São Paulo que decidiu usar o mesmo subterfúgio no jornalismo: havia um repórter, Ernesto Varela, que tinha a cara de pau de perguntar a Paulo Maluf se ele era mesmo ladrão, desconcertando-o. Era um personagem de Marcelo Tas. Hoje o humor do seu programa, como acusou no ano passado a atriz cômica Vic Militello, se baseia no desrespeito, ou algo bem próximo a isso. Claro, ela se refere à forma como os repórteres ridicularizam profissionais e artistas sem levar em conta sua contribuição à própria televisão. Já o Pânico, que veio do rádio, usa como recurso de humor algo que eu e meu pai fazíamos também na década de 1980 quando íamos a festas de casamento: reconhecer famosos na fisionomia de anônimos... Brincadeira pueril que virou recurso de humor na TV... Por fim, há uma praga nacional chamada comédia stand up, importada de um país que não prima lá muito pelo humor, os Estados Unidos, e que usa temas os mais banais, típicos de uma conversa entre adolescentes que descobrem os lugares comuns da vida. Outro dia, um pesquisador de humor afirmou: "Todo esse humor do stand up já era feito na época do rádio". Ao que respondi: "E ainda faziam sentados!" Volto, enfim, a esses palhaços que, com mais de sessenta, setenta, oitenta anos, fazem um humor físico e verbal, usam objetos banais para provocar e fazer desatar o riso mais irracional de todos, sem se preocupar se irá soar "correto" ou "incorreto". Não para parecer subversivo, transgressor, mas porque esses parâmetros de fato não importam. Talvez, por isso mesmo, sejam de fato subversivos, como defende o bufão Leo Bassi (na foto). Um humor, enfim, que não almeja sofisticação. E, por isso, não depende de nada para arrancar o deleite da gargalhada.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A Copa e a cultura das ruas


Leio artigo de Paulo Miguez, da Universidade Federal da Bahia, em que reflete sobre a pressão exercida pela toda poderosa Fifa, organizadora da Copa do Mundo de Futebol, para que as cidades sede dos jogos controlem a chamada cultura das ruas. Isso parte de um preconceito generalizado, que atinge não só os mandantes de cartola do futebol, mas a própria política brasileira: a de que as ruas vivem evidenciando sinais de "pobreza". Aliás, se trata de uma triste tradição brasileira. A principal festa popular do Império, por exemplo, a Folia do Divino, que aconteceu no Campo de Santana, na capital federal (Rio de Janeiro) por décadas, e que reunia grupos de folias e congadas para celebrar o Divino Espírito Santo - prática a princípio endossada pela Coroa, especialmente por se tratar também de um "Império" e ter à frente da procissão uma coroa - foi com o tempo sendo coibida por leis que proibiam a venda de produtos, a montagem de barracas da tradicional feira (onde floresceu um importante teatro popular de bonecos) até que, antes do início da República, os festejos foram empurrados para o distante bairro da Penha. Logo teria início a política do "bota abaixo", com a destruição dos cortiços na região central da cidade para a construção de boulevares ao estilo parisiense. Por conta disso, a população pobre, em sua maior parte negra, acabou se transferindo para o morro da Favela, o que criou o nome genérico para as habitações dependuradas nos morros. Recentemente tivemos outra mostra dessa visão elitista e enviesada, quando a associação de moradores do bairro de Higienópolis se empertigou com os planos da companhia do Metrô em construir uma estação no bairro, o que acabou gerando um movimento bem original, batizado de "Churrasquinho diferenciado", organizado por meio das redes sociais virtuais e contra a resistência de alguns moradores do bairro ante a diversidade.
Pois bem, a Fifa parece que quer uma reação dos governos municipais e estaduais para evitar o tradicional churrasquinho de gato, ou os vendedores de vuvuzelas (nossa! será que ainda teremos isso nessa Copa?), os sorveteiros, baleiros, baianas do acarajé, etc. Sucumbiremos mais uma vez ao poder devastador exercido em nome da "globalização" recolhendo envergonhados a nossa cultura popular? 

