Repleto de festas religiosas, o mês de maio é especial para o caipira. Para quem, aliás, festa é sinônimo de sociabilidade - algo tão caro ao caipira, metido nos fundões, trabalhando de sol a sol - de música e de dança. A concentração das festas acontece após o período de recolhimento da Quaresma, em que os santos são cobertos e o foco do fiel é refletir sobre a Paixão de Cristo. Bom, os festejos começam com a Festa de Santa Cruz, que em Carapicuiba, por exemplo, acontece nos primeiros dias do mês. Lá, mantida pela família Camargo, a tradição envolve a dança ante as cruzes postadas na frente de cada casinha da Aldeia jesuíta, acompanhada de cantoria conduzida por violeiros e percussionistas que tocam reco-recos de cabaças e puítas (a avó da atual cuíca). Em algumas regiões se comemora também a Festa de São Benedito, santo negro patrono das Congadas, muitas vezes coincidindo com o 13 de maio. E o mês abriga ainda o domingo de Pentecostes, ocasião em que, segundo o evangelho, o Espírito Santo teria se manifestado sobre os apóstolos como uma língua de fogo. Simbolicamente essa manifestação se transformou na tradicional pomba branca. Em Mogi das Cruzes, no sábado que antecede o Pentecostes, há a famosa "Entrada dos palmitos", assim chamada porque o cortejo passa por um caminho ornado com as folhas do palmiteiro. A origem da Festa do Divino vem da promessa que a rainha Isabel, de Portugal, fez no século 14 de levar sua Corôa e sua Corte para saudar a igreja construída em honra ao Espírito Santo. Assim, ela teria atravessado Lisboa em cortejo. O mesmo cortejo acontece em Mogi: na frente segue a Corôa acompanhada pelas bandeiras vermelhas, depois vêm os carros de boi com suas rodas rangendo, os grupos de Congada e de Moçambique, Marujada e Folia, e, por fim, os Cavaleiros do Divino. No cartaz desse ano, aliás, descubro, com emoção, a imagem pintada de Dona Rita, das mais tradicionais rezadeiras da Festa, falecida há pouco tempo. A seguir, a Congada de Santa Ifigênia, também da cidade, presença constante nas festas de maio.
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quinta-feira, 10 de maio de 2012
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Reis magos, xamãs e o real sentido natalino
Quando cumpri a disciplina sobre folguedos populares com o grande cenógrafo Clóvis Garcia, na ECA/USP, me lembro dele ter desfeito os sonhos de diversos colegas ao desmistificar algumas crenças natalinas. Uma delas foi a dos três reis magos que, segundo ele, não eram três, nem magos, somente reis, pois a Bíblia se refere a eles somente como os reis do Oriente - e somente no evangelho de Mateus... Sempre me fascinei pelos reis do presépio que eu montava em Mogi das Cruzes com os musgos do quintal, retirados da terra com uma espátula e acomodados na borda do estábulo em miniatura aos pés da árvore de Natal. Me diziam que se chamavam Gaspar, Melchior e Baltazar. Eles estão lá na folia de reis, folguedo presente no Brasil desde o sul até o nordeste, que ganha as ruas interioranas a partir de amanhã, cantando, de janela em janela, o menino que está para chegar. Há outros folguedos celebrando este nascimento - sim, é bom lembrar disso quando o imperativo parece ser apenas comprar, comprar,comprar - como as Pastoras, o Bumba-meu-Boi, e outras folganças. Mas, voltando aos reis, que viram a estrela-guia e a seguiram até encontrarem o menino na manjedoura (nome fascinante, pois trata do local onde os animais comem, no verbo "mangiare", na língua italiana). Quando estive em Colônia, na Alemanha, na famosa catedral gótica, aquela que cuja dimensão não cabe nos olhos, há um rico relicário dourado, como a arca da Aliança, que, dizem, guardam os despojos dos reis magos. A lenda conta que levaram presente ao menino, inclusive especificando que se tratava de ouro, incenso e mirra. Bom, aí é que surge a tradição de presentear. Não imaginavam que isso se sobreporia à própria essência natalina, que é a do início