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sexta-feira, 29 de junho de 2012
O adeus do Circo Piolin
No início de 1962 o Circo Piolin, que estava "solidamente armado" na avenida General Olímpio da Silveira, na Barra Funda, desde 1949, portanto há 12 anos, foi despejado do terreno que pertencia ao antigo IAPC, instituto de previdência. O terreno permaneceu vazio por décadas e Piolin amargou uma aposentadoria prévia inesperada. Jamais se recuperou da perda. Mesmo quando, em 1972, Pietro Maria Bardi o chamou para montar seu circo no vão do MASP, nas comemorações dos 50 anos da Semana de Arte Moderna, e foi novamente reverenciado pelo público, pelos intelectuais e pela classe artística, nas entrevistas que deu não escondeu sua amargura. Vivia, então, no trailer que fora seu, deslocado para um terreno vazio da rua Cajati, na Freguesia do Ó. Neste registro, o circo sendo desmontado e Piolin, triste, falando ao repórter da TV Tupi, embora só tenha restado a imagem.
domingo, 6 de maio de 2012
Somente para palhaços
terça-feira, 3 de abril de 2012
Urbanidades: Mixórdia no picadeiro
Postei aqui somente o primeiro bloco do programa Urbanidades, da UniSantos, quando este foi ao ar. Agora, aqui estão os três blocos completos, comigo e com o meu amigo Bacalhau (Odair Casarin), apresentação de César Bargo e Cláudio José dos Santos.
terça-feira, 27 de março de 2012
O pesquisador, vítima das diatribes de Piolin
Há dois anos tento entender a vida artística de uma figura que hoje poucas pessoas lembra ou reconhecem: o palhaço Piolin. Quando o escolhi como objeto de uma pesquisa acadêmica de pós-doutorado, em 2010, quase uma sequência do doutorado, em que abordei o universo do circo em São Paulo e no Brasil, havia para mim um vasto universo a ser desvendado a partir de 450 peças presentes no Arquivo Miroel Silveira, da ECA/USP, que levavam a rubrica do Circo Piolin, que esteve em atividade de 1933 a 1961 na capital. Dessas 450, 90 levavam a assinatura do palhaço como autor, o que me dava a oportunidade de pesquisar a sua contribuição autoral à cena paulista. Como toda pesquisa, o que parecia evidente não era tanto assim. Logo de partida três opiniões de peso objetavam o que para mim parecia óbvio. A primeira dessas opiniões era de Miroel Silveira, o patrono do arquivo que era a base da minha pesquisa. Aliás, vale aqui relembrar, foi esse professor - também autor, diretor, tradutor, ator - que conseguiu resguardar os mais de 6 mil processos de censura do antigo Departanento de Diversões Públicas do Estado de São Paulo, que procedeu à censura teatral do final da década de 1920 até 1968 quando, então, a censura se tornou federal, após o famigerado AI-5. Miroel conhecia o arquivo, pois o usou como fonte para a sua pesquisa de doutorado, sobre a presença italiana no teatro brasileiro. Com o fim da censura, a partir da promulgação da Constituição de 1988, soube que o arquivo seria incinerado e o levou para a ECA/USP. Pois bem, na sua tese dizia, com todas as letras, que a obra de Piolin era repetitiva e não alcançava "páramos de criatividade", não valendo a pena ser estudada. Mas isso não era tudo. Um artigo de Paulo Emílio Salles Gomes, intelectual da revista Clima, intitulado "Vontade de crônica sobre o Circo Piolin, solidamente armado na Praça Marechal Deodoro", o aviso inicial era desolador: "Não adianta conversar Piolin com quem não viu Piolin". Ou seja, sua arte estava na presença do palhaço, não na sua escrita dramatúrgica. Por último, a estocada final vinha do próprio Abelardo Pinto Piolin. Numa entrevista dada ao Museu da Imagem e do Som de São Paulo em 1971, disse à cineasta Suzana Amaral, que havia acabado de filmar Sua Majestade Piolin, um curta-metragem sobre o palhaço, quando perguntado se escrevia suas peças. "Adaptava. Arranjos eu fazia." Assim, essas três opiniões esvaziaram o meu objeto de pesquisa! Mas não inviabilizou o meu esforço futuro, que concentraria a pesquisa na compreensão da dramaticidade do palhaço, na sua presença no picadeiro - emprestando a memória de quem o viu atuar - e entendendo de que forma seu circo, por quase três décadas, foi a referência popular de um público fiel. Pelos bailes que levei de Piolin nesses dois anos, e por ter a oportunidade de ver além do óbvio, saúdo o palhaço neste 27 de março, data de seu natalício e que foi escolhida para comemorar o Dia do Circo. Como diria Piolin em situação de claro embaraço nas incontáveis cenas que protagonizou em seu circo: "Iiiiiiiiiiiiii!!!"