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O dom de ver e ouvir

Duas aulas na semana passada - ensinando é que se aprende, não é? - me trouxeram a reflexão do quanto estamos sendo intoxicados com imagens e sons. Na quarta, o convidado Ivan Vilela, violeiro de primorosa estirpe, suscita a reflexão sobre como estamos transformando a música num ruído do cotidiano. Ouve-se música em todo lugar, no elevador, no dentista, no restaurante, no camelô... Poucas vezes arrumamos tempo para "ouvir" música sem fragmentá-la. Leio também um post no blog do Nassif em que um colaborador suplica aos compositores e cantores (e cantoras) da cambaleante MPB que tomem jeito e sintam vergonha de usar tantos clichês nas suas letras e nas suas melodias, que voltem a criar histórias. Talvez esses clichês ajudem a tornar essa música o ruído cotidiano, pois facilitam a audição banal, sem reflexão. Na quinta, então, após a exibição do ótimo documentário Janela da alma, de João Jardim e Walter Carvalho, a sensação de que as imagens também estão nos saturando a alma, fica clara nos depoimentos de Wim Wenders - que, aliás, tem feito disso sua bandeira criativa nas duas últimas décadas, parecendo muitas vezes até bem ortodoxo com relação às imagens que devem de fato ser vistas pelo espectador - e de José Saramago. Culpa da Internet? Bom, deixemos, de cara, de procurarmos culpados do lado de fora. A atitude de ver e de ouvir, e de criar discernimento sobre o que vale a pena ver e ouvir, é só nossa. Senão, como surgiu na discussão em sala de aula, vamos acabar confundindo a parede da caverna em que as sombras se projetam com a luz que emana de fora da caverna, não é seu Platão?

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Entre o riso e a lágrima há apenas o nariz

A frase - sensacional, diga-se - é de Millôr Fernandes e foi reproduzida durante o Seminário Travessias, que aconteceu na ECA/USP na quinta passada, pelo pesquisador Elias Thomé Saliba. Achei-a simpática de cara (sem trocadilhos infames, por favor...) pela semelhança que tem com o nome do projeto dedicado a estudar a dramaturgia circense, parceria entre o Centro de Memória do Circo e a ECA/USP: "Entre risos e lágrimas - O teatro no circo (da pantomima aos dramas)". O mais bacana ainda é que temos trabalhado com a dramaticidade do palhaço. Acontece que, na segunda parte do espetáculo, geralmente é o palhaço quem desempenha os papéis dramáticos e, nesse caso, literalmente, o que distingue o riso da lágrima é o nariz.
Outra questão discutida no citado seminário, que contou também com a presença de pesquisadores portugueses da Universidade de Coimbra, foi a sociabilidade suscitada pelo riso. Diversas pesquisas têm apontado que o real fundamento do riso é a sociabilidade, ou seja, as pessoas gostam de rir em conjunto, em família, entre amigos e entre pares próximos. Assim, rir é parte do relacionar-se, não uma atividade meramente inata e biológica, mas algo que transcende a individualidade para atuar na sociabilidade. Para concluir da mesma forma que comecei, e fazendo desse post uma justa homenagem ao "Guru do Méier", outra grande citação: "O homem é o único animal que ri, e rindo ele demonstra o animal que é".