do ciclo, o nascer para morrer e renascer, etapas do caminho iniciático. Nesse sentido, outra lenda, nada bíblica, a do Papai Noel - recebi via rede social um cartum radical em que um menino perguntava ao velhinho onde ele estava na Bíblia... - remete ao mesmo processo. O personagem Noel, originário da gelada Lapônia, na Finlândia, seria um sábio xamã, hábil em circular pelos mundos espirituais montado nos seus animais de poder, as renas. Quem já buscou entender as práticas xamânicas sabe que na maioria dos povos ancestrais a viagem do xamã pelos mundos dos espíritos e dos mortos se dá com o auxílio desses animais de poder ou subindo na "árvore da vida", aquela que une os mundos subterrâneo, o material e o dos espíritos. Daí a tradição pagã da árvore de Natal. Bom, no meio disso tudo dá para perceber o quanto vamos nos afastando do verdadeiro sentido natalino, que é o da elevação espiritual, esta desgastada pelo mero comércio, que vai nos empanturrando a alma ao longo dos anos... Os reis do Oriente levavam presentes simbólicos, assim como o menino é o símbolo da nova era. Se conseguirmos nos desintoxicar desse vazio material, conseguiremos, enfim, tocar a verdadeira essência do Natal. Seja lembrando dela nos encontros familiares ou simplesmente cantando uma Folia de Reis. Bom nascimento a todos!
quarta-feira, 29 de junho de 2011
O homem da chave
Pedro era santo de devoção de meus dois avôs, tanto materno, que tinha seu nome, quanto paterno, que era Benedito. Desde pequeno aprendi que é ele quem detém a chave do céu e que arrasta os móveis em véspera de tempestade, assustando as crianças com o que aqui chamamos de trovão. Sua festa é a última das juninas, e pouca gente se lembra que ele é o primeiro dos Papas e aquele que negou Jesus por três vêzes. Venerado pelos pescadores, já que era essa sua profissão quando Jesus o encontrou às voltas com as redes vazias de peixes - tratando de enchê-las milagrosamente - e pelas viúvas dos pescadores do Rio São Francisco. Tal culto gerou as procissões marítimas e fluviais. Alceu Maynard Araújo conta que foi nas festas de Pedro que surgiu o tal Pau de Sebo, mastro fincado no terreiro, todo ensebado e com prendas presas no topo, cujo desafio do caboclo é conseguir alcançá-las mesmo que a trajetória escorregadia o faça comprovar a Lei da Gravidade. Há ainda, nos festejos juninos, o Porco ensebado, versão do pau de sebo personificada por um leitão besuntado a correr pelo terreiro - também era uma brincadeira de circo - com meia dúzia de marmanjos se desmilinguindo no chão atrás do bicho. Quando alguém conseguia agarrá-lo, ele logo escapulia, após se debater e berrar assustadoramente... Aqui, enfim, concluo o ciclo das festas de Junho, saudando o santo de meus avós!
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Antônio ia se casar
Depois que escrevi o post sobre São João, algumas pessoas me cobraram o de Santo Antônio, que teve seu dia comemorado no dia 13, inaugurando os festejos juninos. Antônio de Pádua, como é mais conhecido, é, na verdade, Antônio de Lisboa, cidade onde nasceu - iniciou seu noviciado em Coimbra -, embora tenha concluído sua obra na cidade italiana que guarda seus restos mortais. É considerado santo casamenteiro e sua imagem objeto de uma infinidade de simpatias para que arrume marido para as solteiras. Mas Portugal tem outro santo casamenteiro, São Gonçalo, a quem atribui-se também o dom de conceder fertilidade aos casais sem filhos. Santo Antoninho parece ter se popularizado mais no Brasil como casamenteiro - pois aqui São Gonçalo cuida dos violeiros. Por conta disso, o santo de Lisboa é dependurado de cabeça para baixo, posto de costas no altar, privado da companhia do menino Jesus que está em seus braços, coberto, vendado e outros castigos que têm por objetivo tirar de qualquer jeito do santo o milagre do casamento. Embora a devoção a Santo Antonio tenha diminuído nas últimas décadas, as simpatias continuam crescendo.