segunda-feira, 12 de março de 2012
Os palhaços de Salomão
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| Fred (à esquerda), com Carequinha |
terça-feira, 6 de março de 2012
O caçador, com a Cia. Reprises!
O grupo Cia. Reprises nasceu no curso de palhaços do Doutores da Alegria e participou da primeira versão do projeto "Entre risos e lágrimas - O teatro no circo (das pantomimas aos dramas)", tendo apresentado um belo espetáculo com a relieitura das entradas e reprises dos palhaços Xuxu (Franco Alves Monteiro) e Pururuca (Brasil João Carlos Queirolo). A partir dessa experiência montaram um espetáculo dedicado à palhaçaria (a dramaturgia do palhaço), o Alegria do circo. Aqui é possível acompanhar a encenação da entrada O caçador, que já mereceu post exclusivo aqui no blog. O grande improviso do grupo está na história do palhaço para entreter seu "pato", que será "caçado" num esperado pega-trouxa. Vale a pena acompanhar as várias versões da mesma história!
quinta-feira, 1 de março de 2012
O palhaço Piolin era modernista?

Com a proximidade do aniversário de Abelardo Pinto Piolin, em 27 de março próximo, aproveito o ensejo para suscitar uma antiga questão que sempre acomete os pesquisadores: Piolin era modernista? Não vamos esquecer que em 1972 o diretor do Museu de Arte de São Paulo (MASP), Pietro Maria Bardi, o convidou para montar seu circo sob o vão do museu como parte das comemorações dos cinquenta anos da Semana de Arte Moderna de 22. Que ele foi amigo dos intelectuais modernistas, todos sabem, em especial de Oswald de Andrade, que teve a oportunidade de homenageá-lo diversas vezes em seus livros, desde o Serafim Ponte Grande até na peça O rei da vela. Mas há algumas questões a serem lembradas: os modernistas conheceram Piolin somente em 1927, ou seja, cinco anos depois da semana que deu início ao movimento liderado por Mário e Oswald. Aliás, quem o descobriu nem foram os brasileiros, mas Blaise Cendrars, o poeta suíço que por aqui bordejava a convite dos intelectuais da semana. Depois os mesmos fizeram o famoso Banquete Antropofágico em 1929, no salão de chá do Mappin Stores, antigo casarão de Antonio Prado, na Praça do Patriarca. Aí o movimento já havia se ramificado entre a esquerda (Oswald) e a direita (Plínio Salgado), enquanto o circo e o palhaço serviam de referência daquilo que era o "genuinamente brasileiro". Ou seja, modernista foi quem isso enxergou. O próprio Piolin manteve simplesmente a tradição circense, representando suas antigas entradas e suas então recentes farsas, obra que se tornou constante até 1961, quando, aliás, boa parte dos modernistas já nem mais vivos estavam. Ele foi, portanto, apropriado pela intelectualidade. E com ela também se divertiu. Conta seu último empresário, Francisco Honório Rodrigues, que emprestava o circo para os intelectuais se reunirem. E estes discutiam, bebiam, fumavam no picadeiro do Circo até a madrugada. Não há, portanto, qualquer referência ao circo e muito menos a Piolin durante a semana. Depois, sim, na revista Terra Roxa e Outras Terras, que por muito tempo foi o principal veículo de ideias dos modernistas, ele esteve presente em artigos de Mário de Andrade, Menotti del Picchia, Ian de Almeida Prado, Alcântara Machado, etc. Na foto, diante do circo, Piolin com Oswald.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
O Momo palhaço
