Mostrando postagens com marcador Música caipira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Música caipira. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 3 de julho de 2012

A peleja do violeiro Chico Bento com o rabequeiro Zé Lelé

A Peleja do Violeiro Chico Bento com o Rabequeiro Ze Lele

Demorô! Mas aconteceu... e na varanda do cumpadre Seu Juca Barnabé! O confronto desperta a curiosidade da vizinhança... E Chico Bento risca, logo de saída:

"Pois eu tenho uma viola
Batizada de Luzia.
Ela é feita de pinheiro
Que eu comprei na serraria."

Ao que Zé Lelé responde:


"Ai, eu tenho uma rabeca
Que se chama Serafina.
Ele é feita de pau nobre,
Quase nunca desafina."

O confronto do século - deste, não do passado - acontece nas páginas do livro "A peleja do violeiro Chico Bento com o rabequeiro Zé Lelé", em que os personagens de Maurício de Sousa cantam versos de cordel de Fábio Sombra, membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, numa genial iniciativa que tem, entre outras motivações, levar às novíssimas gerações o som e a histórias desses instrumentos que se tropicalizaram ainda no período colonial. Sim, ouvir também, pois o livro é acompanhado por um CD em que a história é contada por nada menos que Almir Sater. A publicação é da editora Melhoramentos. Só uma amostrinha da brincadeira, nesse Book Trailer (Que chique! Notem a mistura de elementos gráficos do quadrinho com os da literatura de cordel...):


Ah!, a dica veio do violeiro Cláudio Lacerda! Abraço, Claudião!


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Série Momento do Compositor: João Pacífico, com Raul Torres

Ficheiro:João Pacífico.jpg08.jpgPuxa vida, já é quinta e ainda não consegui postar o compositor apresentado no domingo passado no programa de Danilo Darós na rádio Planalto! E justo ele, o compositor dos compositores do gênero caipira, João Pacífico! Quando tomei a decisão de escrever a história da música caipira, em 1998, e contar como ela foi se transformar na chamada música "sertaneja" a partir da incorporação de influências musicais de gêneros estrangeiros (guarânia, rancheira, country, etc.), decidi começar por João Pacífico, o compositor de Cabocla Tereza, que tanto ouvi durante a minha infância, especialmente com a declamação dos versos iniciais pelo meu pai. Soube que havia um depoimento no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo e para lá fui. Passei uma agradável tarde ouvindo as histórias do compositor nascido em Cordeirópolis - "se chamava Cordeiro, pois lá havia um homem que fazia cordas; depois mudaram o nome para Cordeirópolis", conta - a temporada em que trabalhou nos vagões da Sorocabana como "ajudante de lava-pratos", onde, aliás, conheceu o porta modernista Guilherme de Almeida, que o recomendou a Paraguassu. Ao chegar à rádio Cruzeiro do Sul não encontrou o seresteiro, mas topou com Raul Torres, a quem ofereceu uma embolada de sua autoria. Começou aí uma parceria que se estendeu por longos anos, ponteada de sucessos, entre eles as toadas históricas Chico Mulato e Cabocla Tereza, além de Pingo d´Água, que lhe rendeu o Disco de Ouro, e Mourão da Porteira, todas elas reproduzidas no programa de Danilo Darós. Mourão da Porteira era a preferida de Guilherme de Almeida, que ressaltava a apurada poética de Pacífico ao usar uma metáfora tão simples e tão profunda... Ao final da tarde, envolto pela dicção do compositor, aliás, um esplêndido recitador de seus próprios versos, saí do MIS decidido a aprofundar a pesquisa e, especialmente, em ir até Guararema ouvir o próprio João Pacífico, que lá vivia. Qual não foi minha surpresa quando, dois ou três dias depois, recebo o e-mail do crítico teatral Valmir Santos me contando que Pacífico não mais estava entre nós... Mesmo assim, sua voz percute em todas as páginas do livro Moda Inviolada - Uma história da música caipira. Para reencontrar essa voz, a seguir o próprio, com Adauto Santos. cantando o Chico Mulato. E depois Tonico e Tinoco interpretando o compositor. Na próxima semana tem mais João Pacífico, dessa vez cantando suas modas e toadas no período posterior à dupla Raul Torres e Florêncio (este último, vale ressaltar, foi quem fez a maior parte dos arranjos das composições de Pacífico gravadas pela dupla).



segunda-feira, 14 de maio de 2012

Série Momento do Compositor: Teddy Vieira

Mais uma participação no programa Terra Brasil, apresentado por Danilo Darós na Rádio Planalto, do Rio Grande do Sul. Dessa vez o compositor em pauta foi Teddy Vieira, autor de pelo menos duas composições que mudaram a música caipira: o cururu Menino da porteira, em parceria com Luizinho e gravada pela dupla Luizinho e Limeira na década de 1950, campeã de vendagem; e Pagode em Brasília, com Lourival dos Santos, que inaugura o gênero pagode de viola, lançado por Tião Carreiro e Carreirinho, e depois mantido em sua mais duradoura parceira, com Pardinho, também nos 1950. Além dela, Teddy Vieira, nascido em Itapetininga (SP), compôs a clássica João de Barro, com Muibo Cury, este radialista que durante décadas manteve programa dedicado à música caipira. As três composições foram programadas pelo comandante Danilo durante o programa que vai ao ar todo domingo às 20h30. Teddy já nasceu com nome artístico. Começou a compor aos 18 anos, enquanto servia ao Exército, e teve sua primeira composição gravada por nada menos que a dupla Tonico e Tinoco, Violeiro casado. Compôs mais de 200 músicas interpretadas por uma infinidade de duplas. Foi produtor artístico da gravadora Columbia, a mesma que gravou pela primeira vez o gênero caipira em 1929, por obra de Cornélio Pires. Depois passou à Chantecler. Morreu num acidente de carro em 1965 quando ia para sua cidade natal. Junto com ele estava seu último parceiro, Lauripio Pedroso, da dupla Irmãos Divino. Para celebrar o compositor, Boiadeiro errante, com a dupla Liu e Léo, mais um entre tantos clássicos que o compositor deixou para a história da música caipira.