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A língua que se fala

Os leitores do blog já perceberam que não gosto muito de entrar de cabeça nas pautas inventadas pela imprensa para preencher seu espaço e o tempo dos leitores, embora sempre use-as como pretexto para dar a minha opinião. Hoje recorro à falsa polêmica - digo falsa porque turbinada pelas redações e sobre argumentos os mais vazios - sobre o livro que faz o aluno desaprender a "escrever direito" porque considera a língua falada. Na verdade, esclarece-se - o que deveria ter sido feito na "reportagem" que gerou a tal polêmica - que o livro Por uma vida melhor, distribuído pelo Misnistério da Educação e acusado de seguir a "norma inculta" orienta-se por uma diretriz do mesmo órgão, a de não desprezar a fala popular.
Coincidentemente estou lendo A imprensa carnavalesca no Brasil - Um panorama da linguagem cômica, que José Ramos Tinhorão concebeu com exemplar erudição (às vezes até exacerbada). O tema é o mesmo: como a escrita erudita, séria, se contaminou com o humor e rendeu a escrita macarrônica. Meu interesse é a fala do palhaço, claro. Afinal, sua graça não está somente na sua máscara pintada nem só no seu genial jogo de corpo. O humor do palhaço é físico, claro, o que inclui também a voz e a linguagem. Essa "contaminação" entre erudito e popular, sério e engraçado, começou dentro da própria Igreja, em plena Idade Média (bem que Umberto Eco já havia dito que este foi um período muito mais de luz do que de trevas). Obra do baixo clero, a incorporação de anedotas pagãs em textos sagrados acabou, no decorrer dos séculos, tornando a escrita laica e promovendo o surgimento de uma língua de leigos. Discursos desconexos, imitando erudição - chamados de "pantagruélicos", em referência ao livro de Rabelais, Pantagruel - foi tradição no Brasil tanto entre intelectuais do período romântico (muitos autores escreveram versos cômicos mas não tiveram coragem de publicá-los) como entre os palhaços do início do século XX. Piolin dominou bem esse tipo de humor verbal. A teatralidade nacional, em especial a vinculada à tradição cômica, soube trabalhar e empregar as técnicas da linguagem falada para criar um tipo de humor que revela a mistura de sotaques estrangeiros (português, italiano, alemão, japonês...), a troça dos sotaques regionais (cito sempre Cornélio Pires), a imitação e a paródia dos falares, etc. Enfim, com rico material disponível e gratuito pode-se criar um delicioso humor cotidiano. Pena, insisto novamente, pois já tratei disso num post da semana passada, que na onda dos "estandapes", além do gênero ter caído na grosseria e no insulto, a graça da linguagem falada foi a primeira a ser deixada de lado. O escritor Cristóvão Tezza disse num debate de televisão que a diferença entre a língua oficial e o dialeto é que a primeira tem Exército. Tem imprensa também. Mas se nem a Igreja em plena Idade Média conseguiu calar o baixo clero...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Churrasco de "gente diferenciada" vira negociação simbólica

A classe C leva referencial cultural das classes D e E para classe A e B. Sopa de letras? Não, churrasco. Assim foi na esquina da avenida Angélica com a rua Sergipe neste final de semana. Instada por uma infeliz declaração de um morador do bairro ao jornal Folha de S. Paulo, a classe C, que cresce com a chegada de recém-egressos das classes D e E, se mobilizou e promoveu um dos mais divertidos embates culturais desse novo século em São Paulo.
Os moradores de Higienópolis não querem estação de metrô no bairro para não atrair "gente diferenciada"? Então vamos fazer fumaça, tocar pagode e beber refrigerante popular - aqui um átimo de oportinismo de um fabricante que viu no evento uma forma de ganhar visibilidade comercial. Confronto social? Luta de classes, como alguns analistas quiseram ver? Não, negociação simbólica. Quem diria que veríamos isso às claras, em plena luz do dia, e não somente no âmbito das ideias? Pois é, e em pleno século da virtualidade. Vivemos tempos interessantes em termos de negociação simbólica. Claro que não se trata de uma negociação amigável, como as comerciais, mas uma negociação de sentidos, de modo que os que conquistam hegemonia se destacam. Como vem acontecendo com os referenciais culturais da classe C. Semana passada mesmo, um diretor da Rede Globo dava entrevista contando que a emissora ajusta sua programação para substituir o velho recurso do pobre que vira rico das novelas e seriados, por personagens genuinamente de classe média.
Difícil imaginar que Higienópolis abrigue uma pequena "massa" homogênea e compacta que apoie incondicionalmente a mesma opinião do morador, um bairro em que convivem paulistanos da chamada elite - suas terras foram ocupadas inicalmente pelos barões do café e depois por vários empresários, das mais variadas origens -, a comunidade judia, e um significativo contingente de empregados e prestadores de serviços que vivem nos bairros periféricos mas que se deslocam diariamente a Higienópolis, o que justificaria, para alguns analistas, a instalação da estação de metrô. Interessante que o bairro começou a se desenvolver na virada do século 20 a partir da instalação da linha de bonde elétricos que passava na rua Maranhão - não me lembro de ter lido isso nas várias análises que li sobre o embate pela linha de metrô. Há quem defenda formas de evitar essa "gente diferenciada" e os que não veem motivo para isso. Aliás, as relações sociais não são tão simplistas como querem os comentaristas dos sites de notícia.
Embora tudo tenha servido de pretexto para o churrasco da "gente diferenciada", o que ficou mais evidente foi a esquina ter virado uma arena de negociação simbólica: do churrasco participaram até os judeus. Tudo pacificamente. Para surpresa dos juízes de plantão, sempre em busca de bodes expiatórios, e dos analistas anti-marxistas. E, enfim, para o fausto pantagruélico dos processos culturais.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Big Brother mental