Parece óbvio, mas nem tanto. Mas era um costume dos antigos carnavais coroar o palhaço do circo que estava na cidade como o Rei Momo durante os dias de folia. A matriz é a mesma: tanto a festa popular quanto a figura do excêntrico vêm dos festivais da Idade Média dedicados à celebração da colheita, ocasião em que havia um acordo velado entre as classes sociais, e entre a Igreja e a patuleia urbana para que todos praticassem a chamada "inversão". Ou seja, o rico se vestia de pobre, o homem de mulher, o ateu de clérigo. E, nessa mixórdia, passavam dias atirando água e farinha uns nos outros, além de resíduos menos cheirosos, como testemunhou François Rabelais, autor do Renascimento, nos livros Pantagruel e Gangântua, satíricos e que preservaram o humor grotesco do período. Aliás, o mesmo que pauta as piadas dos palhaços até hoje! Assim, nada mais natural do que coroar o palhaço como o rei que irá comandar a folia. Todos os grandes palhaços tiveram a honra de ocupar essa posição: Piolin, Arrelia, Chicharrão, Torresmo, entre outros. Todos magros, pequenos, com o tipo físico bem diferente do tradicional gordo de bochechas rosadas. Hoje em dia, quando a lógica se arrisca a querer ser mais sensata que a própria lógica, já pregaram contra a figura rechonchuda em nome de uma pretensa opção pelo "saudável"... Mas vale lembrar que o Rei Momo é uma representação, e como a festa do carnaval surgiu para celebrar a fartura, seu representante deveria ter formas cheias e arredondadas, assim como, por exemplo, é a representação de Dionysios, o deus grego do vinho e das artes. Outro desvio é criar um Rei Momo folião... que se mantém ordeiro! Afinal, o carnaval começa quando ele recebe a chave da cidade, e no comando da cidade não pode haver alguém que distribua a desordem! Enfim, sinais de um tempo em que a representação perde para a obviedade e a porraloquice (lembram dessa palavra?) se dissolve em nome do corretismo... Na foto, Sua Majestade Momo Arrelia.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
O palhaço sagrado dos Krahôs
O eixo de equilíbrio de toda uma sociedade: o riso. Sim, poderia ser de todo o planeta, não fosse a maioria humana se levar muito a sério. Ou levar a sério a sua realidade e fazer dela... o seu ponto de equilíbrio. Mas como se equilibrar na lâmina de uma faca? Melhor desistir e se render ao riso, como fazem os índios Krahôs, do Tocantins. São eles tema de um documentário que estreou no Brasil em 2009, tendo antes participado de vários festivais internacionais. Dirigido pela atriz Letícia Sabatella e por Gringo Cardia, o filme O riso Hotxuá - Palhaços sagrados, que tem agora seu nome abreviado para Hotxuá, mereceu esta semana tratamento de "pré-lançamento". Na verdade ele circula desde janeiro de 2009, tentando conquistar público ao contar a mitologia e a forma de ver o mundo desse povo estimulado por seu "palhaço sagrado" - expressão que, para mim parece redundante, uma vez que é o riso o que desatou a luz da vida e não o verbo bíblico. Hotxuá é esse sacerdote dedicado a espalhar o riso, diuturnamente, na tribo. O mais interessante é que o espírito do arquétipo do palhaço - daquele que conhecemos do picadeiro e das telas de televisão - é o mesmo, incluindo os recursos de comicidade. Entre eles a imitação do sexo contrário, a ação da lógica que reverte a ordem para reafirmar a ordem, inclusive o uso do desequilíbrio para estabelecer o equilíbrio, pois é função do Hotxuá dissipar as intrigas, desfazer os desacertos, trazer de volta a harmonia. Assim, o palhaço tem uma função social - e quem disse que aqui também não tem, hein? - e ser escolhido para a função é descobrir-se privilegiado. Há também um encontro entre comicidades, o palhaço ocidental e o Hotxuá, o que, em geral, pode engendrar somente um rito narrativo de reportagem de TV, de aliar o velho ao novo. Mas não é isso o que ocorre, nem essa a intenção dos diretores. Mas de mostrar exatamente a universalidade do riso e da figura do palhaço. Bom, ao trailer:
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
...e Domingos Montagner para Presidente da República!