terça-feira, 8 de maio de 2012

A saga do Boi Soberano

Das mais belas sagas contadas pela crônica da viola é a do Boi Soberano, preto, valente, forte, fama de criminoso, mas capaz de salvar uma criança de ser pisoteado pelo estouro da boiada, o que o salva do destino do matadouro. Contada com maestria por Carreirinho, Izaltino Gonçalves de Paula e Pedro Lopes de Oliveira, a saga foi imortalizada pelas vozes de Tião Carreiro e Pardinho em gravação de 1966.


Já disseram que uma boa moda é aquela que comporta uma continuação, e a mesma dupla Tião Carreiro e Pardinho gravou em 1968 Retrato do Boi Soberano (Pirassununga e João Caboclo), que repete a história da moda anterior mas contada do ponto de vista do menino, que virou cantador e vive a repetir a história que seu pai lhe contou.



Mas como o boi não é eterno, ele morre sem que seu protegido saiba. Um dia, andando pela estrada já num automóvel, o menino cai num rio e é salvo pelo laço de um vaqueiro. Este lhe conta a história de que foi salvo pela segunda vez da morte e o vaqueiro revela que quem o salvou foi de novo o Soberano, cujo couro serviu para confeccionar aquele laço! Laço do Boi Soberano (Jesus Belmiro e Caim) foi gravada em 1977 por Abel e Caim. Por fim, Cacique e Pajé gravam O chifre do Boi Soberano (Cacique, G. Sampaio e José Rosa), em 1981, que conta outra bela história com novo estouro de baiada, dessa vez 1.500 bois que iam em direção ao matadouro de Andradina. Novamente crianças brincam no caminho da boiada mas são salvas pelo repique de um berrante. Quem toca é o menino da primeira história. E o berrante? Do chifre do maior herói bovino da música caipira: Soberano!


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Série Momento do compositor: José Fortuna

Minha segunda participação no programa de rádio Terra Brasil, comandado por Danilo Darós na Rádio Comunitária Planalto FM foi para falar de José Fortuna, grande compositor e autor das versões das guarânias Índia e Meu primeiro amor, ambas gravadas pela dupla Cascatinha e Inhana num mesmo disco de 78 rotações, o primeiro na história da música brasileira a alcançar a vendagem de um milhão de cópias. Entusiasmado com o sucesso da gravação, a dupla pediu ao compositor que escrevesse para eles uma peça de circo-teatro inspirada em Índia, sendo logo atendida. Como atuar não era muito a área de Cascatinha e Inhana, embora tivessem vivido por anos e anos sob as lonas dos circos, Zé Fortuna decidiu pegar o irmão Pitangueiras (Euclides Fortuna) e o amigo Zé do Fole e criar o grupo teatral Os Maracanãs. Estrearam em São Paulo e passaram mais de duas décadas excursionando pelo interior, sempre emprestando a circos renomados as encenações criadas por Zé Fortuna. O interessante é que depois desse sucesso, o compositor inverteu o modo de criar: passou a escrever as peças e a compor temas para ela. Após o sucesso nos circos é que os gravava e os divulgava no programa que mantinha na rádio Tupi durante a década de 1960. Uma vez mais Danilo escalou três ótimas faixas, agora da dupla: Crime de amor, baseada em peça de grande sucesso no Circo Irmãos Nogueira; Paineira Velha, na voz da dupla e Raízes da saudade, com Pitangueira declamando. Quando o entrevistei para a minha pesquisa de doutorado, ele ressaltou que sua maior vocação artística é a encenação, não o canto. Principalmente porque via na atuação uma forma constante de criar, enquanto que a interpretação exige a repetição. Para relembrar, Zé Fortuna e Pitangueira nos primórdios do Viola, Minha Viola, ainda apresentado por Moraes Sarmento.



quarta-feira, 18 de abril de 2012

Classificados de 1929: Piolin e Cornélio Pires lado a lado

O ano de 1929 foi decisivo para o país por conta da quebra da Bolsa de Nova York, que seria a pá de cal no poderio da oligarquia rural cafeeira. Foi também um ano decisivo para a cultura popular. Especialmente em São Paulo, foi quando o palhaço Abelardo Pinto Piolin atingiu o auge de sua carreira no picadeiro do Circo Alcebíades, montado no Largo do Paissandu desde 1925, consagrando as farsas que o celebrizaram por toda a vida. Entre elas estavam sua original Do Brasil ao Far-West, em que se introduzia num saloon de faroeste de cinema para apresentar suas estrepolias mímicas, e a consagrada O morto que não morreu, clássico do circo-teatro, encenada à exaustão por quase todos os circos que atuaram no Brasil no século 20. Também naquele 1929 nasceria o gênero da música caipira, muito por insistência do tietense Cornélio Pires, que levou a ideia à gravadora Columbia, foi rechaçado, insistiu, foi-lhe pedida uma fortuna para pagar a impressão dos discos, e ele bancou do próprio bolso. Juntou os bolachões e foi para o interior vender. Para sua própria surpresa, a tiragem inicial foi pouca. Logo voltou à Columbia e o susto dessa vez foi dos ingleses que não acreditavam que música rural venderia no Brasil. Pois não é que um anúncio na seção de Classificados do jornal O Estado de S. Paulo em 16 de março de 1929 aparecem, lado a lado, os dois personagens deste post e objetos de pesquisa deste pesquisador?! Cornélio anunciando para brevemente a sua série de discos da "Turma Caipira", e Piolin estrelando ao lado de Alcebíades a farsa O morto que não morreu... Para comprovar, segue a imagem do microfilme, de pesquisa realizada pela aluna de História da FFLCH e pesquisadora do NPCC, Audrea Santana.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Série Momento do Compositor: Goiá (Gerson Coutinho da Silva)