Há também o pão de Santo Antonio, distribuído nas missas e por pagadores de promessas, guardado pelo fiel junto ao pote de arroz para que garanta abundância à família. A prática deriva da lenda de que o santo teria oferecido toda a fornada de pães do convento de Pádua aos pobres e que o padeiro ao dar falta da produção, reclamou a Antonio que ela havia sido roubada. O santo pediu que olhasse melhor e, milagrosamente, os pães transbordavam dos cestos. No interior de São Paulo há o hábito entre as famílias ricas de prometer a Santo Antônio o mesmo número de quilos de seu peso em pães no seu dia, distribuídos aos pobres. Alceu Maynard de Araújo destaca que dos santos juninos somente Antonio é talhado em madeira, geralmente em imagens diminutas para que sejam carregadas pelos devotos em suas viagens. Em geral esculpem-na em nó de pinho, característica que gerou a quadra: "Meu querido Santo Antônio/feito de nó de pinho/com vós arranjo o que quero,/porque eu peço com jeitinho". Pra fechar, a marchinha junina de Osvaldo Santiago e Benedito Lacerda, Pedro, Antônio e João, imortalizada por Dalva de Oliveira e Hertivelto Martins em gravação de 1939.
Há também o pão de Santo Antonio, distribuído nas missas e por pagadores de promessas, guardado pelo fiel junto ao pote de arroz para que garanta abundância à família. A prática deriva da lenda de que o santo teria oferecido toda a fornada de pães do convento de Pádua aos pobres e que o padeiro ao dar falta da produção, reclamou a Antonio que ela havia sido roubada. O santo pediu que olhasse melhor e, milagrosamente, os pães transbordavam dos cestos. No interior de São Paulo há o hábito entre as famílias ricas de prometer a Santo Antônio o mesmo número de quilos de seu peso em pães no seu dia, distribuídos aos pobres. Alceu Maynard de Araújo destaca que dos santos juninos somente Antonio é talhado em madeira, geralmente em imagens diminutas para que sejam carregadas pelos devotos em suas viagens. Em geral esculpem-na em nó de pinho, característica que gerou a quadra: "Meu querido Santo Antônio/feito de nó de pinho/com vós arranjo o que quero,/porque eu peço com jeitinho". Pra fechar, a marchinha junina de Osvaldo Santiago e Benedito Lacerda, Pedro, Antônio e João, imortalizada por Dalva de Oliveira e Hertivelto Martins em gravação de 1939.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Ainda as juras de fogueira
O apadrinhamento de fogueira sela uma amizade para a eternidade, ata laços de companheirismo para além dos laços de sangue: arde no coração pelo resto da vida. A recitação dos versos pode ser feita de maneira simples ou repetida por três vezes. Em certas regiões é preciso pular a fogueira três vezes, sempre invertendo a posição, em cruz. O pesquisador do folclore Alceu Maynard Araújo afirma que se trata de um ritual de origem pagã, com caráter de iniciação:
Não há apenas os compadres de fogueira, há tios, sobrinhos, pais e filhos de fogueira. Basta que um afeto forte os aproxime para que no dia de São João, ao saltar a fogueira, façam antes um juramento e a seguir saltem em cruz três vêzes a fogueira. Desse momento em diante passam a tratar-se de acordo com o que o adrede ficou combinado. Ao saltar a fogueira revivem, sem saber, um ritual de origem celta. (Folclore nacional - Festas, bailados, mitos e lendas. Martins Fontes, São Paulo, 2004).
E o que para mim era uma novidade, se trata de uma instituição no Nordeste, o que me deixa envergonhado em descobri-la somente agora... Bom, também é tradicional a troca de juras de amor ante a fogueira e o exemplar mais marcante e popular dessa troca é o samba de Noel Rosa: "Nosso amor que não esqueço/e que teve seu começo/numa festa de São João..." Há também um uso bem peculiar desse compadrio joanino. Descubro uma narrativa de certa donzela que, cortejada por um animado varão - que por sinal pouco lhe interessava - resolveu a questão tornando-se afilhada de fogueira do moço. A amizade perdurou por toda a vida de ambos e o flerte foi esquecido. Afinal, padrinho não pode casar com afilhada...
terça-feira, 21 de junho de 2011
Dia de solstício, dia de São João!
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