Só para concluir o último post, é preciso "apoiar" também, outro "bom nome" para a Presidência da República, já que nos "engajamos" na campanha de Picolino para o governo do Estado. Assistindo aos episódios da minissérie Brado Retumbante neste final de semana, não demoro a concluir o que já está pronto: sim, ele, Domingos Montagner! Nada melhor para humanizar aquilo que se desumanizou do que também um genuino palhaço na esfera federal... Sim, acusam a ficção de ser campanha descarada da emissora por um candidato tucano. Bobagem. É campanha do próprio Domingos. Ele, que desafiou os fanáticos da seita dedicada a exterminar os palhaços durante a Noite dos palhaços mudos. Ele que sabe saltar na cama elástica como ninguém, mesmo vestido de bailatira. Ele que conhece a lógica do palhaço e que sabe que se resolve um problema de cada vez, pois mais de um é muita coisa para o palhaço! Enfim, ele que tem se sentido à vontade nos diversos papéis que lhe dão, mas que mantém a alma pintada!
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Picolino para Governador do Estado!
Discordo quando dizem que os políticos são palhaços. E daqueles que, na sequência, corrigem, dizendo que palhaços são, na verdade, os eleitores. Não se trata de corretismo político, mas de dar o mérito a quem de direito. Picolino é palhaço. O que lhe dá o direito de ser o que quiser sem precisar tirar a pintura do rosto. Como ele replica toda vez que declama seu poema do palhaço, não há lógica em usar o termo de forma pejorativa, isso quando o próprio palhaço não tem nem o "direito de sofrer". O mesmo governador que está no nome do prêmio ganho por Picolino tem a chance de reconsiderar. Aliás, se não o fizer, corre o risco de ser convencido por Picolino, assim como ele fez com o rei de Marte, assumindo seu posto e dando um jeito nos problemas marcianos. Afinal, Picolino, que atende às vezes por seu Roger (Avanzi), aos 89 anos, pode se orgulhar da generosidade de premiar com suas histórias aqueles que se dispõem a ouvi-lo.
Contextualizando: Antes do anúncio do ganhador da categoria Circo do Prêmio Governador do Estado de Cultura, na terça passada, foi lido pela diretora de cinemas Juliana Rojas um manifesto contra a atitude do governador ao autorizar o uso da força na desapropriação de uma área localizada em São José dos Campos, chamada Pinheirinho, desalojando mais de mil famílias. Logo em seguida o governador chegou à solenidade. Picolino estava lá, pacientemente, aguardando a divulgação do seu nome. Já a foto do post é do Luiz Alfredo. Quanto às estripulias do palhaço no planeta vermelho se trata da farsa "Picolino em Marte", uma de suas mais famosas.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Ride palhaço: de Leoncavallo a Lamartine Babo
Eu sou o teu Pierrô
Colombina, Colombina
Reparte esse amor
Metade pra mim
Metade pro teu Arlequim!
Nada mais carnavalesco do que um amor distribuído! Os mais incautos dirão: mas isso é coisa que palhaço diga? Não vamos esquecer que essa ideia de que palhaço faz graça somente para as crianças é um dos grandes mitos circenses... Afinal, quem canta é aquele conhecido como o "ladrão de mulher"!