Comecei ontem a série "Momento do compositor", na Rádio Comunitária Planalto FM (Rio Grande do Sul), dentro do programa Terra Brasil, apresentado pelo meu amigo Danilo Darós (Okamoto), grande apreciador da música caipira, onde fazemos um bate-papo sobre os grandes compositores do gênero. Neste primeiro programa dedicamos 20 minutos ao compositor Goiá (Gerson Coutinho da Silva), autor de um dos maiores clássicos caipira, Saudade da minha terra ( "De que me adianta viver na cidade, se a felicidade não me acompanhar..."). Goiá, que recentemente foi objeto de pesquisa acadêmica defendida por Diogo de Souza Brito na Universidade Federal de Uberlândia, popularizou sua cidade natal, Coromandel, em Minas Gerais, ao torná-la tema de várias de suas composições. Apesar de ter morrido cedo, aos 46 anos, deixou 311 composições, a maior parte delas registradas pelas mais importantes duplas caipiras das décadas de 1950/1960: Zilo e Zalo, Nenete e Dorinho, Vieira e Vieirinha, Palmeira e Biá, Pedro Bento e Zé da Estrada, Tibagi e Miltinho e as Irmãs Castro. Mas porque um cidadão mineiro adotou como pseudônimo o nome de outro Estado? Porque foi lá, em Goiânia, que começou a carreira, formando dupla com Micuim. Ainda não usava o nome que o consagraria como compositor, era Rouxinol. A dupla chegou a gravar dois discos em 78 rotações e se apresentou em diversas rádios goianas. Ao saber que uma antiga namorada dos tempos de Coromandel havia se mudado para São Paulo, não teve dúvidas, abandonou o parceiro e veio para a capital paulista. O caso é que dois irmãos de Ilda, a moça de Minas, estavam fazendo certo sucesso: Biá e Biazinho. Biá se consagraria logo depois ao lado de Palmeira, emplacando o sucesso Boneca cobiçada, canção que mudaria o nome do gênero até então conhecido por caipira para "sertanejo". Biá, diretor artístico da gravadora Chantecler, apostou no cunhado - Goiá se casou com Ilda - mas este fez carreira mesmo como compositor. Voltou a Coromandel 14 anos após ter saído para tentar a carreira artística e foi recepcionado calorosamente por amigos comerciantes que fizeram questão de patrocinar os dois  discos em que registrou suas composições com sua voz. Durante o programa, Danilo Darós selecionou três músicas do compositor:  Campos amados de Coromandel (com Sérgio Reis), Canção do meu regresso (com o próprio Goiá) e Saudade da minha terra (com a Orquestra Paulistana de Viola Caipira). Aqui, o próprio Goiá interpreta seu maior sucesso, fazendo ele mesmo as duas vozes.



sexta-feira, 2 de março de 2012

Mário de Andrade compôs "Viola quebrada"?

Seguindo a linha dos enigmas do Modernismo, segue mais um. A autoria de Viola quebrada, gravada e regravada por várias violeiros e duplas, inclusive Rolando Boldrin, que segue abaixo, atribuída ao escritor Mário de Andrade, foi sua única composição autoral? A professora Flávia Camargo Toni, do Instituto de Estudos Brasileiros, que guarda a herança cultural do modernista, ao analisar sua correspondência, revelou o processo autoral, embora o próprio autor não o tivesse levado a sério. Segundo carta enviada ao poeta Manuel Bandeira, presume-se que teria sido composta em 1926, ano em que Heitor Villa-Lobos a harmonizou. Como escreve Mário em 7 de setembro daquele ano: "Sobre a Maroca... [como a moda também era conhecida] Você quer escutar uma confidência só mesmo pra você? Pois isso é o pasticho mais indecentemente plagiado que tem. No que aliás não tenho a culpa porque toda a gente sabe que não sou compositor. A Maroca foi friamente feita assim: peguei o ritmo melódico de Cabocla do Caxangá e mudei as notas por brincadeira me vestindo. Tenho muito costume de sobre um modelo rítmico qualquer inventar sons diferentes pra me dar uma ocupação sonora quando me visto. Assim saiu a Maroca que por acaso saindo bonita registrei e fiz versos pra. Só o refrão não é pastichado da rítmica melódica da obra de Catulo [da paixão Cearense, também compositor de Luar do sertão]. E a linha que inventei tem dois dos tais torneios melódicos que especifiquei na Bucólica, coisa que, aliás, só verifiquei agora, pois nunca tinha ainda matutado nisso. Aliás, o refrão não tem nada de propriamente brasileiro com aquele tremido sentimental..." Pois foi assim que Viola quebrada veio à luz, depois harmonizada pelo maestro, editada em Paris e devidamente incluída no cancioneiro popular brasileiro. Caboca di Caxangá, o nome correto da embolada citada por Mário, é de Catulo e João Pernambuco, o pedreiro das mãos calejadas que se transmutavam nos braços do violão.



terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O milagre do "Berrante de Madalena"

Uma das mais intrigantes modas de viola já gravadas e regravadas, mas que fez sucesso pioneiro nas vozes de Silveira e Silveirinha no início da década de 1960, é o Berrante de Madalena. Ela conta a história de uma tropa que enfrenta um dos seus piores momentos, pois a boiada estoura e arrasta cinco dos boiadeiros, deixando-os sem vida para desespero daquele que conta a história, que sobrou juntamente com seu capataz. Este, pede a Deus que os ajude, ao que é imediatamente atendido:

Olhei pro céu e avistei baixando
Um misterioso disco voador
Saltou na terra moça boiadeira
E o seu berrante mudava de cor
Falou contente com lindo sorriso
Pra te salvar aqui hoje eu estou
Eu vim do céu pra salvar a boiada
E o seu berrante ela repicou

A grande supresa foi quando a tal boiadeira se revelou: "Seu rosto lindo" era o de Madalena, a pecadora, que conseguiu reunir novamente a boiada e ainda ressuscitou os boiadeiros mortos. Mas havia surpresa maior nos últimos versos da moda:

Foi um milagre de Madalena
A boiadeira que eu vi lá na estrada
No outro dia eu fui acordando
Pois foi um sonho a grande jornada
Por isso mesmo eu creio em Madalena
A pecadora foi santificada
Que será sempre minha protetora
Pois minha alma já se sente amparada.

A moda ganhou diversas versões, mas aqui seguem duas: a original, com Silveira e Silveirinha, e outra mais recente, com a dupla Christian e Ralf, esta com uma introdução de rancheira mexicana, com pistons de mariachi e tudo! Resta ao leitor o deleite de comparar as duas. E que Madalena nos proteja com seu berrante multicor!







segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O caipira futurista de Tom Zé e dos Mutantes

Tom Zé havia composto a canção Astronauta libertado e adorado a letra, embora achasse que a música não fosse lá essas coisas. Isso em plenos anos 1960. Aliás, 1968. Decidiu pedir ajuda a Caetano Veloso para refazer a música, mas não conseguiram nada que agradasse a ambos. Quando o tabaréu de Irará já havia desencanado da música, Guilherme Araújo, produtor dos baianos chegou e jogou sobre a mesa uma fita cassete. Tom Zé leu o rótulo: 2001. Era a versão de Rita Lee para a composição, e pegando carona no sucesso do filme de Stanley Kubrick: 2001, uma odisseia no espaço. Mas a sua grande sacada foi harmonizar a aventura sideral de Tom Zé com um belo arranjo de música caipira. A introdução já dava o tom: uma viola desenhando a aventura espacial que culmina com os sons atonais que imitavam o Gyorgy Ligeti usado por Kubrick na sua película. Ideia de Rogério Duprat, o grande arranjador da trupe tropicalista. Trata-se de um casamento feliz, uma referência que oscila entre o passado e o futuro, o arcaico e o moderno, bem no espírito da experiência do Tropicalismo. Pouco depois Os Mutantes embarcariam na aventura de gravar um disco promocional com versões da música caipira, já comentada aqui no blog. No video, uma apresentação da época, da TV Record, com Rita linda e loira, e Gilberto Gil no acordeão! Eita!

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A madrinha de todos os violeiros

Quando decidi pesquisar a história da música caipira, e comecei ouvindo o depoimento de João Pacífico dado ao Museu da Imagem e do Som, estava claro que não demoraria a encontrar a madrinha de todos os violeiros, Inezita Barroso. De fato, como já contei aqui no blog, a encontrei num final de tarde memorável no finado restaurante Parreirinha, no centro velho paulista, onde me contou sua história, para gravação; e uma infinidade de fofocas do mundo artístico, somente para o meu deleite. Quando ligo a TV no final de semana para ver seu programa, me animo com sua disposição e abnegação em defender a música caipira, que ela gosta de chamar de música raiz. Quando fui ao programa falar do livro Moda Inviolada, em 2006, portando seis anos depois de entrevistá-la para a pesquisa, já havia me admirado com sua disposição, a despeito de sua idade. Hoje, aos 86 anos, completará mais um em março, segue à frente do programa, recebendo jovens e antigos violeiros, lançando novos talentos que, anos depois, retornam para pedir a "benção" da madrinha. Muitos deles se foram antes dela: Pena Branca e Xavantinho, Helene Meirelles, por exemplo, que cantaram a primeira vez para o grande público no seu programa. Em 2003 foi premiada com a Medalha Ipiranga, do governo do Estado, se tornando a Comendadora da Música Raiz; e, este ano, na votação do Juri Popular, ganhou o Prêmio Governador do Estado para a Cultura na categoria Música, com seis mil votos. Portanto, sua influência e referência para o universo caipira ainda são imensos! Por isso me incomoda quando, em época de aniversário de São Paulo, quando um ou outro órgão de imprensa decide escolher a "cara de São Paulo" e poucas vezes aparece Inezita. Pois ela é a cara de São Paulo. Por ter nascido na capital e por ter recebido a influência dos caipiras do interior, que conhecia por visitar as fazendas dos tios; por ter nascido em família rica e se dedicado à cultura popular; por cantar, com sua voz de contralto, a alma paulista e, enfim, por manter, com dignidade, a tradição sem deixar de olhar os talentos que despontam. Sem ser violeiro, peço também a mesma bênção à madrinha! 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Cantando passarinhos

