Puxa vida, já é quinta e ainda não consegui postar o compositor apresentado no domingo passado no programa de Danilo Darós na rádio Planalto! E justo ele, o compositor dos compositores do gênero caipira, João Pacífico! Quando tomei a decisão de escrever a história da música caipira, em 1998, e contar como ela foi se transformar na chamada música "sertaneja" a partir da incorporação de influências musicais de gêneros estrangeiros (guarânia, rancheira, country, etc.), decidi começar por João Pacífico, o compositor de Cabocla Tereza, que tanto ouvi durante a minha infância, especialmente com a declamação dos versos iniciais pelo meu pai. Soube que havia um depoimento no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo e para lá fui. Passei uma agradável tarde ouvindo as histórias do compositor nascido em Cordeirópolis - "se chamava Cordeiro, pois lá havia um homem que fazia cordas; depois mudaram o nome para Cordeirópolis", conta - a temporada em que trabalhou nos vagões da Sorocabana como "ajudante de lava-pratos", onde, aliás, conheceu o porta modernista Guilherme de Almeida, que o recomendou a Paraguassu. Ao chegar à rádio Cruzeiro do Sul não encontrou o seresteiro, mas topou com Raul Torres, a quem ofereceu uma embolada de sua autoria. Começou aí uma parceria que se estendeu por longos anos, ponteada de sucessos, entre eles as toadas históricas Chico Mulato e Cabocla Tereza, além de Pingo d´Água, que lhe rendeu o Disco de Ouro, e Mourão da Porteira, todas elas reproduzidas no programa de Danilo Darós. Mourão da Porteira era a preferida de Guilherme de Almeida, que ressaltava a apurada poética de Pacífico ao usar uma metáfora tão simples e tão profunda... Ao final da tarde, envolto pela dicção do compositor, aliás, um esplêndido recitador de seus próprios versos, saí do MIS decidido a aprofundar a pesquisa e, especialmente, em ir até Guararema ouvir o próprio João Pacífico, que lá vivia. Qual não foi minha surpresa quando, dois ou três dias depois, recebo o e-mail do crítico teatral Valmir Santos me contando que Pacífico não mais estava entre nós... Mesmo assim, sua voz percute em todas as páginas do livro Moda Inviolada - Uma história da música caipira. Para reencontrar essa voz, a seguir o próprio, com Adauto Santos. cantando o Chico Mulato. E depois Tonico e Tinoco interpretando o compositor. Na próxima semana tem mais João Pacífico, dessa vez cantando suas modas e toadas no período posterior à dupla Raul Torres e Florêncio (este último, vale ressaltar, foi quem fez a maior parte dos arranjos das composições de Pacífico gravadas pela dupla).
Comecei ontem a série "Momento do compositor", na Rádio Comunitária Planalto FM (Rio Grande do Sul), dentro do programa Terra Brasil, apresentado pelo meu amigo Danilo Darós (Okamoto), grande apreciador da música caipira, onde fazemos um bate-papo sobre os grandes compositores do gênero. Neste primeiro programa dedicamos 20 minutos ao compositor Goiá (Gerson Coutinho da Silva), autor de um dos maiores clássicos caipira, Saudade da minha terra ( "De que me adianta viver na cidade, se a felicidade não me acompanhar..."). Goiá, que recentemente foi objeto de pesquisa acadêmica defendida por Diogo de Souza Brito na Universidade Federal de Uberlândia, popularizou sua cidade natal, Coromandel, em Minas Gerais, ao torná-la tema de várias de suas composições. Apesar de ter morrido cedo, aos 46 anos, deixou 311 composições, a maior parte delas registradas pelas mais importantes duplas caipiras das décadas de 1950/1960: Zilo e Zalo, Nenete e Dorinho, Vieira e Vieirinha, Palmeira e Biá, Pedro Bento e Zé da Estrada, Tibagi e Miltinho e as Irmãs Castro. Mas porque um cidadão mineiro adotou como pseudônimo o nome de outro Estado? Porque foi lá, em Goiânia, que começou a carreira, formando dupla com Micuim. Ainda não usava o nome que o consagraria como compositor, era Rouxinol. A dupla chegou a gravar dois discos em 78 rotações e se apresentou em diversas rádios goianas. Ao saber que uma antiga namorada dos tempos de Coromandel havia se mudado para São Paulo, não teve dúvidas, abandonou o parceiro e veio para a capital paulista. O caso é que dois irmãos de Ilda, a moça de Minas, estavam fazendo certo sucesso: Biá e Biazinho. Biá se consagraria logo depois ao lado de Palmeira, emplacando o sucesso Boneca cobiçada, canção que mudaria o nome do gênero até então conhecido por caipira para "sertanejo". Biá, diretor artístico da gravadora Chantecler, apostou no cunhado - Goiá se casou com Ilda - mas este fez carreira mesmo como compositor. Voltou a Coromandel 14 anos após ter saído para tentar a carreira artística e foi recepcionado calorosamente por amigos comerciantes que fizeram questão de patrocinar os dois discos em que registrou suas composições com sua voz. Durante o programa, Danilo Darós selecionou três músicas do compositor: Campos amados de Coromandel (com Sérgio Reis), Canção do meu regresso (com o próprio Goiá) e Saudade da minha terra (com a Orquestra Paulistana de Viola Caipira). Aqui, o próprio Goiá interpreta seu maior sucesso, fazendo ele mesmo as duas vozes.