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Cia. Reprises: para ver de novo

Descubro que o grupo Reprises, que nasceu do nosso projeto Entre risos e lágrimas o ano passado está de blog novo. Os meninos - e meninas - merecem. Surgiram do Programa de Palhaços para Jovens dos Doutores da Alegria, e do grupo que encenou as entradas dos palhaços-mestres Xuxu (Franco Alves Monteiro) e Pururuca (Brasil João Carlos Queirolo) durante o projeto. Depois, montaram o espetáculo Alegria do circo, em que emendavam as esquetes cômicas, cuja encenação era sempre acompanhada pela bandinha do grupo. O grupo é formado por Adonai Bezerra (Don Don), Alessandra Siqueira (Silueta), Carolyn Ferreira (Carolipa), Débora Sanders (Tetéia), Jones Marinho (Marino), Julio Cesar (Fuska), Monique Franco (Nina Rosa), Vanessa Rosa (Pina Brownie) e Washington Gabriel (Gastão), ensaiados por Heraldo Firmino e Sandro Fortes. A encenação que fazem da entrada "Caveirão", clássico dos clássicos da palhaçaria, é exemplar: dos três personagens original, ampliaram para a trupe toda (cena acima), com um caveirão de mais de dois metros de altura (e duas cabeças!) e dois times de corajosos/medrosos. Ao final, Nina Rosa "sobra" com o monstro, fechando a cena de forma sensacional. Ah! Não posso também deixar de citar a leitura que fazem da entrada "O caçador", também genial. Para visitar o site do grupo, clique aqui, ou no link que ficará permanente na barra aí do lado.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Espetáculo celebra mestres e aprendizes da palhaçaria
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| Parcerias: guardar a tradição e levá-la à nova geração |
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| Esparatrapo: "Morrer pra ganhar dinheiro" |
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| Clã: "Tiro na vela" |
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| Clownbaret: "O boxe" |
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Palhaços em pleno exercício de memória
| Picoly (Benedito Sbano) |
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| Picolino (Roger Avanzi) |
Por ser oral, a arte do circo se expressa a partir da memória dos circenses. Os saberes são aprendidos na família, oralmente. E qualquer encontro de circenses gera saborosas horas de rememoração de textos de circo-teatro e de velhos 'causos'. O encontro que aconteceu ontem no Centro de Memória do Circo com os palhaços Picolino, Picoly e Biriba, não poderia deixar de render essas boas lembranças. Tanto de textos quanto de histórias. Inclusive as tradicionais gafes durante a encenação da peça O mártir do Calvário, ou A paixão de Cristo (o nome muda conforme o circo que a encena). Mas antes, falaram sobre uma das mais nobres artes do palhaço: a comédia de picadeiro, a chanchada, o combinado. Textos, na sua maioria orais, não escritos, que fizeram e fazem a história do circo. O morto que não morreu, A menina virou, O esqueleto, As duas Angélicas, A casa mal-assombrada, Doutor Redondo, entre outras. Clássicas, são adaptadas ao gosto do palhaço. Picolino - para quem não conhece, seu Roger Avanzi, - lembra que gostava de encenar o que os circenses chamam de "alta comédia", ou seja, as comédias de costumes. Lembra de Chica Boa, de Paulo Magalhães. Mas ressalva que adaptava o texto ao seu tipo Picolino. Tanto que, para atrair o público, preferiu mudar o nome da peça para Solar dos urubus. Até que um dia, relembra, numa cidade no interior do Nordeste - aliás, grande parte da história do Circo Nerino se passa em temporadas nordestinas - após a peça, algumas pessoas foram perguntar a ele qual o significado da palavra "solar". Percebeu que não haviam muitos solares nas pequenas cidades do sertão. Mudou o nome novamente. Assim, a velha Chica Boa virou Picolino na casa dos urubus! Ao final do encontro, o gesto emocionado de Biribinha coroou o encontro, presenteando os amigos de mesa, Picolino e Picoly, com dois bonecos feitos em papel machê, de sua própria lavra, representando os dois tradicionais palhaços e que hoje sintetizam o circo brasileiro. Como era esperado, foi um encontro antológico!