Se há um grande símbolo que sintetize a música caipira, este é o passarinho. Ele foi cantado de todas as maneiras imagináveis e se trata de uma metáfora irresistível, pois ilustra tanto a liberdade como a privação, o amor e a traição, a simplicidade e a complexidade. O repertório da música de viola guarda uma série de exemplos memoráveis, muitos deles inscritos nas antologias gravadas por diversos violeiros, caipiras e, como se tornou moda recentemente, até por "sertanejos". Não que cantar o bichinho emplumado seja privilégio caipira, pois há uma galeria infinita de exemplos de outros gêneros (Asa branca e Assum preto no verdadeiro sertanejo de Luiz Gonzaga; Azulão e Estrada do sertão, de João Pernambuco, esta última com belíssima letra de Hermínio Belo de Carvalho que menciona toda a passarada; e o Sabiá de Tom Jobim, reconhecido apreciador de pássaros). Mas vamos deixar aqui cinco modas que se guiam pelos passarinhos para deleite sonoro do visitante saudoso do tema viola que, desde 2011, andava meio esquecido pelo blog.

Destinos iguais
Uma das canções mais tristes da música caipira mas inspirada composição de Ariovaldo Pires, o Capitão Furtado e Laureano, aqui com o Duo Glacial.



João de barro
O radialista Muíbo Cury deixou seu nome na história da música caipira com essa parceria com ninguém menos que Teddy Vieira, o mais prolífico compositor de que se tem notícia... Para completar, a versão é com a dupla Tonico e Tinoco...



Chitãozinho e Xororó
Clássico que, sem que Serrinha a Caboclinho pudessem imaginar, renderia o nome da dupla que fez a passagem da música caipira para a "sertaneja". Aqui, a versão original.



Guaxo
Helena Meirelles não canta este passarinho do Pantanal, mas ele é que canta em sua viola, atualmente dedilhada por seu sobrinho Milton Araújo. A versão abaixo reúne só feras: Rainer Miranda, Júlio Santin, Levi Ramiro, Marcos Azevedo e o próprio Milton Araújo)



Fuxico
Pereira da Viola, com sua voz brilhante, irrompe a tradição com a bela composição de Dinho Oliveira e Gutemberg Vieira e coloca a dualidade num só pássaro: "o amor tem duas asas"

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Goiá, o sedutor de Coromandel

Coromadel fica na região do Alto Paranaíba, próxima ao Triângulo Mineiro e de lá saiu Gerson Coutinho da Silva, o compositor Goiá, cujas composições se consagraram nas vozes da dupla Zilo e Zalo. Assim como Coromandel colou Goiá no mundo, Goiá retribuiu colocando Coromandel no mapa. Tanto que a cidade, após sua morte prematura, em 1981, aos 46 anos, se dedica a guardar a memória de seu filho mais dileto, compositor de 311 músicas. Aprendo tudo isso sobre Goiá com a intensa pesquisa de Diogo de Souza Brito, que defendeu mestrado sobre o compositor na Universidade Federal de Uberlândia (também no Triângulo), e que agora é publicada pela EDUFU como parte do Prêmio Funarte de Produção Crítica em Música, com o nome de Negociações de um sedutor: trajetória e obra do compositor Goiá no meio artístico sertanejo. Goiá saiu de sua cidade no início dos anos 1950, tendo retornado só em 1967, já consagrado. Compôs diversos temas sobre a cidade, entre eles Saudades de Coromandel (1962). A pesquisa de Brito revela não só a construção do artista Goiá a partir de negociações com o patronato de sua cidade assim como com a indústria fonográfica. Aliás, seu estudo tem o mérito de também mostrar o modo como operam as gravadoras, mostrando uma interferência que sobrepõe a criatividade artística e que, de alguma forma, ao moldá-la, exerce um tipo refinado de censura controladora (definição minha). Recebi gentilmente um exemplar do livro, encaminhada por Brito por intermédio deste blog. Certamente, o pesquisador dá sua valorosa contribuição acadêmica à pesquisa da música caipira. Aliás, a esse gênero que passou anos sob o preconceito da cultura oficial mas que hoje, seja por força de seus subprodutos altamente vendáveis, seja por aqueles que, como Brito, se dedicam a desvendar sua contribuição simbólica, começa a ser integrada à história da formação cultural brasileira.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Sorocabinha, aquele que fazia dupla com o Mandy

Em meio a relatórios científicos, seminários e orientações, escapo para dar uma notícia auspiciosa. Aliás, duas! No próximo dia 29, na Livraria da Vila, na Vila Madalena, São Paulo, será lançado o livro Sorocabinha - A raiz da música sertaneja, de Maria Immaculada da Silva, filha deste que formou uma das primeiras duplas caipiras da história desse gênero. Junto com Mandy (Manoel Rodrigues Lourenço), Sorocabinha (Olegário José de Godoy) gravou 70 discos de 78 rpm. O livro é acompanhado por um CD com vinte faixas resgatadas desses bolachões. Mas a outra notícia também é fantástica: no dia do lançamento será apresentado o filme Vamos passear?, produção de Cornélio Pires de 1934! Contei a história deste filme em outro post, o que acabou gerando alguns comentários de leitores me perguntando onde encontrar uma cópia do mesmo. Acreditava eu que não existia uma cópia restaurada e que pudesse ser projetada. Felizmente, puro engano meu! Mandy e Sorocabinha fizeram parte da Turma Caipira Cornélio Pires, grupo de cantores e violeiros reunidos pelo escritor e contador de "causos" para fazer as primeiras gravações de moda de viola, em 1929. Depois, fizeram parte também da Turma Caipira Victor, concorrente da Columbia, que gravou a série de Cornélio, ocasião em que foi feita a foto histórica que está neste post. Para saber mais sobre o lançamento e sobre o livro, é só acessar o site da autora.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Adauto Santos toca seu Triste berrante