O título deste post foi descaradamente copiado do título da canção que faz parte da improvável e bem-sucedida parceria entre o violeiro brasiliense Roberto Corrêa e o rabequeiro pernambucano Siba (Violas de bronze, 2009). O mais bacana dessa experiência foi o casamento de sotaques: da viola do planalto central e da rabeca e da viola dinâmica que ampararam a experiência multimusical do grupo Mestre Ambrósio. Bom, o pretexto para usar o título da canção é uma reflexão que vem me atormentando esta semana sobre a internet e este blog. Como os visitantes do blog já perceberam, como pesquisador acredito que pesquisa acadêmica é coisa para ser dividida com todos, pois não há sentido em achar que se trata de algo pessoal. O motivo é bem simples: ninguém faz pesquisa sozinho, por isso há agências de fomento à pesquisa, há orientadores, há a comunidade científica, a tradição acadêmica, as bibliografias etc. e tal. Durante muito anos esse conhecimento se encastelou nas lides acadêmicas e lá permaneceu, semi-oculta (semi porque pôde ser acessada pelos pesquisadores) e hoje a grande discussão que surge na sociedade permeada pelo paradigma instrumental é questionar acirradamente a academia, inclusive acusando-a injustamente de ser somente teórica e - lógico! - pouco instrumental. A melhor resposta, ao meu ver, é dar acesso a todos a esse conhecimento, abrindo mão dos floreios egocêntricos do pesquisador e entendendo que este deve ser, na realidade, disseminador do conhecimento para a sociedade. Por isso a minha satisfação em desenvolver um pós-doutorado a partir de uma parceria com o Centro de Memória do Circo, um órgão vinculado ao Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura da cidade de São Paulo. Trata-se de pesquisa acadêmica com interface imediata com a sociedade. Essa é a primeira questão. A outra é o uso da internet que, em sua origem, representa um enorme avanço em termos de liberdade para a disseminação do conhecimento. Que o diga o cidadão John Perry Barlow, letrista do grupo de rock dos anos 70 Grateful Dead e autor da Declaração de Independência do Ciberespaço. Ele defende desde o início ser a liberdade de informação o grande papel da internet. Sim, há também o senhor Bill Gates que vê a rede como um imenso pote de ouro brilhando no fim do arco-íris, cornucópia sem fim do grande capital. Mas isso é outra questão; vamos ficar com a vertente original. E aí entra o uso de ferramentas como o blog para estimular o debate em torno do conhecimento (o que também gera mais conhecimento) - no meu caso específico, sobre as imbricações entre a cultura popular, a cultura erudita e a cultura de massa. Big Brother mental? Sim. E sem precisar instalar um chip em meu quengo.




Big Brother mental
(Siba e Roberto Corrêa)

Desde que aprendi a ler
Que me tornei curioso
Inquieto e buliçoso
Tudo eu queria saber
Procurei tanto aprender
Que findei desaprendendo
Por mais que eu viva querendo
Não acho a sabedoria
E o pouco que eu sabia
Agora estou me esquecendo
 
Aprendi a letra "A"
Pensando na letra "Z"
E no final do ABC
Misturei o bê-a-bá
Fiquei pra lá e pra cá
E a confusão me devora
Me atrapalho a toda hora
Pergunto a todo momento
Será que meu pensamento
Vem de mim mesmo ou de fora?