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Água pra quem tem sede
Sábado agradável, tarde não muito quente e um Jardim da Luz repleto de gente diante de um picadeiro inflável. O nome do espetáculo é "Água", e lá estavam nove atores vestidos à caráter: maiô retrô, óculos de natação, nariz vermelho... ôpa! Nariz vermelho? Sim, pois eram os palhaços do Clã Estúdio de Artes Cômicas. Dirigidos pela ótima Cida Almeida, o espetáculo surpreende por usar recursos cênicos - e o talento dos atores, claro - para levar um encadeamento de esquetes sobre o tema principal. A primeira lembrança que vem à mente quando se fala na mistura água e palhaços são os longínquos espetáculos aquáticos dos grandes circos que passaram por São Paulo na primeira metade do século 20. Picadeiros inteiros enchidos com água onde dois times de guerreiros lutavam sobre uma ínfima ponte para, no final, acabarem dentro d´água. Mas no espetáculo do Clã, o picadeiro, apesar de inflável, não será enchido com água. Há soluções inspiradas, além dos infalíveis véus azuis balançando, como os círculos giratórios com espirais infinitas, as lavadeiras cantando com bacias à cabeça, baleias que espargem espuma ou chuvas de papel metalizado picado. E a trilha? Desde Singing'n the rain até La Mer, esta dublada por um inspirado jacaré de feltro que estica seu pescoço por sobre o braço do ator que o manipula. Mas, quem pensava que se falaria em água o tempo todo no seco, se enganou. Bastaram aos palhaços chorarem torrencialmente, salpicando a plateia com suas lágrimas, para começar o embate entre eles: pistolas d´água, armas mais robustas e, enfim, uma mangueira! No final, a trupe continua se divertindo com rodos e baldes, até que a peça se findar com um grande samba enredo temático. Produção impecável, direção muito boa e ótimo trabalho cênico. Agora é aguardar a próxima temporada que, prometo, postarei aqui assim que estiver com a programação!
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Palombando com Chumbinho
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| Eu, palombado com Chumbinho |
Uma vez eu recebi um apelido, ali, onde está aquele negócio branco, era o nosso Café dos Artistas, antigamente. Lá um cara me pôs o apelido de Chumbinho. No circo, lá onde nós tava, tinha muito passarinho e a gente caçava com espingarda de chumbinho. Aí um dia... "Você não conhece o palhaço fulano de tal?" "Não conheço não." "É um cara assim..." "Ah, um que foi comprar chumbinho ali?" "O chumbinho?" Ficou. O ruim é que o cara tinha um mocotó assim, pesado, e eu franzininho, eu fui tirar satisfação com ele e levei um "cola-brinco"... Aí foi pior, o apelido pegou. Toda segunda-feira eu vinha aqui... lá no circo era Carrapicho, chegava aqui era Chumbinho. Aí fui reclamar lá com o seu Novaes, fui pagar a mensalidade [na associação circense]. "Ô seu Novaes estou meio chateado, não vou vim no Café mais não. Quando eu vier aqui, vou ver a hora que não tiver ninguém, e venho pagar a mensalidade." "O que que foi, menino?" "Ah, me puseram um apelido aí de Chumbinho, um negócio feio, estou todo machucado, acho que o dono do circo vai até me mandar embora, porque..." "Ah, não vai fazer isso não. Mas Chumbinho é nome de palhaço! Você não é palhaço?" "Mas o meu nome é Carrapicho!" E a menina, batendo o negócio, acabou escrevendo Chumbinho na carteirinha... Então quer dizer, mataram o Carrapicho e aí ficou Chumbinho.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
A comicidade grotesca do palhaço