Há pessoas que o tempo não permite que com elas dividamos alguns momentos antes que ela parta e cumpra sua outra jornada. Uma dessas pessoas foi Adauto Santos. Por anos cultivei o momento de entrevistá-lo para o livro Moda Inviolada. Estive bem próximo disso, pois na época Valmir Santos, hoje crítico teatral, ensaiou algumas vezes um encontro para isso. Mas o tempo se apressou e logo ele se foi, deixando o legado o som de seu Triste berrante. Inserida na trilha da novela Pantanal, a moda teve a sorte de nascer já um clássico caipira, como se tivesse sido composta há pelo menos três ou quatro décadas a partir de uma sonoridade muito nostálgica. Adauto começou cantando sambas mas foi pioneiro em levar a viola para boates paulistanas na década de 1960, entre elas o Jogral, de Luís Carlos Paraná, também frequentada por Paulo Vanzolini e Théo de Barros. A transição de um gênero a outro se deu, conta-se, a partir de uma noite em que, no bar Telecoteco da Paróquia, no Bixiga, viu Inezita Barroso cantando a sua Moda da Pinga. Foi um contágio definitivo. Com voz vibrante e firme, uma sonoridade invejável, chegou a compor com o mestre dos mestres caipiras, João Pacífico, com quem fez Juca. Dois anos antes de morrer, em 1997, gravou Tocador de vida e de viola, com clássicos caipiras tocados num instrumento rústico, feito a canivete, e no violão - Adauto fez os dois instrumentos e as duas vozes da dupla caipira. Numa semana que começou com Elomar, nada como fechar com a nostalgia de Santo Adauto!

In

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Mexericos da rabeca


O título do post replica o nome do disco de José Eduardo Gramani, essencial tanto na pesquisa musical quanto na apresentação das diversas sonoridades deste instrumento rústico, primo artesanal do violino erudito, que abre mão da caixa de ressonância e aplica as cordas sobre a madeira maciça. No entanto o mais bonito é o gestual do rabequeiro - como o foi Zé Côco do Riachão, artesão autodidata e tocador esmerado, que pude ver no SESC Pompéia no final do século 20 - em que o instrumento desce do ombro e do queixo para o antebraço, pois o instrumentista precisa tocar e andar, especialmente se estiver numa procissão ou numa folia. Gramani foi professor na Universidade de Campinas, com formação erudita e apreciador da sonoridade rascante da rabeca. Iniciou, com apoio da Fapesp, em 1995, a pesquisa Rabeca, o som inesperado, mas não viveu o suficiente para concluí-la, ficando a tarefa para sua filha Daniela, que a publicou em livro em 2000 (que pode ser adquido no mesmo link), com o apoio de Ana Salvagni. Na pesquisa, Gramani documentou o trabalho de quatro rabequeiros (fazedores e tocadores): Martinho dos Santos, de Morretes (PR); Julio Pereira, de Paranaguá (PR); Arão Barbosa, de Iguape (SP) e Nelson da Rabeca, de Marechal Deodoro (AL). Gramani ainda deixou seu legado no CD Mexericos da rabeca, de 1997, que tem dobrado, seresta, modinha, forró, calango. A rabeca, por sua vez, nos chegou também na bagagem lusitana, talvez no matulão dos jesuítas, depois de viajar do Oriente Médio para Portugal nos séculos de ocupação moura. O pesquisador Luiz Henrique Fiaminghi, que também participa do livro editado por Daniela Gramani, mantém o ótimo site bem completo sobre a rabeca. Vale uma passeada por lá!

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A sonoridade suburbana de Passoca


O processo de transferência do caipira do Interior para a capital envolve a ordenação de um peculiar espaço social localizado nas bordas da mancha urbana de São Paulo: a sub-urbe. Trata-se de um espaço em que as comunidades vivem uma realidade que ainda não é urbana e tampouco rural, mas um amálgama de práticas, crenças, modos de viver, morar, se relacionar, etc. Essa área suburbana, preenchida por uma densa população garantiu o consumo de música caipira durante as décadas em que ela imperou nas rádios e nos discos, antes de se tornar "sertaneja". Em geral essa música guardava o sabor nostálgico de tempos mais puros - e mais difíceis - sempre valorizados por aqueles que decidiram mudar de vida e se transferir para a capital. Quem assistiu ao filme Marvada carne, de André Klotzel, entenderá bem isso após ver a cena final. O violeiro paulista Passoca, que nasceu em Santos e vive em Ribeirão Pires, borda suburbana de São Paulo, sempre soube musicalizar muito bem essa realidade. Desde a sua antológica Sonora garoa, incluída na trilha do filme de Klotzel - e que embala exatamente a cena final - sua obra tem se dedicado a mapear sonoridades suburbanas. Resgatou a deliciosa Moda de Botucatu, que atribui a Angelino de Oliveira e a Chico de Paula; gravou sambas inéditos de Adoniran Barbosa; cantou a história da música caipira e fez homenagem a João Pacífico. No DVD Violeiros do Brasil, projeto de Mirian Taubkin, ele aparece cantando uma moda de sua autoria, que sintetiza bem o sentido do suburbano. Para deleite do leitor, publico a letra, de uma poesia caipira/urbana.