No museu abandonado
Minha memória se esconde
Guardando não sei aonde
Tudo que eu fiz no passado
E o meu cérebro lotado de TV e de internet
Está clicando delete
Para apagar os arquivos
Que guardam os quadros mais vivos
Do meu tempo de pivete

A lembrança está miuda
E a razão se atrapalha
Meu cérebro se embaralha
Não encontrei quem me acuda
Podendo eu pedir ajuda
Pra algum médico do Sudeste
Que faça uma pesquisa ou teste
Em macaco ou mamulengo
Instale um chip em meu quengo
Pra ver se eu penso o que preste

Pra eu pensar mais aplumado
Quero um computador
Com um bom processador
Na minha testa instalado
E um modem parafusado
Na coluna vertebral
No espaço virtual
Vou botar tudo que eu penso
Quem sabe um dia ainda venço
Um big brother mental

segunda-feira, 14 de março de 2011

Sobre caipirices e brunas surfistinhas

Querido Danilo Okamoto, demorei umas boas semanas, incluindo o Carnaval para responder o seu artigo desabafo condenando o filme Bruna Surfistinha, que estreou no último dia 25 de fevereiro e que no dia 9 de março já havia angariado 1 milhão de pagantes, o que soma uma arrecadação de R$ 9 milhões. Por mais incrível que pareça, se trata de adaptação de um livro, de autoria da ex-garota de programa Raquel Pacheco, O doce veneno do escorpião. Não precisei ler o livro e muito menos ver o filme para saber a saga completa da moça, pois a mídia se incumbiu de me informar antes. Compreendo a sua revolta, expressa no artigo em que cita o conceito de indústria cultural de Adorno e Horkkeimer, filósofos da chamada Escola de Frankfurt, ou escola crítica. Argumenta: “Esta mulher só teve espaço na televisão aberta quando escreveu seu livro porque traz consigo o tabu do sexo, e a mídia usada por ela (editora de livros, emissora de televisão) precisa desse tipo de conteúdo alienante para se sustentar.” Devo alertar que sexo e violência sustentam muito a audiência de diversas manifestações da mídia não por serem característicos à indústria cultural, mas por suscitarem dilemas na natureza humana, explorados de maneira rentável pela mídia. Sem cair no julgamento moral da história e da estória, prefiro usar o conceito de cultura de massa para complementar a sua análise. O motivo é simples: em se tratando de indústria cultural, pressupõem-se um papel nulo do chamado receptor, sendo meramente manipulado pelos meios de comunicação. Claro que não seria ingênuo de defender que não há manipulação. Mas compreendo o processo cultural como sendo uma arena de negociação simbólica. Ou seja, apresentam-se produtos culturais que recebem ou não a adesão do público. No caso do filme, houve adesão de pelo menos 1 milhão. É o processo de hegemonia, no sentido dado por Gramsci. Jesús Martín-Barbero acredita que, nesse processo, há certas brechas. Ou seja, a cultura popular, por exemplo, pode emergir da cultura de massa, desde que certos aspectos referentes a ela se tornem hegemônicos. Defende você que o Ministério da Cultura invista num produto que tenha Cornélio Pires ou Tonico e Tinoco como tema. Serei o primeiro na fila se isso se concretizasse. Mas ressalvo que a “lógica” da cultura de massa, que alia hegemonia e poder, trabalharia ao jeito dela esse produto. Veja, por exemplo, o filme 2 Filhos de Francisco. Certo, o tema vem da cultura de massa, a música sertaneja (que difere bastante da música caipira, como bem sabe). Mas o filme teve de falar do campo simbólico em que formou essa música. Quem estava na trilha do filme? Tristeza do Jeca, do genial Angelino de Oliveira, grande hino caipira! Mas... interpretado por... Maria Bethânia e Caetano Veloso!!! Este último, aliás, sintetiza o esforço musical em mediar cultura popular e de massa (que os americanos chamam de cultura pop). Aviso que há formas mais claras de não só criticar a mídia, mas de abrir brechas no seu discurso. Os nossos amigos violeiros do Caipirapuru, são um belo exemplo. Não gostam de chamar seu movimento de “resistência cultural”? Mas o que fazem senão resistir ao discurso da mídia, respondendo com criatividade e farta base cultural ao mesmo tempo que usam os meios dessa mídia? Quanto ao debate crítico, aqui estamos, na blogosfera, disseminando essa nossa discussão da qual todos estão convidados a participar...
Em tempo: Tonico e Tinoco produziram, do próprio bolso, alguns filmes nas décadas de 1960 e 1970: Lá no meu sertão (1961), Obrigado a matar (1965), A marca da ferradura (1969), Os três justiceiros (1971), Luar do Sertão (1972). Apesar da insistência, não obtiveram público suficiente para que alcançassem ao menos o retorno do investimento. Perderam muito dinheiro, o que abalou as finanças da dupla pelo resto de suas vidas.