Recebi ontem, do professor Ferdinando Martins (ECA/USP), também vice-diretor do Teatro da Universidade de São Paulo (TUSP), a bela revista aParte XXI número 4, que traz um artigo que escrevi a seu pedido, com o mesmo nome deste post. A publicação foi lançada mês passado e é dedicada à comédia, com artigos sobre o stand up (Sérgio Rizzo e Luiz Roberto Zanotti), humor brasileiro (Welington Andrade) e Salão de Humor de Piracicaba (Adolpho Queiroz). Para que o leitor do blog não fique curioso, reproduzo a primeira parte do artigo, que fala de como os palhaços que foram para a televisão atenuaram o humor grotesco que é a essência do palhaço excêntrico (na foto, Hugo Possolo e Raul Barreto, dos Parlapatões):
Ninguém verá a malícia da cena registrada tanto no Tico-tico no Fubá, filme de Adolfo Celi de 1952, quanto no Sua Majestade Piolin, de Suzana Amaral, de 1971. Mas quem teve a sorte de ver o palhaço Piolin no picadeiro do seu circo encenando a entrada “Idílio dos sabiás”, confirma: no momento em que o clown Pinati assedia, usando somente assovios, a “passarinha” representada por um Piolin travestido, há um determinado momento em que ele convida-a para um passeio de charrete. Usando mímica, coloca as duas mãos fechadas à frente do corpo e balança-as lentamente, como se segurasse as rédeas dos cavalos. Piolin passarinha, desconfiando, repete o movimento e, de repente, em vez de só balançar as mãos, puxa-as para si violentamente, várias vezes, num gesto obsceno. Arisca, como requer a uma passarinha, levanta o indicador e sinaliza: “Não, não, não!” Ela só cede quando o passarinho galanteador lhe promete casamento. Aí ela se enrosca no braço do clown e ambos saem assoviando a marcha nupcial. Sobre a cena, Ayelson Garcia, neto de Piolin – filho de Ayola Pinto com Nelson Garcia, o palhaço Figurinha – logo esclarece: “Meu avô era palhaço de adulto, não de criança!” Uma confirmação natural, pois era comum aos palhaços que se apresentavam nos picadeiros dos mais de oitenta circos que passaram por São Paulo entre 1930 e 1970, atuar a partir dessa comicidade. Mas sempre recorrendo à mímica ou à insinuação, nunca de forma escancarada.
No entanto, hoje prevalece uma máxima romântica, popularizada, talvez, pela imprensa.
Uma das bobagens que costumamos repetir com entusiasmo: ‘enquanto houver uma criança, o circo não morrerá!’ Como se o circo fosse privilégio de crianças. Como se, muitas vezes, consciente ou inconscientemente, delas não nos servíssemos para, indo levá-las ao divertimento, podermos matar nossa fome desse espaço arquetipal convergente, descoberto na infância, é verdade, mas que nos acompanha a vida inteira como um reduto inexpugnável onde podem persistir nossos impossíveis desfeitos.
A afirmação é de Miroel Silveira, pesquisador que hoje empresta seu nome ao arquivo que reúne 1.080 processos de censura sobre peças de circo-teatro e que se encontra na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Certo que a comicidade do palhaço, baseada no humor grotesco, que tem sempre como temática principal o “baixo corporal”, foi “ajustada” quando esta se transferiu para os meios de comunicação de massa, em especial a televisão. Arrelia (Waldemar Seyssel), que atuou por décadas no circo da família – o Circo Seyssel e o Circo Piolin foram as duas lonas fixas que por mais tempo atuaram em São Paulo, a primeira no Largo da Pólvora e a segunda nas proximidades da Praça Marechal Deodoro – quando estreou na TV Record em 1953, montou uma lona no pátio da emissora, onde via a arquibancada preenchida por dezenas de crianças. Mesmo adaptando as comédias que levava no circo para a televisão, amenizou o humor grotesco, embora continuasse subvertendo a ordem, que é a função de existir do tipo excêntrico. Ajustou-se ao novo meio, enfim. Assim como Piolin atenuou a sua passarinha para o cinema.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Bacalhau! Olha a mandioca!