Perto da Lagoa

Moro perto da lagoa
Casa de alvenaria
Moro bem perto da mata
Aí eu trabalho todo dia
Eu trabalho na cidade
Vendo água no metrô
Mas tem dia que eu não vou
Vou pescar lá na lagoa
Vou sozinho, sim senhor

Quando chove
Lá na mata fico alegre
Na cidade fico triste
Lá na mata o mato cresce
Fica verde o meu quintal
Na cidade o rio transborda
Fica todo mundo mal
E eu não sei o que é que eu faço
Quando eu paro no sinal
Há pessoas na cidade
que não têm pra onde ir
E tem gente lá da roça
que quer vir pra capital

Moro perto da lagoa... (Refrão)

Lá na mata fico triste
Quando a noite vem
Na cidade fico alegre
Quando o dia vai
Lá na mata solidão
Na cidade o neon
Na calçada a meninada
Perfumando a avenida
Com cheirinho de batom

Moro perto da lagoa... (Refrão)

Levo a vida na cidade
Vou ganhar o meu dinheiro
Lá na mata tenho pouco
Na cidade o mundo inteiro
Tá faltando a companheira
Ê, tá difícil companheiro...
Vendo água no metrô
Sei que não morro de sede
Nem de amor

Certo dia encontrei
Uma linda quarentona
Numa kombi, lotação
Que eu peguei uma carona
Eu cheguei bem perto dela
E ela bem perto de mim
A paisagem foi mudando
Fui com ela até o fim

Moro perto da lagoa
Casa de alvenaria
Moro bem perto da mata
Aí eu trabalho todo dia
Eu trabalho na cidade
Vendo água no metrô
Mas tem dia que eu não vou
Vou pescar lá na lagoa
Vou só eu e o meu amor...

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O homem e a espingarda

Apesar da música caipira ter por hino uma toada que fala das Tristezas do Jeca ("...lá no mato tudo é triste, desde o jeito de falar..."), o humor caipira é primoroso. E, muitas vezes, até malicioso, sem descambar para o apelativo. Um exemplar muito representativo desse humor é a moda de Zé Mulato e Cassiano, O homem e a espingarda. Vamos à letra:



Analisando direito
Nossa vida é uma piada
Só quem não tem bom humor
Não acha a vida engraçada
Por eu ter cabeça feita
Não andar fazendo nada
Qu'eu fiz a comparação
Do homem com a espingarda

Dos vinte até os trinta
Nossa vida é muito boa
A espingarda anda armada
E o atirador caçoa
Sortimento tá sobrando
Muitas veiz atira à toa
É só triscar no gatilho
Que a língua de fogo avoa

Dos trinta até os quarenta
Pode prestar atenção
O atirador tem cuidado
Arma é de estimação
Não atira em qualquer bicho
Nem joga chumbo no chão
Só atira em caça boa
Pra não perder munição

E dos quarenta aos sessenta
Arma tem que ser tratada
Atira uma vez ou outra
Se for bem lubrificada
Por cada tiro ela passa
Um tempão dependurada
Dá um tiro e fáia dez
A mola tá relaxada

E dos sessenta em diante
Danou com os arrei' pro mato
Arma não atira mais
E se atirar é boato
Espingarda enferrujada
Só aponta pro sapato
Virou peça de museu
Esse mundo é mesmo ingrato

Depois desta triste fase
Só piora todo dia
Óia a arma tem na parede
Só ferrugem e maresia
Quem deu tiro e matou onça
Já nem assusta cotia
Nunca mais irá caçar
Lá no capão da furquia

A dupla de Brasília, embora nascida em Minas Gerais, gravou a moda em 1987, para o disco que registrou o show, produzido pela Funarte, em homenagem ao Capitão Furtado, radialista, sobrinho de Cornélio Pires e divulgador da viola. Ultimamente, nas apresentações da dupla, Zé Mulato, sexagenário, explica que quando compôs a letra da música até que a achava bem "engraçadinha", mas que agora não acha mais graça. "Não sei porque...", completa, para o deleite da plateia. Nessa mesma linha, durante encontro em Guararema, na casa em que os violeiros esperavam para se apresentar, Levi Ramiro, munido de uma das violas que fabrica, disse a Zé Mulato que iria guardá-la no quarto, acentuando que era uma "viola virgem". Ao que o mineiro respondeu: "Olha, se eu for dormir lá no quarto pode ficar tranquilo que ela vai continuar virgem!"

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

As doenças da viola

Numa série de artigos publicados na revista Sertaneja na década de 1950, o pesquisador Alceu Maynard de Araújo aponta algumas doenças que acometem a viola, sempre se baseando na oitiva de experientes violeiros - diz ele que conversou com mais de uma centena. Por se afeiçoar ao instrumento, o violeiro trata logo de humanizá-lo, atribuindo-lhe reações físicas em resposta a determinados tratamentos. Relacionando os males, conforme o artigo do pesquisador:

Quebranto - "Contra quebranto, galhinho de arruda no seu interior, jogado boca adentro em noite de sexta-feira, na primeira após a compra do instrumento; há um processo de magia simpática para dar melhor 'voz' às cordas, colocando um guizo de cascavel. E contra todos os fluidos prejudiciais, nada melhor do que uma fita vermelha para desviar o mau olhado e a inveja."

Constipação - A viola, quando guardada dependurada, com as cordas encostadas na parede, pega umidade e fica constipada. "Violeiro que se preza não a dependura assim e sim a mete num saco para guardar num gancho ou prego. À noite, estando sozinha, sente frio, porque nos braços do violeiro, ela sente calor. Mas há violas que precisam tomar sereno pra ficar com boa voz, para 'declarar bem'".

Influência da lua - "Não há viola lunática, mas todas sofrem influência da lua. Na lua nova e 'na força da lua' não se guarda viola afinada, ela pode ficar 'corcunda', entortar, 'estuporar', bem como rebentar a corda. Madeira para viola deve ser cortada nos meses que não tem 'r' (maio, junho, julho, agosto) e na minguante para nunca apanhar caruncho. Viola com caruncho é leprosa..."

Reumatismo - "Violeiro que se preza não carrega viola debaixo do braço e sim na mão, segurando-a pelo seu braço. 'Viola é mulher, e quem sai com ela na rua, vai de braço dado. Violeirinho de meia pataca é que põe a viola debaixo do braço. O sovaco é lugar de encostar a muleta e não a viola.' Viola carregada debaixo do braço fica reumática, não afina mais, fica mancando das cordas."

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Por que a música de viola é caipira e não sertaneja?

(Escrevi este artigo ainda no século passado, para um site dedicado à música caipira e aqui o reproduzo tal e qual. A viola da foto é do Braz da Viola, de São José dos Campos.)

O velho caipira, sentado diante da sua palhoça de telha-vã, ouvindo o canto triste do passarinho “desde o galho onde ele está”, alheio ao tempo, jamais poderia um dia imaginar o que seria a Internet. No entanto, ele está lá: olhando o passarinho e também na Internet. Como assim? De que forma o caipira teria adquirido essa atemporalidade?
Para começar a refletir essa presença duradoura, é preciso relembrar quem é o caipira para, então, descobrir o que identifica a sua cultura. E, enfim, encontrar o que perdura disso hoje nas violas e nos violeiros. Filho do índio e do colonizador branco, que trouxe de Portugal o seu falar, suas crenças e sua viola, o caipira permaneceu, como assinala Antonio Candido, uma espécie de fronteira móvel entre a natureza e a civilização. É esta, aliás, a maneira primeira em que o caipira aparece como fronteira. Após a passagem do bandeirante, ele desbastava a mata do bugre, ocupando a terra. Em seguida, era expulso pelo civilizador, que lhe usurpava a terra, tornando-a produtiva. Ou mais, transformando-a em vila.
Como a vida do caipira foi sempre permeada por esse “se estabelecer e ser expulso da terra que não é sua”, ele acabou incorporando o “provisório”, marca característica já do índio e do sertanista bandeirante. Sua casa, seus pertences, seu trabalho na terra, foram marcados pela provisoriedade. Tanto que acabou incorporando-a ao seu próprio modo de vida. Por isso ele pouco canta o amor à terra, como faz o nordestino. Canta sim, a terra que produz, a terra que corre sob os pés da boiada, que serve de palco para verdadeiras epopéias de caboclas Teresas, Chicos Mineiros ou Mulatos, dentre outros personagens.
Prova do desapego originário da provisoriedade está num dos mais fiéis resumos do “ser caipira”: a delicada toada de Renato Teixeira e Almir Sater, “Tocando em Frente”:

            “...Como um velho boiadeiro tocando a boiada
            Vou tocando os dias nessa longa estrada eu vou,
            Estrada eu sou.”

O caipira soube sintetizar a miscigenação na criação de uma arte peculiar, baseada na religiosidade das festas populares e escrita com as dez cordas da viola. O exercício da viola nasce, a princípio, no ato contrito de tocá-la para Deus e para os santos. Principalmente se esse santo for violeiro, como é o caso do São Gonçalo brasileiro, porque o de Amarante, mesmo, só sabia fazer pontes e casar as velhas. Para o caipira, tocar a viola é uma maneira profunda de rezar, ao passo que a dança consagra uma promessa. O violeiro toca em atitude reverente, uma reverência nem sempre evidente se para o santo ou se para a própria viola.
Todas essas características (impermanência, provisoriedade, transição) que surgem na música folclórica, se fixam na chamada música caipira. Ou seja, na música gravada, a partir de 1929, pelo esforço de Cornélio Pires e que haveria de encontrar um público admirador crescente a ponto de fazê-la popular pelas três décadas seguintes. Isso porque, na virada dos anos 1950 para os 1960, ela se misturaria com as guarânias paraguaias e as rancheiras mexicanas, numa fusão que a descaracterizaria gradualmente. Até que, enfim, ela passou a incorporar, já nos 1970, as guitarras elétricas e, no dinal do século XX, elementos do country norte-americano. Assim, a música caipira, embora fruto dos meios modernos de reprodução – o disco e o rádio – figura, também, como uma fronteira entre a genuinidade do folclore e a desfiguração promovida pela cultura de massa
Isso não implicou, de forma alguma, no desaparecimento completo da música caipira. Ao contrário, fortaleceu-se também lentamente uma certa resistência violeira, que manteve a essência da Alma caipira, suas metáforas e seus acordes característicos. São violeiros que refutam a forma estereotipada da música “sertaneja” e vão buscar na música caipira – e não “música raiz”, pois caipira pode ter tudo, menos raiz – a verdadeira cara de uma cultura genuína e estruturada.