A bengala é espetacular, especialmente quando se constata ser um galho seco e torto, com um apoio natural para a mão que a segura. Como outras que fazem parte do acervo do Centro de Memória do Circo, parece inofensiva. Nas mãos de Bacalhau, ela se torna um perigo. Que o diga Mingau, seu parceiro de palhaçada. À primeira distração, sente-a nos fundilhos, gesto seguido pelo bordão de Bacalhau: "Olha a mandioca!" E o público cai na risada... A velha tradição da bengala fálica dos bons palhaços de antigamente... Piolin tinha a sua, Picolino também. E Bacalhau, mesmo se fingindo de morto para poder ganhar algum trocado, abusa a todo momento da velha mandioca... A última dupla a se apresentar no projeto Entre risos e lágrimas (Centro de Memória do Circo e ECA/USP) apresentou três entradas das mais clássicas: Dói dói (a menina bonita que, ao dançar sente dores em locais os mais inusitados, que são curadas com um beijo de um dos dois palhaços), Morrer para ganhar dinheiro, e a Cadeira (brincadeira ingênua em que o palhaço ameaça fazer um número de acrobacia que jamais se conclui). Bacalhau (José Odair Cazarin) e Mingau (Osnir Antônio Cazarin) são irmãos. Começaram vendendo doces nos circos. Aprenderam na vida, até se tornarem os palhaços mestres que são. Agora os grupos participantes vão ensaiar as entradas com o apoio dos mestres, que participam de ao menos um ensaio nos espaços dos grupos. No dia 10 de dezembro, dedicado ao Palhaço, os grupos apresentarão suas leituras dessas entradas. A divisão das entradas ficou da seguinte forma: Esparatrapos apresentarão as esquetes de Bacalhau; o Clownbaret as de Reco Reco; e o Clã as de Romiseta e Condorito. Esse projeto, apesar de não ter a visibilidade merecida, está fazendo um importante trabalho de difusão da sabedoria do circo tradicional para as novas gerações de palhaços. Pelo segundo ano consecutivo a iniciativa está sendo vitoriosa nesse objetivo, fazendo valer o esforço dos dois parceiros e gerando, inclusive, conhecimento acerca da dramaturgia do palhaço. Aguardemos, então, a resposta da nova geração! (A foto do bacalhau é do Paulo Pepe!)quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Falações de Condorito e Corchito
Casados há 39 anos, no Brasil desde 1994, quando desembarcaram num dia e no outro já estavam no picadeiro, o casal de chilenos Sônia Fátima Beltrán Diaz e Fernando Pontiago Silva não se inibiram com o forte sotaque e encararam a plateia, mesmo que ela não conseguisse entender direito o que diziam. Ao contrário de outros palhaços de língua espanhola que atuam no Brasil, não deixaram de apresentar entradas e reprises faladas por causa disso, trocando-as pela mímica ou pela simples encenação. Continuaram fazendo apostas entre si, sempre querendo um tirar vantagem do outro e revelando um humor ingênuo e infantil. Corchito (dona Sônia, na foto de Paula Torrecilha), embora se vista e tenha uma pintura bem parecida com a de Condorito, é o palhaço, faz o papel do clown, que tenta enquadrar o tony, o excêntrico, sem sucesso, pois este sempre acaba em vantagem. Fazem uma aposta para saber se as mãos, ocultas atrás das costas, estão abertas ou fechadas. Claro que a trapaça é parte natural da entrada. Mas eis que Condorito, enganado o tempo todo por Corchito, surge com uma nota de cinco reais que, mesmo colocada sobre o monte das apostas, sempre volta voando para o seu bolso. Depois, quando é convidado a participar de um número de mágica, não consegue manter o segredo do truque, abrindo-o para o público um segundo depois de Corchito pedir-lhe colaboração. Falam o tempo todo, discutem, trocam bofetadas. Uma encenação chilena? Não, de palhaço. Tão familiar ao público brasileiro. Que ouve e, entendendo ou não, ri. Foram eles, enfim, a terceira dupla a se apresentar na programação do Projeto Entre risos e lágrimas. Semana que vem, a última apresentação: o palhaço Bacalhau.
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